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Crítica | Ratched – 1ª Temporada

por Ritter Fan
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Vou começar contando um segredo. Já tendo escrito algumas milhares de críticas, tornou-se um hábito eu já imaginar o que escreverei na medida em que determinada obra progride. É algo inconsciente, automático e que, pelo menos para mim, gera bons frutos, mesmo que por vezes eu tenha que parar para fazer breves anotações de palavras-chave que vêm à cabeça. E isso é particularmente mais verdadeiro no caso de séries de TV, em que há tempo de sobra para que esse processo ocorra, especialmente considerando que, mesmo quando preciso assistir algo correndo – o que costumo abominar – eu tento espaçar os episódios o máximo possível.

Por que estou falando de mim e não de Ratched? Simples: eu precisava contextualizar o começo de meus comentários. Afinal, lá pelo encerramento do terceiro episódio da nova série de Ryan Murphy que pretende contar a origem de uma das mais sensacionais vilãs da literatura e do cinema, a Enfermeira Ratched do clássico romance Um Estranho no Ninho, de Ken Kesey que ganhou premiadíssima versão cinematográfica homônima em 1975 por Milos Forman, tinha a mais absoluta certeza que minha missão seria escrever um arrazoado para convencer os leitores o quão sensacional era a série.

Estava tudo pronto nos recônditos de minha mente. Eu iria começar afirmando que, se alguém tivesse algum problema por essa série fazer exatamente o que Bates Motel fez para a mitologia de Psicose e que isso era desnecessário, era só fingir que a obra é sobre uma enfermeira qualquer, pois as conexões com o livro/filme são, pelo menos nesta 1ª temporada, completamente inconsequentes e no máximo, com muito boa vontade, tênues. O nome famoso foi claramente usado para vender a história e não muito mais do que isso.

Na verdade, iria além. Eu asseveraria, para quem quisesse ler, que a atuação de Sarah Paulson como a personagem título é o exato oposto da oscarizada Louise Fletcher. A maldade quieta e ameaçadora de Fletcher, com olhares e ranger de dentes, abre espaço para o mais completo histrionismo de Paulson completamente sem freios em seu papel. E mais! Todos a seu redor são assim, seja o misterioso Dr. Richard Hanover (Jon Jon Briones), diretor do hospital psiquiátrico de Lucia, onde Ratched se infiltra, seja a fogosa, mas rígida enfermeira-chefe Betsy Bucket (Judy Davis), ou até mesmo o egoísta governador da Califórnia George Willburn (Vincent D’Onofrio) que usa a clínica como parte de sua estratégia de reeleição.

E a história mesmo já exigira que esquecêssemos da Ratched que conhecemos das obras originais. Ela é como uma música tocando no volume 11 de um amplificador com caixas de som poderosas, ou seja, algo que não dá a oportunidade de ninguém pensar em seus detalhes ou raciocinar demais. Mas eu afirmaria isso como um elogio e combinaria com o acachapante e inebriante visual da série, com cenários suntuosos e de extremo bom gosto – o hospital, da recepção à sala do Dr. Hanover, é belíssimo! – que hipnotizam qualquer um imediatamente, com uma direção de arte de se tirar o chapéu e que se estende aos figurinos, aos veículos utilizados, ao motel onde Ratched vive e até mesmo à surrealmente tumultuada (e essa sim de mau gosto, só que de propósito) casa da herdeira milionária Lenore Osgood (Sharon Stone), cuja função na história não detalharei para manter a crítica sem spoilers.

E é claro que eu não esqueceria de dizer – no caso, repetir – que a série é de Ryan Murphy e que não é razoável esperar dele algo diferente do que as causas sócio-políticas que lhe são caras comandando e até atropelando a narrativa e não o contrário. Ou seja, a série é apenas um veículo para ele transmitir seu pensamento e isso acontece a tal ponto que a história é um detalhe com que o espectador não deveria se preocupar tanto, considerando o quanto de beleza e também de violência explícita que a série tem a oferecer com um tom camp, farsesco, altamente estiloso, com atuações que beiram –  e muitas vezes ultrapassam – o cartunesco em meio a importantes, mas extremamente didáticas mensagens que militam pela igualdade de gêneros, pela causa LGBTQ e assim por diante.

A cereja no bolo que minha mente já havia assado e colocado aquela deliciosa calda de doce de leite (não, eu não gosto muito de chocolate) era até um golpe baixo. Eu iria afirmar, com felicidade e um sorriso esperto no rosto, que a atmosfera da série carregava nos toques hitchcockianos, incluindo magníficos posicionamentos de câmera, closes e uma trilha sonora de Mac Quayle que muito claramente emula a que Bernard Hermann compôs para Psicose.

Mas então, de repente, toda essa minha construção lógica e efusiva, que certamente resultaria em uma crítica festejando Murphy e concluindo por pelo menos 4 HALs de avaliação, e que eu tinha preparado mentalmente até o final do terceiro episódio, talvez metade do quarto, começou a desmoronar pela mais completa falta de organização mínima do showrunner (em trabalho conjunto com Evan Romansky). Depois que a série chegou a seu pico, com o carro sendo empurrado valentemente por seus motoristas, ela começou a descer o morro desgovernada e enlouquecidamente, com as tramas se dividindo em sub-tramas que, então, são convertidas em flashbacks de mais origens, mais histórias pregressas (ainda que o flashback que tem com catalisador um show de marionetes tenha sido uma boa ideia) e mais planos mirabolantes que dependem de uma cada vez mais complicada sucessão de conveniências.

Até mesmo a Enfermeira Ratched – a personagem – sofre com isso. Notem como ela começa bem mais diabólica do que poderíamos esperar, cometendo atos de impressionante maldade para alcançar seus objetivos escusos – mas que são bem óbvios e eu estou sendo apenas extra-cuidadoso com spoilers -, somente para ela amolecer ao longo do caminho, acabando quase como uma heroína em uma progressão estranha, se não ilógica. Sim, existe um lado de libertação e de auto-descoberta que é parte da assinatura usual de Murphy, mas o desenvolvimento é canhestro, perdido em algum lugar entre o pêssego furtado por Bucket, ou talvez a cura gay por intermédio de escaldo e o macaco no ombro de Sharon Stone, ou o romance inesperado e completamente deslocado entre um prisioneiro e uma enfermeira, isso tudo cercado de split screens e passos em falso para enganar o espectador.

E vejam: muito do que eu mencionei no começo de meu comentário continua valendo até o final da temporada e a seguram lá na linha mediana. Há sim o que ser apreciado estilisticamente em Ratched. A série é inegavelmente linda e conta com um elenco que, uma vez que o espectador se acostuma com o tipo de atuação que Murphy certamente pediu de cada um, é facilmente apreciável, mas o roteiro parece ter sido escrito exatamente durante determinado flashback lisérgico e particularmente sanguinolento que os showrunners fazem questão de mostrar em detalhes a certa altura. Sabem aquela arte feita com um balde de tinta arremessado para o alto e que cai em cima de um enorme lençol branco fazendo as vezes de tela no chão? Pois é. Ratched é uma linda – por vezes fascinante – explosão multicolorida resultado da queda de um balde de tinta desses, que, porém, é vazia de significado. Minha esperança de desfilar elogios à série que achei que estava vendo até o terceiro episódio ficou só nos planos mesmo…

P.s.: Ryan Murphy precisa de umas férias. Talvez relaxar no México, quem sabe?

Ratched (EUA, 18 de setembro de 2020)
Desenvolvimento e showrunners: Evan Romansky e Ryan Murphy (baseado em obra de Ken Kesey)
Direção: Ryan Murphy, Nelson Cragg, Michael Uppendahl, Jessica Yu, Jennifer Lynch, Daniel Minahan
Roteiro: Evan Romansky, Ian Brennan, Jennifer Salt
Elenco: Sarah Paulson, Finn Wittrock, Cynthia Nixon, Jon Jon Briones, Charlie Carver, Judy Davis, Sharon Stone, Alice Englert, Amanda Plummer, Corey Stoll, Sophie Okonedo, Vincent D’Onofrio, Harriet Sansom Harris, Hunter Parrish, Rosanna Arquette, Stan Van Winkle, Annie Starke, Liz Femi, Brandon Flynn, Daniel Di Tomasso
Duração: 433 min. (oito episódios)

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