Crítica | Ratos de Praia

Existem aspectos da masculinidade que, se bem problematizados no cinema, podem gerar obras de profunda reflexão sobre o que é ser e sentir-se homem, no aspecto de “papel social” (para exibição, como expressão de gênero); e o que é ser e sentir-se homem como característica íntima, no olhar para o corpo e no exercício da libido (com o sentimento, o conforto — e também os desconfortos! — de pertencer a um gênero com o qual se identifica). Escrito e dirigido por Eliza Hittman, Ratos de Praia (2017) se propõe a olhar para essa questão a partir de um polo que conhecemos de diversos outros filmes: a do jovem no conhecido ambiente machista de nossa sociedade, um lugar não necessariamente homofóbico (no caso desse jovem), mas claramente resistente a posturas do homem que não sejam as do predador de mulheres, do soldado, do porto seguro para todas as ocasiões possíveis e imagináveis.

Entrelaçar a temática LGBT+ nesse tipo de Universo pode tornar as coisas ainda mais interessantes e, em partes, é mergulhando nesse aspecto que o roteiro de Ratos de Praia se desenvolve, mostrando como o personagem de Harris Dickinson (em seu primeiro filme) lida com questões sentimentais e com problemas familiares; como ele se coloca diante da irmã mais nova; como (des)trata a mãe; como se relaciona com uma garota a fim dele; como se droga, sai com os amigos e, por fim, como passa as noites em um chat para conhecer homens mais velhos e transar de maneira descomprometida. Não há um trabalho de fato com a vida dupla do personagem aqui, embora o suspense ganhe sugestões em momentos distintos. O foco é sempre o indeciso Frankie, que o espectador não entende se realmente está indeciso em relação à sua sexualidade, ou se expõe essa indecisão por medo de aceitar-se de verdade.

Um caminho para pensar a obra é a angústia diante da perspectiva de que algo ruim vai acontecer — nós já estamos acostumados com o típico “filme gay trágico“, não é mesmo? –, mas nem a sexualidade e nem o trabalho com a masculinidade do protagonista são, como imaginávamos, o foco principal da diretora, que adiciona, sem desenvolver, alguns outros polos dramáticos no texto. Isso faz com que tenhamos um verdadeiro festival de “construção-desconstrução-reconstrução” no filme, e não de uma maneira positiva, porque nenhum desses status servem para colocar o personagem num ambiente novo, dando-lhe experiência, fazendo-o pensar, por um minuto apenas. No único momento em que isso ensaia aparecer, o texto quebra a promessa com uma cena densa de assalto e violência moderada, o que obviamente desvia o foco da percepção do protagonista para o que estava acontecendo, com um misto de culpa colossal, covardia, infâmia e impossibilidade moral de se colocar contra aquela situação, ao contrário, permitindo que ela acontecesse.

O protagonista apresenta uma condição inicial muito boa para ser problematizada, passa por diversas situações que o coloca em um limite como indivíduo, mas… e aí? Essa angústia toda, essa realidade brutal que vemos na tela tinha que sentido, dentro da obra? A justificativa de que “era apenas para mostrar a realidade” só pode ser comprada por cinéfilos novatos ou por quem realmente não consegue entender o que uma obra de ficção — realista ou não — deve entregar para o seu público em termos de enredo. Mesmo para cenários onde a indecisão, a estagnação étnico-moral, comportamental ou ideológica de um indivíduo sejam o objetivo final, é preciso que o texto nos prepare para isso com possíveis nuances de crescimento ou retrocesso dos indivíduos. Aqui, não temos nada disso. Os não-amigos Frankie são um peso morto — exceto pela já citada cena onde agem de maneira importante para o momento. A relação familiar do protagonista começa e termina em lugar nenhum, sendo mostrada para criar um ponto de conflito que jamais cresce. E, no fim, estamos apenas com um personagem solitário, que passa por uma porção de coisas para receber zero de desenvolvimento. A impressão que eu tenho é de estar assistindo a um trabalho escolar de alunos que estão lendo no papel o tempo inteiro… Apenas exposição fixa, mecânica e incômoda de algo que de deveria, mas não sai do lugar.

Predominantemente noturno, por motivos dramaticamente bem pensados, Ratos de Praia traz uma boa atuação de Harris Dickinson, com seus “tristes olhos azuis“, cenas de nudez muito bem filmadas e inseridas na trama, e um número grande de promessas que ficam apenas nisso mesmo, fechando a narrativa com um anticlímax que faz tudo parecer um imenso desperdício de tempo, proposta e personagem.

Ratos de Praia (Beach Rats) — EUA, 2017
Direção: Eliza Hittman
Roteiro: Eliza Hittman
Elenco: Harris Dickinson, Madeline Weinstein, Kate Hodge, Neal Huff, Nicole Flyus, Frank Hakaj, David Ivanov, Anton Selyaninov, Harrison Sheehan, Douglas Everett Davis, Gabriel Gans, Erik Potempa, Kris Eivers, J. Stephen Brantley, Christian Whelan
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.