Crítica | Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio

Raul Seixas - O Inicio o Fim e o Meio plano critico

estrelas 4

Depois de Budapeste (2009), Walter Carvalho precisava de um tema mais outside para seguir na mesma “trilha de variedades” que ele vinha adotando desde a co-direção em Janela da Alma (2001), passando por sua estreia em Lunário Perpétuo (2003). Este seu projeto, um ótimo documentário sobre Raul Seixas, é um belo exemplo de como guiar um filme sobre um ícone da música brasileira e de como fazer com que este filme abrace um pouco a todos os públicos, do hater mais chato ao fanboy mais louco. O documentário é justamente isso, um abraço musical que envolve a plateia inteira e, mesmo que alguns momentos e escolhas do filme sejam dispensáveis, entusiastas da MPB e de biografias no cinema irão chegar ao final com um saldo bastante positivo sobre o que viu.

O Início, o Fim e o Meio não é um filme experimental ou psicodélico sobre Raul Seixas. O documentário é uma biografia detalhada e muito completa da vida do músico baiano e que também mostra as influências da geração brasileira do pós Segunda Guerra Mundial. O início, o fim e o meio de uma história quase mítica, com vasto e precioso material de arquivo, depoimentos reveladores e ótima contextualização histórica da carreira do artista. O espectador é presenteado com a criação compassada do ídolo brasileiro, desde suas bandas na juventude até a explosão contracultural que representou para o país, uma verdadeira mosca na sopa da ditadura.

Em 26 anos de carreira, Raul Seixas foi ignorado, amado, idolatrado e abandonado pela crítica e produção musical e por parte do público, uma verdadeira roda da fortuna que passou pelos pilares das drogas, das parcerias lendárias, das inúmeras mulheres e casamentos e da luta contra a doença, em um final de vida que poderia ser “menor”, mas que revelou uma vontade imensa de aproveitar aquele tempo que ainda lhe restava, tendo como produto os famosos 50 shows em 9 meses, o que acendeu chama raulseixista que hoje ainda arde. Mesmo a magra safra que vai do álbum Raul Seixas (1983) até o seu último disco, já em parceria com Marcelo Nova, A Panela do Diabo (1989), é abordada e dissecada no documentário, focando principalmente nas revelações de família e declarações sobre os momentos finais da vida do cantor.

Um verdadeiro problema narrativo se apresenta da metade do filme para frente: a falta de ritmo. A montagem se perde em cenas supérfluas e desnecessariamente longas, o que torna a segunda metade um tanto enfadonha. Até os depoimentos parecem deslocados, com todas as reticências de Paulo Coelho, os silêncios mal usados e a desnecessária linha paralela com narração ou interpretações de entrevistados. Quando isso acontece, no início do filme, o resultado é interessante, mas depois se torna um motivo a mais para o espectador se mexer na cadeira. O que acaba segurando é a forte história já construída e as músicas. Até a dramatização e enfoque sentimental seriam mais aceitáveis se o ritmo da montagem fosse preciso. Mesmo assim, os momentos finais colocam a maior parte das coisas de volta nos trilhos.

Para a geração brasileira que não conhece, de fato, o rock-baião de Raul Seixas, o documentário é mais que uma boa pedida. E não só para esse público. Muito do que é dito e mostrado no filme está em um contexto bem diferente do que já foi feito no cinema nacional sobre o músico, de modo que a sessão é realmente preciosa. Mesmo a participação marqueteira de Caetano Veloso, de quem Raul não gostava nada, tem seu valor. Fato curioso é que Caetano sempre admirou, ou sempre mostrou publicamente admirar a música de Raul Seixas, tendo inclusive lhe feito uma homenagem a ele com a música Rock’n Raul, no álbum Noites do Norte (2000).

Salvo o ritmo que faz sobrar uma série de cenas e o depoimento de Caetano, o documentário de Walter Carvalho se sustenta e alcança um ótimo resultado final. A história da vida de um Maluco Beleza numa Metamorfose Ambulante, paga com Ouro de Tolo. Espectadores que ainda não conhecem a história poderão entender o por quê gritaram ou já ouviram gritar, em inúmeros shows, uma das frases de maior bom gosto provocativo da cena musical brasileira: “Toca Raul!”.

Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio (Brasil, 2010)
Direção: Walter Carvalho
Roteiro: Leonardo Gudel
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.