Crítica | Rampage: Destruição Total

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A primeira pergunta que qualquer cinéfilo deve fazer durante a sessão de Rampage, é a seguinte: será que existe uma cláusula contratual de Dwayne Johnson para controlar pessoalmente os seus figurinos, fazendo com que tenha uma espécie de uniforme, vestido inadvertidamente a cada filme, muitas vezes saindo apenas com alguns rasgões, a despeito de quase ter morrido umas 500 vezes durante uma “destruição total” de Chicago, por exemplo? Com ou sem um figurino, porém, The Rock segue esbanjando carisma e mais uma vez trabalha com o diretor Brad Peyton (Terremoto: A Falha de San Andreas) em um filme de destruição. Só que desta vez, com bichos mutantes e gigantes.

Rampage é baseado no arcade homônimo de 1986, jogo onde três indivíduos eram infectados e entravam em um processo de mutação, tornando-se um gorila gigante após uma vitamina experimental (George, o pseudo-King Kong da turma); um lagartão meio dinossauro após contato com um lago radioativo (Lizzy, a pseudo-Godzilla da turma); e um mega-lupino após um aditivo alimentar (Ralph, o pseudo-Lobisomem da turma). Em Destruição Total, porém, nada disso acontece. O roteiro risível e capenga escrito a oito mãos não chegaria à finesse de criar uma trama tão “intricada” para a transformação dos bichos. E aí já sabemos que o propósito dessa leitura de Rampage para os cinemas é a mais rasa, absurda, descerebrada e descompromissada possível. O resultado? Uma obra realmente divertida para a qual a exigência de suspensão da descrença é, sem sombra de dúvida, mais de oito mil.

The Rock vive Davis Okoye, um primatologista que se dá muito melhor com os animais do que com os humanos. Ele tem sob seus cuidados o gorila albino George, que serve de ligação imediata do público com a mutação que irá acontecer, neste caso, não com os humanos, mas diretamente com os animais. Desde muito cedo no filme as cenas de ação, a destruição de algumas paredes e a promessa de uma batalha épica entre os monstros é lançada, e nós esperamos por isso. Mas não há absolutamente mais nada que o filme prometa. O que teremos daí para frente é “mais do mesmo” no que se refere à destruição de uma cidade e, preenchendo o buraco da parte que ninguém se importa (exceto pela presença de Dwayne Johnson que, ainda assim, não parece totalmente à vontade no papel), estão os humanos, a pior parte do filme — sim, parece o Godzilla de 2014 tudo de novo… Os diálogos entre os personagens são majoritariamente estúpidos e é quase impossível não se envergonhar pelo horroroso plano dos vilões (por si só, dois dos piores personagens do cinema em 2018) para se livrarem dos animais mutantes.

Sem contar que ainda temos indivíduos questionáveis no meio do caminho, os militares ou agentes especiais do governo, que disputam com os vilões à la Pinky e o Cérebro o prêmio de “ocupar espaço morto em um roteiro“. Um possível destaque poderia ser feito para Jeffrey Dean Morgan, mas sua presença, apesar de não ser ruim, não acrescenta muito à história. Muito disso vem pela preguiça do ator em não construir um personagem reconhecível especialmente para o filme, contentando-se em interpretar uma versão terno-e-gravata de Negan. Ou seja, sem ajuda do roteiro e com a nivelação por baixo de alguns atores, não era de se esperar que a dramaturgia constasse entre as melhores coisas da obra, correto? Mas sofrimento mesmo é observar Naomie Harris conversando com Dwayne Johnson. A falta de noção, o clichê mal colocado e a pobreza dos diálogos contribuem ainda mais para afastar o público da personagem, que só é parcialmente tolerável porque detém informações capazes de fazer com que o mundo seja salvo.

A esta altura da crítica, o leitor deve se perguntar: com tanto problema de estrutura da história, de construção de personagens e até de atuações, como é possível que o filme tenha recebido uma avaliação positiva? Afinal, três estrelas é “bom“! Pois é, caro destruidor de paredes, você está correto em seu pensamento. Mas também a esta altura da crítica, você já percebeu o destaque dado ao “descompromisso” desse mesmo roteiro, ressaltando o fato de que o que realmente importa nesta fita são os bichões, o esmaga-prédios e a pancadaria entre eles. E acreditem, nisso, o filme é muito bom. E funciona, nesse aspecto, em quase todos os setores técnicos. O humor, nesses momentos, ganha ares cínicos e há boa inserção de palavrões, sangue, bobagens hilárias vindas de The Rock e a imensamente adorável relação que ele tem com George, que é um troll de primeira. Os efeitos especiais e visuais são muito bem cuidados nas cenas de ação, guardando um absurdo nível de detalhe. Os planos do jacaré-dino-demônio com a boca aberta são os meus favoritos durante as batalhas. O bicho é visualmente incrível e sua animação é bárbara. E o lobo, mesmo não sendo lá essas coisas, não faz feio.

O trabalho que não faz nos espaços civis e nas cenas de contexto social, Brad Peyton compensa na cenas de ação, novamente, o que importa no filme. Sua assinatura é tão instigante no último ato, que até nos esquecemos de uma parte dos dissabores sofridos com frases infantis ao longo do filme inteiro. A batalha final é bem montada, acompanhada por um desenho sonoro intenso (exagerado, claro, mas não ruim; assim como a trilha sonora cheia de intromissões, mas também não ruim) e doses super-heroicas de coisas impossíveis para um ser humano fazer, mesmo este ser humano sendo The Rock. E mesmo assim ele faz. E é muito divertido de ver, se você comprou a ideia desde o começo. Rampage é daqueles filmes que realmente valem a pena desligar o cérebro para se entregar ao “ópio óptico”, porque a parte prometida, ao contrário de certas franquias, é entretenimento muito bem guiado, digno de torcida e comemoração por parte do espectador. Ainda é cedo para pedir Rampage 2: A Missão?

Rampage: Destruição Total (Rampage) — EUA, 2018
Direção: Brad Peyton
Roteiro: Ryan Engle, Carlton Cuse, Ryan J. Condal, Adam Sztykiel
Elenco: Dwayne Johnson, Naomie Harris, Malin Akerman, Jeffrey Dean Morgan, Jake Lacy, Joe Manganiello, Marley Shelton, P.J. Byrne, Demetrius Grosse, Jack Quaid, Breanne Hill, Matt Gerald, Will Yun Lee, Urijah Faber, Bruce Blackshear
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.