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Crítica | “Raulzito E Os Panteras” – Raulzito E Os Panteras

O primeiro passo de Raul Seixas na música.

por Iago Iastrov
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A história de Raulzito e Os Panteras começa com Jerry Adriani convencendo quatro músicos baianos que o acompanhavam em shows por Salvador a tentarem a sorte no Rio de Janeiro. Raul Seixas, Eládio Gilbraz, Mariano Lanat e Carleba foram para o Rio em 1967, com a promessa de gravar pela EMI Odeon, mas o que encontraram ali foi um mercado entupido de grupos que faziam exatamente a mesma coisa: rock juvenil imitando os Beatles. O disco gravado no final daquele ano, com direção de produção de Milton Miranda, direção musical de Lyrio Panicali e orquestração de Orlando Silveira, chegou às lojas em janeiro de 1968 já defasado. Enquanto a Jovem Guarda perdia fôlego e a Tropicália sacudia a cena brasileira, o álbum insistia numa fórmula esgotada, tentando disfarçar o fato de que ali não havia identidade própria, começando pela capa, imitando a de With the Beatles.

Claro que não é justo esperar algo despojado e genial como seria Raul Seixas nos anos seguintes, mas é penoso demais ouvir os 25 minutos de duração disso aqui. As gravações soam estranhas, com vocais sem inspiração, sem energia, sem abraçar a atmosfera que queriam tanto passar para o público. O projeto é pouco coeso, nenhuma faixa se aproveita por completo. Brincadeira, de Mariano Lanat, abre com melodias previsíveis sobre harmonias elementares. Por Que? Pra Que?, de Eládio Gilbraz, repete a fórmula sem interesse adicional, apesar de ser “engraçadinha”, com umas brincadeiras na letra. Um Minuto Mais, versão de I Will, de Dick Glasser, não emplaca bem. Vera Verinha entrega algum romantismo, mas tudo acaba muito clichê. Os vocais de Raul Seixas mostram um artista preso entre imitar os ídolos e criar algo autêntico.

Você Ainda Pode Sonhar, versão chatinha de Lucy in the Sky with Diamonds, acaba sendo o momento mais ambicioso do disco. O primeiro rascunho da canção dizia “Pense em um dia com gosto de jaca“, mas o verso foi vetado pelo produtor Milton Miranda, e ficou “Pense num dia com gosto de infância“. A letra ameniza a estranheza psicodélica original, mas a execução falha: a banda tenta reproduzir a atmosfera onírica de Lennon e McCartney, mas tanto pela letra quanto por trabalhar em cima de algo tão rico e corajoso, acaba parecendo uma piada. Menina de Amaralina traz referência a Salvador, mas não desenvolve caráter regional. Triste Mundo não sustenta a melancolia do título. Dê-me Tua Mão repete estruturas batidas, e Alice Maria mostra três compositores sem criar nada chamativo, que faça a canção valer a pena.

Me Deixa Em Paz apresenta o eu-lírico que pede isolamento, mas a execução apática não transmite desespero. Trem 103 usa imagem ferroviária como metáfora que nunca decola. O Dorminhoco, única faixa dos quatro membros, apenas demonstra que a química não gerava material consistente, sendo uma das piores do projeto. O trabalho técnico captura os instrumentos, mas não disfarça a falta de energia. As guitarras de Raul e Eládio soam bem, mas nunca inspiradas; o baixo de Mariano cumpre sua função, mas sem criar linhas memoráveis; a bateria de Carleba mantém o tempo de forma rasa, sem apostar em nada minimamente forte. O problema central do disco é a falta de algo que desse uma essência à banda. Isso faz com que terminem não conseguindo fazer um rock suficientemente cru, nem um pop suficientemente bom para se localizar solidamente na Jovem Guarda e nem algo verdadeiramente brasileiro, de um modo minimamente musical que lembrasse que o rock também poderia ser nacional.

O fracasso foi devastador. Ignorado pela crítica e pelo público, sem impacto comercial nem artístico, a banda nunca fez shows de divulgação e logo virou acompanhamento de Jerry Adriani. O grupo se desfez em 1968, voltando derrotado para Salvador. Raul passou meses trancado lendo filosofia antes de conseguir emprego como produtor na CBS, onde trabalharia até 1971. Raulzito e Os Panteras é hoje um documento de artista que ainda não havia encontrado sua voz. As letras não dizem muita coisa e nenhuma melodia gruda. Apenas em Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, três anos depois, e definitivamente em Krig-ha, Bandolo!, em 1973, Raul Seixas criaria algo próprio e memorável, deixando para trás a tentativa fracassada de ser versão brasileira dos besouros britânicos.

Raulzito E Os Panteras
Artista: Raulzito E Os Panteras
País: Brasil
Lançamento: 1968
Gravadora: Odeon
Estilo: Jovem Guarda, Garage Rock, Rock
Duração: 24 min.

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