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Crítica | Raposa de Fogo

por Ritter Fan
16 views (a partir de agosto de 2020)

Em seus aspectos principais, Raposa de Fogo lembra muito Escalado para Morrer, também dirigido e estrelado por Clint Eastwood. Lá, como aqui, um profissional é retirado da aposentadoria para um serviço que envolve infiltração e espionagem e lá, como aqui, o filme se perde em dois longos terços de enrolação que servem como armação para todo o propósito de sua existência: as respectivas e incomuns sequências finais de ação. Pelo menos Raposa de Fogo consegue manejar um pouco melhor seu começo, sem as bizarrices do filme de escalada de Eastwood, ainda que seu “grande momento” seja inferior aos stunts do ator/diretor na obra de sete anos antes.

Figurinha fácil da televisão aberta brasileira dos anos 80, o longa é baseado no romance homônimo de Craig Thomas de 1977 que, como tantos outros, se beneficia do clima paranoico trazido pela Guerra Fria e de inspiração no episódio real da defecção do piloto Viktor Belenko, que trouxe ao ocidente informações mais detalhadas sobre o MiG-25. No filme, o major Mitchell Gant (Eastwood), piloto durante a Guerra do Vietnã que sofre de transtorno do estresse pós-traumático que o paralisa em momentos de crise e que largou a força aérea para uma aposentadoria idílica no Alasca, é arrancado de seu pequeno paraíso e convocado a roubar um moderníssimo avião soviético que não só consegue chegar a Mach 6, como é invisível ao radar e tem um sistema de armas que funciona com o pensamento do piloto, pensamento esse que, claro, precisa ser em russo, justificando a escolha de Gant apesar de seu distúrbio, já que ele tinha mãe russa e fala a língua com fluência desde o berço.

Começa, então, o treinamento do ex-piloto e a revelação dos detalhes da infiltração, que começa com ele assumindo a identidade de um traficante de drogas americano procurado pela KGB. Durante pelo menos 70 minutos de projeção, o filme é praticamente composto de estratagemas de fuga em plena Moscou, com constante trocas de identidades e um Gant completamente perdido na arte da espionagem, mais parecendo um senhor de idade com Alzheimer tendo que ser lembrado do que precisa fazer a cada segundo, algo que fica ao encargo de Pavel Upenskoy (Warren Clarke), dissidente soviético que odeia a KGB.

O roteiro de Alex Lasker e Wendell Wellman (o primeiro em seu primeiro texto e, o segundo, em seu único) não sabe muito bem o que fazer e investe tempo demais nesse jogo de gato e rato que, porém, carece não só de verossimilhança, como não consegue criar tensão alguma. Eastwood, na direção, também não parece saber construir uma narrativa sólida e deixa o filme correr solto entre perseguições noturnas a pé e de carro e uma infiltração na base soviética que ocorre tão facilmente que chega a ser engraçada. É como se toda a equipe técnica não estivesse muito interessada nos momentos anteriores ao roubo do avião, mas precisava esticar o filme já que o orçamento não permitiria muito tempo de perseguições aéreas.

Quando o grande momento chega – o roubo – ele é completamente anticlimático e mais uma vez cheio de conveniências que cansam um pouco o espectador e fazem gato e sapato da suspensão da descrença. Mas, como em Escalado para Morrer, quando finalmente a ação principal começa, o filme muda quase que completamente. Claro que as peripécias de Eastwood sem dublê no monte Eiger são mais impressionantes do que ele sentado o tempo todo no cockpit de um avião, mas a tecnologia à época inédita usada para fotografar o avião em voo – uma espécie de chroma key invertido – impede aquela impressão visual ruim de objetos destacados do fundo, criando uma razoavelmente perfeita integração (para 1982, claro!).

No entanto, quando a novidade se esgota e o espectador percebe que ainda faltam alguns bons minutos para o longa acabar, fica visível mais uma vez que o roteiro não tinha muita história para contar e Eastwood acaba usando tomada atrás de tomada para mostrar as habilidades do avião, mas que, curiosamente, jamais enfatizam justamente suas características únicas: a hipervelocidade, a invisibilidade a radar e o sistema de armas acionado pelo pensamento. Para começar, Gant permanece voando em velocidade razoavelmente baixa o tempo todo, jamais alcançando o mítico Mach 6. Além disso, a invisibilidade é patética, pois o avião é mantido sob os olhos soviéticos o tempo todo, seja pela assinatura de som e de calor das turbinas, seja usando a tecnologia do “olhômetro” mesmo. Finalmente, as “sensacionais” armas acionadas pelo pensamento não só são mostradas em câmera com Gant falando seu pensamento, o que automaticamente elimina a velocidade com que tudo deveria acontecer, como em momento algum isso é trabalhado como uma vantagem na prática. Já que estamos falando de Rússia, então cabe citar que Eastwood tinha não só uma, mas três “armas de Tchekhov” e ele não usa nenhuma delas corretamente… Pelo menos o transtorno traumático de Gant ganha relevo ao longo do filme, sendo usado em momentos-chave, mas com resolução constantemente simples demais.

Apesar de ter marcado sua época, Raposa de Fogo é um filme que em momento algum faz verdadeiro uso do potencial inato de sua história. Não consegue ser bem sucedido como um filme de espionagem e não consegue ser bem sucedido como filme de ação ou thriller. Ainda tem seus momentos divertidos e as tomadas do avião em voo e, depois, reabastecendo, são bem trabalhadas, mas não muito mais do que isso.

Raposa de Fogo (Firefox, EUA – 1982)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Alex Lasker, Wendell Wellman (baseado em romance de Craig Thomas)
Elenco: Clint Eastwood, Freddie Jones, David Huffman, Warren Clarke, Ronald Lacey, Kenneth Colley, Klaus Löwitsch, Nigel Hawthorne, Stefan Schnabel, Thomas Hill, Clive Merrison, Kai Wulff, Dimitra Arliss, Austin Willis, Michael Currie, Alan Tilvern, Hugh Fraser, Wolf Kahler
Duração: 136 min.

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