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Crítica | Ray Donovan – 5ª Temporada

por Ritter Fan
247 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Ray Donovan é um oásis. Se alguma série estiver cambaleante, pará-la por um tempo e socorrer-se de uma temporada da série protagonizada por Liev Schreiber é garantia de que o equilíbrio será achado novamente. É uma das pouquíssimas séries dramáticas no ar hoje em dia que consegue manter-se perenemente em um nível alto de qualidade, sem picos negativos ou positivos.

A primeira vez que algo realmente mudou foi justamente na 5ª temporada, que foi ao ar em 2017. Mas a mudança é positiva e vem em um bom momento, com a série já perfeitamente solidificada. Se Ray Donovan nunca foi sobre a profissão do personagem-título (já vi muita gente reclamando que ele quase não faz mais seu trabalho de apagar incêndios de celebridades idiotas) e sim sobre a jornada profundamente pessoal da família Donovan como um todo, a temporada sob análise é a que mais profundamente mergulha nesse tema usando como vetor a morte de Abby, a matriarca, o pilar que segura Ray em pé.

Diagnosticada com câncer na temporada anterior, que já havia saído discretamente de sua zona de conforto, Abby começa já morta na 5ª temporada, mas com os roteiros segurando os detalhes do que aconteceu ao máximo possível, valendo-se de flasbhacks para trazê-la de volta à vida (Paula Malcomson no ponto alto de seu trabalho para a série) e lentamente explicar o que aconteceu, ao mesmo tempo revelando o efeito devastador do falecimento sobre Ray. Mais do que em qualquer outra temporada, o foco em Ray Donovan é intenso é inclemente, com Schreiber sabendo magistralmente navegar por essas águas turbulentas em um trabalho de interpretação magnífico que lhe valeu cinco indicações seguidas ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Série Dramática, mas criminosamente nenhuma vitória.

Ray carrega a culpa do mundo em seus ombros, sua marca registrada desde o começo da série. E, aqui, ela é amplificada pelos eventos que envolvem Abby, levando-o a tomar atitudes horrendas, daquelas de revirar o estômago, mas que, mesmo assim, lá no fundo, conseguimos compreender. É interessante ver o quanto Ray é devotado à Abby, mas é constante a dúvida se essa devoção toda se dá em relação à culpa que sente por todos as traições que ele cometeu ou se é legitimamente amor ou, talvez, uma extrema dependência (quase química) de sua cara-metade. É discutindo essa questão – sem nos dar respostas fáceis – que o esmero dos roteiros é sentido seguidas vezes.

Orbitando ao redor dessa questão central, há o dia-a-dia de Ray seja no presente, seja no passado. No primeiro caso, que atravessa o tempo também, ele envolve-se com uma jovem atriz de sucesso que, porém, é abusada por seu marido. O caso até parece trivial, mas que, com a entrada do estúdio por trás da milionária franquia em que ela atua, ganha proporções gigantescas que são aumentadas ainda mais pela entrada de Susan Sarandon no elenco como a poderosa e fria Samantha Winslow, presidente da produtora. É um caso que resgata as origens da série, com toda a sujeira que Ray precisa varrer para debaixo do tapete e que, ao mesmo tempo, é muito bem costurado no drama principal.

E o mesmo vale para os demais membros da família Donovan. Bridget ganha enorme destaque em razão de seu envolvimento com Jacob “Smitty” Smith (Graham Rogers), ainda que a exata natureza desse relacionamento carregue o mesmo grau de mistério que envolve a morte de Abby, o que estabelece uma bela simetria narrativa que porém, admito, durante boa parte da temporada parece uma história descolada demais do eixo central para funcionar em sua plenitude. Mas a convergência vem e, quando vem, ela é explosiva, destruidora mesmo, incluindo o que Ray faz para consertar seu pecado.

No lado de seus irmãos, Terry e Bunchy, os dois, que pareciam, com base na temporada anterior, estar na ascendência em suas vidas, começam a novamente cair sem para-quedas. Mesmo que o começo da temporada pinte Terry como alguém que finalmente encontrou seu norte, inclusive com o Parkinson controlado com uma cirurgia no cérebro e Bunchy como um pai de família feliz, as verdades vão sendo desveladas aos poucos em subtramas que também estabelecem um paralelismo ao que ocorre com Ray, ainda que o envolvimento direto dele é esporádico e pontual. Daryll, por sua vez, acaba embaixo da perigosa influência direta de Mickey que resolve tornar-se roteirista de Hollywood da noite para o dia, custe o que custar, mais uma vez servindo como um pesado fardo que Ray precisa lidar da maneira mais dura possível e que, dessa vez, envolve também seu grande amigo Avi Rudin.

Assim como a subtrama de Bridget, as demais dão a impressão, inicialmente, de serem penduricalhos soltos que só existem para que os personagens não sejam esquecidos. Mas David Hollander não é bobo e sabe muito bem o que está fazendo. Trabalhando muito bem as idas e vindas em flashbacks, além de alucinações de Ray e as sessões forçadas de terapia dele com o Dr. Brogan (C. Thomas Howell) que o obriga a revisitar o grande trauma de seu passado que ele sempre se recusou a encarar, o showrunner amarra todas as pontas e estabelece um panorama doloroso para todos os envolvidos, sem finais fáceis, sem resoluções simplistas, sem momentos de redenção. A catarse vem da dor extrema e Hollander consegue acertar em todos os alvos em que mira. Alguns personagens acabam sendo sacrificados narrativamente, como Lena, que se torna uma faz-tudo providencial e Conor Donovan, literalmente um enfeite na temporada, mas, se olharmos o todo, a coesão narrativa e o aproveitamento do soberbo elenco são impecáveis.

Ray Donovan parece entrar em uma nova “fase” com o lírico final da 5ª temporada e isso pode significar que o porto seguro que a série sempre foi pode estar ameaçado. Mas o que é a vida sem riscos, não é mesmo?

Ray Donovan – 5ª Temporada (Idem, EUA – 06 de agosto a 29 de outubro de 2017)
Criação: Ann Biderman
Showrunner: David Hollander
Direção: David Hollander, John Dahl, Tucker Gates, Daisy von Scherler Mayer, Michael Uppendahl, Zetna Fuentes, Guy Ferland, Stephen Williams, Carl Franklin
Roteiro: David Hollander, Miki Johnson, Sean Conway, Chad Feehan, William Wheeler, David Sonnenborn
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Pooch Hall, Steven Bauer, Katherine Moennig, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Susan Sarandon, Graham Rogers, Denise Crosby, William Stanford Davis, Michael McGrady, Jay Thomas, Jayne Taini, Dominique Columbus, Tom Wright, Derek Webster, Tara Buck, C. Thomas Howell, Rhys Coiro, Lili Simmons, Michel Gill, Brian J. White, Kim Raver, James Keach, Jordan Mahome, Adina Porter, Ryan Dorsey, Keir O’Donnell, Jake Busey, Billy Miller, Ryan Radis
Duração: 654 min. (12 episódios)

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8 comentários

Daniel Marques 22 de novembro de 2019 - 03:35

Quando sairá a crítica da 6ª?

Cara, pra mim, essa 6ª temporada, se não for a melhor de todas, equipara-se às duas primeiras, fácil. Uma ótima trama, um elenco cada vez mais incrível e um final perfeito.

Destaques para a Sandy (véia doida da porra!!) e para o ator que faz o prefeito (David Lee, de The Good Wife).

Em tempo: que pena a série ter saído do catálogo da Netflix. Indique a vários amigos que começaram a assistir e de repente, pum! Já era.

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planocritico 22 de novembro de 2019 - 15:35

Eu me atrasei demais com Ray Donovan. Queria ter feito a 6ª temporada antes do começo da 7ª, mas não deu. Vou tentar – só tentar, pois não posso prometer – para antes do final da 7ª temporada.

Abs,
Ritter.

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Diego/SM 15 de janeiro de 2020 - 00:54

Saco mesmo ter saído da Netflix (eu tava justamente no meio da 5a temporada há um meses atrás… e aí perdi o embalo – até vi que tem no Now, que a coroa assina, mas aí dependeria do humor e da boa vontade – ou da ausência – da genitora na sua própria casa para eu fazer a invasão e me atualizar na série rss… de qq maneira, vi que lá só tem exatamente até a quinta temporada, não tem a sexta… por que será?)

Cara, John Voight é um show à parte! (O que dei de risada naquele fim de episódio dele dançando na boate gay rsss – se bem que, dança por dança, aquela sequência do Ray com o filho no fim do aniversário dele – “walk this waaayy…” – também foi do caramba!… : )
Só o véio já vale a série – mas ainda tem um elenco de primeira no entorno (os manos do Ray são de uma complexidade – e carisma – incríveis também)…

Enfim, série “classuda” – e (mesmo sabendo que se diz isso de algumas outras) talvez uma das mais (se não A mais) subestimada, entre o que há por aí…

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planocritico 15 de janeiro de 2020 - 10:57

Bota classuda nisso! E é muito – MAS MUITO – subestimada!

Abs,
Ritter.

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Daniel Marques 8 de janeiro de 2019 - 01:49

Fiquei fã da série desde oo1° capítulo. O elenco é ótimo, com destaque para o Liev Schreiber e oo Jo Voight. Aliás, no dia que o véi pé no saco morrer, a série vai junto.

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planocritico 8 de janeiro de 2019 - 07:23

Concordo. Por mais que dê raiva do sujeito pelo monte de besteira que faz, Voight é a alma da série!

Abs,
Ritter.

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Raffiinha 7 de janeiro de 2019 - 06:28

Eu n poderia concordar mais. É impressionante como Ray Donovan não é vacilante.
Se lá na primeira temporada fossem me dizer que a morte da Abby (personagem que inicialmente aborrecia) seria uma pancada tão forte, eu jamais teria acreditado. Felizmente a série é um deleite no que diz respeito ao desenvolvimento de personagens, salvo exceção os dois mencionados na crítica.
É um das melhores séries no ar hoje em dia. De longe a minha favorita.

Responder
planocritico 7 de janeiro de 2019 - 10:35

Que bom encontrar alguém que gosta de Ray Donovan como eu. Costumo falar dessa série com amigos que me devolvem aquele olhar que diz “que raios de série é essa” que me dá desespero…

Olhando em retrospecto, se lá na primeira temporada me dissessem que RD continuaria firme e forte no ar por seis temporadas caminhando para a sétima, eu certamente duvidaria. Mas aí ela está! Mesmo assim, espero que o showrunner saiba encerrá-la no momento certo para evitar aquelas barrigas inevitáveis de séries que ficam no ar que nem zumbis…

Abs,
Ritter.

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