Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Rashomon (1950)

Crítica | Rashomon (1950)

por Luiz Santiago
1195 views (a partir de agosto de 2020)

Rashomon (1950) é um daqueles filmes que conseguiram ser lançados por um golpe de sorte e que por maior sorte ainda, conseguiram alcançar, em seu tempo, o reconhecimento que mereciam. Realizado no mesmo ano que O EscândaloRashomon sobreviveu a três grandes incêndios antes de sua finalização e teve duas redublagens, além de duas gravações para a trilha sonora, a última delas, feita às pressas para a distribuição internacional da fita. O filme encantou a representante da Italiafilm, que resolveu inscrevê-lo no 12º Festival de Cinema de Veneza, mesmo sem consultar Kurosawa. Todavia, isso não foi um problema. Rashomon sairia do Festival com o Leão de Ouro e ainda receberia uma indicação ao Oscar de Direção de Arte em Preto e Branco e um Oscar Honorário em 1953. A obra foi o trampolim para Akira Kurosawa prosseguir com sua carreira e, sobre ela, o próprio mestre já se pronunciava: fui poupado de ser deixado de lado.

Todo esse afã, no entanto, não é gratuito. Rashomon é sem dúvida uma das grandes obras do cinema e um marco inquestionável na filmografia de Akira Kurosawa. O título é um dos mais lembrados do cinema japonês dos anos 1950, especialmente porque sua popularidade trouxe à produção nipônica uma lufada de ânimo e abertura garantida para o mercado Ocidental, espaço que Kurosawa saberia aproveitar muitíssimo bem.

O roteiro do longa é resultado da primeira parceria de Kurosawa com Shinobu Hashimoto, um colaborador que voltaria a trabalhar com o mestre em ViverOs Sete SamuraisAnatomia do Medo e Trono Manchado de Sangue. O argumento, por sua vez, vem da literatura. Inicialmente, o texto era uma adaptação do conto No Matagal (1922), do escritor Rynosuke Akutagawa. O conto relata a morte de um samurai e o estupro de sua esposa por um bandido. Não há narrador no conto, apenas os depoimentos do lenhador, de um monge, da mulher, do bandido e do morto (através de uma médium) a um Inquiridor.

A história ainda precisava de algo que a sustentasse melhor, uma linha narrativa menos aberta, por isso o conto Rashomon (1915), do mesmo autor, foi adicionado ao roteiro, ligado de uma forma bastante interessante aos acontecimentos principais. O mix entre as duas produções ganhou uma forma narrativa complexa, sendo a história central vista no presente — enquanto três transeuntes esperam uma forte chuva passar, protegendo-se embaixo do portal de Rashomon, na entrada de Kyoto. A história apresentada nos leva para os depoimentos dados ao Inquiridor, ou seja, um flashback que, por sua vez, nos leva a um outro flashback, mostrando acontecimentos dentro do matagal, segundo a versão de cada um dos depoentes.

O trabalho dos roteiristas em cima da obra literária é bastante eficaz. A essência dos contos é mantida e as modificações são estruturalmente necessárias, principalmente porque agregam muito à visão de Kurosawa sobre a índole humana e o aflorar dos sentimentos nas mais diversas situações. Talvez, no desfecho da película, o roteiro tenha posto um ponto final em algo que ainda não cabia um ponto. Não digo que o término seja insatisfatório, mas a passagem de um assunto para outro, o aparecimento do bebê e o resgate da fé na humanidade não deveriam ter vindo na mesma sequência de acontecimentos. A sensação de que algo faltou para melhor ligar essas partes está presente em todas as vezes que revejo o filme, embora goste muitíssimo dele e do modo como termina — mesmo que, como já disse, sinta a falta de ‘alguma coisa’.

Como diretor, Kurosawa não deixou de ousar. A dublagem da médium com a voz do morto, a orientação para a equipe de montagem e para a épica música de Fumio Hayasaka cercam o filme com um poder e uma leveza tremendos. Essa sensação fica mais forte com a direção de atores, que mostra personagens psicologicamente diferentes e uma postura bufona que tende à perturbação, no caso do bandido Tajômaru, muitíssimo bem interpretado por Toshiro Mifune. Em cada um dos lugares e tempos em que vemos ações acontecerem, percebemos uma nuance dramática distinta, o que comprova a eficiente direção de Kurosawa e como o diretor tinha o cuidado de fazer esses espaços se ligarem em um movimento contínuo, dando-nos a impressão de que tudo é um fluxo incessante de ideias e eventos, seja em uma visão real (a linha do tempo dos personagens) ou em uma visão simbólica/natural (a alternância pontualíssima entre sol, vento e chuva).

Rashomon é um filme sobre verdade e mentira, sobre a memória e a veracidade de acontecimentos recentes; sobre várias versões para uma mesma história. Particularmente tenho ressalvas para algumas coreografias de luta e mesmo para o que acontece após o último enfrentamento vindo na segunda versão da história do lenhador, mas isso não é nada comparado à grandeza da fita, portanto, não diminuem a importância que vejo na obra e muito menos a sua qualidade. Rashomon é um dos filmes essenciais para qualquer cinéfilo e foi uma belíssima catapulta de mercado para Akira Kurosawa.

Rashomon (Japão, 1950)
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto (baseado no conto de Rynosuke Akutagawa).
Elenco: Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijirô Ueda, Noriko Honma, Daisuke Katô
Duração: 88 min.

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39 comentários

Lucas Macedo 1 de outubro de 2020 - 16:53

Gostei muito do filme. Acreditei na 4 versão dos fatos por eu ter tido uma crise de risos no embate final (A cena de luta do marido contra o estuprador pareceu uma cena dos trapalhões – e sim, eu amei). No fim, o verdadeiro vilão desse filme foi o machismo. A mulher, em todas as versões, foi mostrada como um objeto, inclusive ela mesma se colocou nessa posição. E, sim, o final foi meio vago. Eu daria 4/5

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Luiz Santiago 1 de outubro de 2020 - 20:59

Pois é, cada versão tem a sua própria caraterística e simboliza algo bem específico, foi maravilhoso o que Kurosawa conseguiu fazer aqui. Aliás, bem legal você levantar o ponto de vista do machismo permeando essas visões, inclusive a da mulher!

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Filmes japoneses, qual a história? 19 produções para conhecer – Arquiteta Giovanna 13 de julho de 2020 - 10:27

[…] Cineset Veja Satélite Vertebral Festival de Cannes Veja  Medium Cinema de Buteco Gaúcha ZH Wikipédia Plano Crítico […]

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Filmes japoneses, qual a história? 19 produções para conhecer 13 de julho de 2020 - 09:00

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vc falou em pipoca? 12 de dezembro de 2018 - 00:13

Esse filme me lembrou ‘o amante duplo’, no final a gente escolhe qual história é fato.

Responder
Luiz Santiago 12 de dezembro de 2018 - 00:59

Não vi o Amante Duplo, mas aqui é mais ou menos por esse caminho mesmo. Só que não apenas no final…

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vc falou em pipoca? 12 de dezembro de 2018 - 01:25

Lamento, acho que estraguei um pouco da experiência que vc vai ter com ‘amante duplo’, apesar de não ter dado nenhum spoiler.
E realmente tiveram várias partes de ‘rashomon’ com rumo bem inesperado, mesmo quando eu escolhi em qual versão acreditar ainda ficou o mistério de “pq o personagem tal mentiria sobre isso?” ou “quem garante que ele não mentiu sobre isso?”, sem contar que muitas das minhas surpresas vieram de noções pré-estabelecidas sobre os personagens.

Spoiler pra quem não viu
Eu não esperava que o ladrão recusaria/abandonaria a moça após ela se submeter a ele, e muito menos que a mesma o desejaria após o abuso, o ser humano é imprevisível.

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Luiz Santiago 12 de dezembro de 2018 - 01:53

Esse tipo de enigma ou base narrativa é uma das coisas mais legai de obras com várias histórias sobre um mesmo acontecimento, né.

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vc falou em pipoca? 12 de dezembro de 2018 - 01:57

É sim, mas isso é novidade pra mim, conheço poucos filmes que façam algo parecido com esses dois.

Crítica | Rashomon (1950) – Críticas 27 de abril de 2018 - 00:20

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Luiz Santiago 26 de abril de 2018 - 08:21

Pessoal, essa foto é maravilhosa demais para não compartilhar com vocês. Este agachado é Kurosawa, novinho, e, na parede, o elenco de Rashomon.

https://uploads.disquscdn.com/images/63918cbe12391961569121169206a6ddf51c244c3ea1023415dd2978b4504047.png

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Luiz Santiago 26 de abril de 2018 - 08:21

Pessoal, essa foto é maravilhosa demais para não compartilhar com vocês. Este agachado é Kurosawa, novinho, e, na parede, o elenco de Rashomon.

https://uploads.disquscdn.com/images/63918cbe12391961569121169206a6ddf51c244c3ea1023415dd2978b4504047.png

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vc falou em pipoca? 12 de dezembro de 2018 - 00:08

Tão belo quanto spielberg na boca do bruce rsrsrs.

Responder
Gabriel Pereira 4 de abril de 2017 - 15:48

Bela crítica Luiz, gostei muito do filme, e das lições que ele passa. Ah, gostaria de saber de você, o que acha do filme O Último Samurai, um filme que me agrada bastante. Abraço.

Responder
Luiz Santiago 4 de abril de 2017 - 19:24

Valeu, man!
Cara, eu realmente gosto de O Último Samurai. De verdade. Claro que traz uma visão diferente para o gênero, mas é muito bem dirigido e tem uma equipe técnica maravilhosa, além de uma história poderosa. Gosto mesmo.

Responder
Gabriel Pereira 4 de abril de 2017 - 19:29

Sim, é diferente para o gênero, gosto muito dele, retrata os samurais muito bem e tem uma história linda, perguntei mais por não ter a crítica dele aqui, e queria saber a opinião de você, já que curte esse estilo tb. Obrigado.

Responder
Luiz Santiago 4 de abril de 2017 - 22:53

Vou botar essa na lista de futuras críticas! 😀

Responder
Lucas 17 de maio de 2016 - 18:25

Finalmente venci um certo preconceito que tinha com filmes japoneses e assisti meu primeiro filme do Kurosawa. Curiosamente já tinha carregado ele para ver quando entrei no Facebook e vi a atualização da página do site mostrando a crítica.
Gostei do filme e, principalmente, da atuação do bandido e concordo sobre um final deixar uma sensação de algo faltando. Mas ainda não conseguiu despertar meu interesse no cinema japonês.
Quem sabe um dia crio coragem de encarar as mais de 3 horas de Os Sete Samurais e isso mude!hahaha

Responder
Lucas 17 de maio de 2016 - 18:25

Finalmente venci um certo preconceito que tinha com filmes japoneses e assisti meu primeiro filme do Kurosawa. Curiosamente já tinha carregado ele para ver quando entrei no Facebook e vi a atualização da página do site mostrando a crítica.
Gostei do filme e, principalmente, da atuação do bandido e concordo sobre um final deixar uma sensação de algo faltando. Mas ainda não conseguiu despertar meu interesse no cinema japonês.
Quem sabe um dia crio coragem de encarar as mais de 3 horas de Os Sete Samurais e isso mude!hahaha

Responder
Luiz Santiago 17 de maio de 2016 - 22:27

Tem um filme do Kurosawa chamado VIVER. Quando tiver uma oportunidade, dê uma chance a ele. Talvez ele te faça olhar as produções japoneses com outros olhos. E no caso dos modernos, talvez você vá gostar dos filmes do Studio Ghibli. É parte da nata do cinema japonês. E também uma aimação chamada Paprika (mas essa veja quando você estiver sóbrio, porque é tanta viagem que você vai sair gritando “BEU DEUSU Q Q TÁ CONTESENU????” ).

Responder
Luiz Santiago 17 de maio de 2016 - 22:27

Tem um filme do Kurosawa chamado VIVER. Quando tiver uma oportunidade, dê uma chance a ele. Talvez ele te faça olhar as produções japoneses com outros olhos. E no caso dos modernos, talvez você vá gostar dos filmes do Studio Ghibli. É parte da nata do cinema japonês. E também uma aimação chamada Paprika (mas essa veja quando você estiver sóbrio, porque é tanta viagem que você vai sair gritando “BEU DEUSU Q Q TÁ CONTESENU????” ).

Responder
Lucas 17 de maio de 2016 - 23:19

Vou procurar esse filme Viver!
Do Studio Ghibli eu vi A Viagem Chihiro, Meu Amigo Totoro e Túmulo dos Vagalumes. Gostei MUITO de todos! Túmulo de Vagalumes então.. Me fez chorar bastante!hahaha
Esse Paprika já ouvi falar por alto em algum lugar.. Vou procurar saber melhor!
E alguns filmes de terror como os originais de O Chamado e O Grito me agradam bastante também.

Responder
Lucas 17 de maio de 2016 - 23:19

Vou procurar esse filme Viver!
Do Studio Ghibli eu vi A Viagem Chihiro, Meu Amigo Totoro e Túmulo dos Vagalumes. Gostei MUITO de todos! Túmulo de Vagalumes então.. Me fez chorar bastante!hahaha
Esse Paprika já ouvi falar por alto em algum lugar.. Vou procurar saber melhor!
E alguns filmes de terror como os originais de O Chamado e O Grito me agradam bastante também.

Responder
Luiz Santiago 18 de maio de 2016 - 02:42

Ah, então você não é exatamente tão afastado do Cinema Japonês!!! E eu aqui já preocupado! hahahahhahah

Responder
Lucas 18 de maio de 2016 - 03:36

hahahahahaha
Já vi algumas coisas, só não me aprofundei muito ainda.

Lucas 18 de maio de 2016 - 03:36

hahahahahaha
Já vi algumas coisas, só não me aprofundei muito ainda.

Lucas 19 de maio de 2016 - 04:44

Luiz, vou aproveitar o espaço e te pedir pra colocar um filme na sua lista de próximas críticas, se é que já não está.
Assisti de novo hoje O Advogado do Diabo e é um filme que marcou muito a minha adolescência e por isso talvez minha memória afetiva tenha um efeito sobre a minha visão! Gostaria muito de ler sua crítica, saber sua visão sobre o filme e também sobre o Keanu Reeves não só nele, mas suas atuações de modo geral.
Obrigado!

Lucas 19 de maio de 2016 - 04:44

Luiz, vou aproveitar o espaço e te pedir pra colocar um filme na sua lista de próximas críticas, se é que já não está.
Assisti de novo hoje O Advogado do Diabo e é um filme que marcou muito a minha adolescência e por isso talvez minha memória afetiva tenha um efeito sobre a minha visão! Gostaria muito de ler sua crítica, saber sua visão sobre o filme e também sobre o Keanu Reeves não só nele, mas suas atuações de modo geral.
Obrigado!

Luiz Santiago 20 de maio de 2016 - 10:56

Eu gosto do Keanu Reeves, mas percebo que ele acabou tendo um mesmo padrão ao longo dos anos, com poucas exceções. O Advogado do Diabo é uma delas. Está na nossa lista sim, viu! Se não for eu, algum outro articulista do site vai escrever.

Luiz Santiago 20 de maio de 2016 - 10:56

Eu gosto do Keanu Reeves, mas percebo que ele acabou tendo um mesmo padrão ao longo dos anos, com poucas exceções. O Advogado do Diabo é uma delas. Está na nossa lista sim, viu! Se não for eu, algum outro articulista do site vai escrever.

Lucas 20 de maio de 2016 - 14:40

Boa notícia! Quero muito ler!
Pois é.. Eu tenho sempre a impressão que em todos os papéis ele tem a mesma cara, o mesmo ar blasé.
Guardadas as devidas proporções, comparo ele com o Murilo Benício!hahahaha

Lucas 20 de maio de 2016 - 14:40

Boa notícia! Quero muito ler!
Pois é.. Eu tenho sempre a impressão que em todos os papéis ele tem a mesma cara, o mesmo ar blasé.
Guardadas as devidas proporções, comparo ele com o Murilo Benício!hahahaha

Luiz Santiago 20 de maio de 2016 - 22:35

Murilo Benício! AUHAUAHUAHAUHAUAHUAHUAHAUHAUAHAUHAUAHUAAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHUAHUAHAUHUHAUHAU

Eu to morrendo de rir!!!

Luiz Santiago 20 de maio de 2016 - 22:35

Murilo Benício! AUHAUAHUAHAUHAUAHUAHUAHAUHAUAHAUHAUAHUAAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHUAHUAHAUHUHAUHAU

Eu to morrendo de rir!!!

Lucas 20 de maio de 2016 - 22:55

hahahahahahahahahahahaha
Peguei pesado com o Keanu Reeves né?!

Lucas 20 de maio de 2016 - 22:55

hahahahahahahahahahahaha
Peguei pesado com o Keanu Reeves né?!

Luiz Santiago 20 de maio de 2016 - 23:54

Orra! E eu dizendo que sou “do mal”, daí aparece você fazendo essa comparação! HAHHAHAHHAHAH #MORRI

Luiz Santiago 20 de maio de 2016 - 23:54

Orra! E eu dizendo que sou “do mal”, daí aparece você fazendo essa comparação! HAHHAHAHHAHAH #MORRI

vc falou em pipoca? 12 de dezembro de 2018 - 00:14

Essa paprika bastou só uma cena no face pra eu entrar em curto, imagina o filme todo.

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