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Crítica | Ratos de Praia

por Luiz Santiago
432 views (a partir de agosto de 2020)

Existem aspectos da masculinidade que, se bem problematizados no cinema, podem gerar obras de profunda reflexão sobre o que é ser e sentir-se homem, no aspecto de “papel social” (para exibição, como expressão de gênero); e o que é ser e sentir-se homem como característica íntima, no olhar para o corpo e no exercício da libido (com o sentimento, o conforto — e também os desconfortos! — de pertencer a um gênero com o qual se identifica). Escrito e dirigido por Eliza Hittman, Ratos de Praia (2017) se propõe a olhar para essa questão a partir de um polo que conhecemos de diversos outros filmes: a do jovem no conhecido ambiente machista de nossa sociedade, um lugar não necessariamente homofóbico (no caso desse jovem), mas claramente resistente a posturas do homem que não sejam as do predador de mulheres, do soldado, do porto seguro para todas as ocasiões possíveis e imagináveis.

Entrelaçar a temática LGBT+ nesse tipo de Universo pode tornar as coisas ainda mais interessantes e, em partes, é mergulhando nesse aspecto que o roteiro de Ratos de Praia se desenvolve, mostrando como o personagem de Harris Dickinson (em seu primeiro filme) lida com questões sentimentais e com problemas familiares; como ele se coloca diante da irmã mais nova; como (des)trata a mãe; como se relaciona com uma garota a fim dele; como se droga, sai com os amigos e, por fim, como passa as noites em um chat para conhecer homens mais velhos e transar de maneira descomprometida. Não há um trabalho de fato com a vida dupla do personagem aqui, embora o suspense ganhe sugestões em momentos distintos. O foco é sempre o indeciso Frankie, que o espectador não entende se realmente está indeciso em relação à sua sexualidade, ou se expõe essa indecisão por medo de aceitar-se de verdade.

Um caminho para pensar a obra é a angústia diante da perspectiva de que algo ruim vai acontecer — nós já estamos acostumados com o típico “filme gay trágico“, não é mesmo? –, mas nem a sexualidade e nem o trabalho com a masculinidade do protagonista são, como imaginávamos, o foco principal da diretora, que adiciona, sem desenvolver, alguns outros polos dramáticos no texto. Isso faz com que tenhamos um verdadeiro festival de “construção-desconstrução-reconstrução” no filme, e não de uma maneira positiva, porque nenhum desses status servem para colocar o personagem num ambiente novo, dando-lhe experiência, fazendo-o pensar, por um minuto apenas. No único momento em que isso ensaia aparecer, o texto quebra a promessa com uma cena densa de assalto e violência moderada, o que obviamente desvia o foco da percepção do protagonista para o que estava acontecendo, com um misto de culpa colossal, covardia, infâmia e impossibilidade moral de se colocar contra aquela situação, ao contrário, permitindo que ela acontecesse.

O protagonista apresenta uma condição inicial muito boa para ser problematizada, passa por diversas situações que o coloca em um limite como indivíduo, mas… e aí? Essa angústia toda, essa realidade brutal que vemos na tela tinha que sentido, dentro da obra? A justificativa de que “era apenas para mostrar a realidade” só pode ser comprada por cinéfilos novatos ou por quem realmente não consegue entender o que uma obra de ficção — realista ou não — deve entregar para o seu público em termos de enredo. Mesmo para cenários onde a indecisão, a estagnação étnico-moral, comportamental ou ideológica de um indivíduo sejam o objetivo final, é preciso que o texto nos prepare para isso com possíveis nuances de crescimento ou retrocesso dos indivíduos. Aqui, não temos nada disso. Os não-amigos Frankie são um peso morto — exceto pela já citada cena onde agem de maneira importante para o momento. A relação familiar do protagonista começa e termina em lugar nenhum, sendo mostrada para criar um ponto de conflito que jamais cresce. E, no fim, estamos apenas com um personagem solitário, que passa por uma porção de coisas para receber zero de desenvolvimento. A impressão que eu tenho é de estar assistindo a um trabalho escolar de alunos que estão lendo no papel o tempo inteiro… Apenas exposição fixa, mecânica e incômoda de algo que de deveria, mas não sai do lugar.

Predominantemente noturno, por motivos dramaticamente bem pensados, Ratos de Praia traz uma boa atuação de Harris Dickinson, com seus “tristes olhos azuis“, cenas de nudez muito bem filmadas e inseridas na trama, e um número grande de promessas que ficam apenas nisso mesmo, fechando a narrativa com um anticlímax que faz tudo parecer um imenso desperdício de tempo, proposta e personagem.

Ratos de Praia (Beach Rats) — EUA, 2017
Direção: Eliza Hittman
Roteiro: Eliza Hittman
Elenco: Harris Dickinson, Madeline Weinstein, Kate Hodge, Neal Huff, Nicole Flyus, Frank Hakaj, David Ivanov, Anton Selyaninov, Harrison Sheehan, Douglas Everett Davis, Gabriel Gans, Erik Potempa, Kris Eivers, J. Stephen Brantley, Christian Whelan
Duração: 98 min.

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8 comentários

Jhiullio Boltagon 2 de julho de 2020 - 00:57

Realmente uma perda de tempo. Não há mudança perceptível no protagonista e se ela não é percebida então não há desenvolvimento. Se a ideia foi mostrar a vida real então ela é assustadora de imaginar um cara que não consegue de forma alguma crescer mesmo em um ambiente que constantemente o desafia.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 2 de julho de 2020 - 02:46

E o roteiro tem vários meios e oportunidades para fazer isso, mas pouco sai do lugar. É uma pena.

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Dann Randus 11 de junho de 2020 - 19:58

Concordo totalmente com sua crítica! O filme vai do nada a lugar algum e, ao final, fiquei com a mesma sensação de perda de tempo e que o filme poderia ser mais ágil e ter sido melhor desenvolvido.
Gostei da interpretação de um dos comentaristas do site, sobre o personagem ter olhado para os fogos de forma diferente, quando antes nem se importava com eles, numa possível e sutil insinuação de mudança.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 11 de junho de 2020 - 20:02

O filme seguinte da diretora já tem uma abordagem bem mais interessante em termos de roteiro. O tema é diferente, mas a gente vê uma boa evolução dela como profissional. Se puder, veja!

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Soraya Montenegro 3 de junho de 2018 - 18:23

Eu gostei do filme, mas acho que faltaram mais conflitos do protagonista consigo mesmo, com a família e os amigos. Sobre o final, achei bem repentino e não sei se entendi

SPOILERS
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o menino se matou pq não aguentou a pressão de ser gay? Entendi isso por causa da fumaça preta tipo de revólver depois dos fogos coloridos.

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Luiz Santiago 3 de junho de 2018 - 22:51

Eu não tive essa impressão não. Acho que os fogos ali davam a ideia de ciclo, repetição, como se nada mudasse na vida dele. Realmente não interpretei como algo trágico para ele ali.

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Tiago Cardoso 2 de janeiro de 2019 - 03:00

Já eu interpretei esse final como uma mudança. Agora os fogos estavam diferentes. No inicio ele fala que os fogos são sempre iguais e nem da bola pra eles. Já no final ele olha os fogos como se fosse a primeira vez. Então, li como se ele começasse a se encontrar kkk viajei. Mas achei interessante as interpretações de vocês =)

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Luiz Santiago 2 de janeiro de 2019 - 03:34

Também gostei da sua! O bom de trocar essas ideias é conhecer justamente visões diferentes da nossa.

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