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Crítica | Raya e o Último Dragão

por Iann Jeliel
8214 views (a partir de agosto de 2020)
Raya e o Último Dragão

  • Confira aqui, nosso índice com as críticas das animações da Walt Disney Animation Studios.

Saudosistas que me perdoem, mas a melhor Disney nas animações é esta de agora. Ainda que os melhores clássicos continuem em sua era da renascença nos 90 (Tarzan, O Rei Leão, Aladdin e A Pequena Sereia, por muitas questões emocionais e nostálgicas envolvidas, dificilmente saem do posto de meus favoritos, e acredito que muitos têm sua própria animação de conforto), eram filmes que faziam parte de um movimento que pregava mais pequenas subversões do conto de fadas clássico do que necessariamente criava uma nova forma de fazê-los. No movimento de agora, desta era “pós-moderna” da Disney, a abertura dada com Frozen com todo o caminho anteriormente traçado culminou num novo conceito de conto de fadas, ainda mais confirmado em Raya e o Último Dragão. Um conceito autêntico para este século, com vida própria fora das preocupações de traçar transicionais gerações, um terreno ciente de que a fantasia não é mais a realização de desejos individuais amorosos, mas um desejo coletivo e humanitário capaz de quebrar ciclos de passados nebulosos.

Em Frozen 2 essa quebra do passado era um mistério a ser resolvido no desenvolvimento da trama, por exemplo, já em Raya e o Último Dragão é uma ideia de inauguração da premissa. Mais uma vez, deparamo-nos com um universo mágico onde a magia acabou, só restando um último artefato denominado “A Joia do Dragão”, como remanescente de um tempo em que dragões e humanos viviam em harmonia. Os dragões se sacrificaram para a criação dessa joia, que tinha o poder de aprisionar os Drunns, criaturas mitológicas capazes de transformar qualquer um em pedra. A paz, no entanto, não reverberou com o fim delas em Kumandra. A humanidade se separou em reinos por não se entender ou chegar a um consenso sobre quem se responsabilizaria por esconder a joia; todos queriam para si, como uma forma de poder. Numa nova tentativa de unificação, proposta pelo reino “Coração”, do qual a protagonista Raya (Kelly Marie Tran) é a princesa, a ganância falou mais alto, a joia foi quebrada, partilhada em pedaços que cada reino roubou para si, ao custo de libertar novamente a ameaça, dando início a um cenário pós-apocalíptico.

Nesse ambiente, Raya busca encontrar vestígios do último dragão, Sisu (Awkwafina), responsável pela magia que trouxe todos de pedra de volta ao normal, para reverter a situação, não exatamente pensando em benefício de salvar o mundo, mas para salvar seu pai, Benja (Daniel Dae Kim), que acabou sofrendo o destino de pedra. De antemão, essa motivação para um protagonista de animação da Disney soa individualista demais para ser empática, mas existe um motivo para isso. Toda a confusão entre os reinos começou por Raya ter confiado em Namaari (Gemma Chan), princesa de um dos reinos rivais, e mostrar o esconderijo da joia, acreditando que ela fosse sua amiga. Depois de ser traída, Raya não confia mais em ninguém e nem acredita no discurso que seu pai pregava de unificação entre os povos de Kumandra. Obviamente, sua jornada, passando por cada reino em busca dos pedaços, será um processo de resgate dessa esperança na união, incitada pela presença de Sisu ao seu lado. Adormecida durante anos, a “dragoa?” não presenciou o que aconteceu para a desumanização da humanidade àquele ponto e ainda acredita na bondade por favores, quase como se fosse uma criança.

Não à toa, ela representa o espírito inocente da animação e a parte humorística do filme, junto a outros secundários clichês característicos (o bichinho de estimação, a criança malandra, o bebê overpower, o brutamontes de coração mole) que irão contracenar com a protagonista amargurada e ajudá-la a ressignificar um pouco seu sentimento de desconfiança para uma aura de esperança. Como personagem forte que é, o princípio de conflito não estar na dúvida se ela vai ou não conseguir juntar as joias, até porque do jeito que ela é autossuficiente e com a ajuda de um ser mitológico ao seu lado, os desafios físicos, apesar de Namaari ser uma adversária dura, não são maiores que a bolha de orgulho a se desarmar para que seu coração acredite novamente no outro, mesmo que os riscos de novas perdas sejam bem possíveis. Na presença de uma antagonista com um arco igualmente bem desenhado, o tom de responsabilidade aos contornos dramáticos da aventura dá a ela um peso de densidade épica ainda maior.

O “como” tais dificuldades morais serão superadas por ambas é o que dá escala ao resto, que já possui sequências de ação eletrizantes visualmente, mas que se tornam mais vibrantes dado o peso consequencial real de cada uma. Acreditamos realmente que tem algo em jogo, e esse é um sentimento só presente na Disney em seus melhores momentos. Desde toda a sinergia negativa passada pela petrificação de Benja no início – que ok, não é uma morte de Mufasa, mas eu sou adulto, não acho um absurdo que a nova geração veja essa cena e no futuro se lembre com uma memória afetiva parecida, porque é muito bem construída – até toda a elaboração do clímax, na forma como põe tudo a perder e sustenta – como em poucas animações – a dúvida de que tudo realmente possa ter se perdido, Raya e o Último Dragão prova ser uma animação de casca, daquelas que marcarão uma geração por envolvimento emocional, cenas icônicas, personagens complexos e mensagens relevantes e (a)temporais bem passadas.

Tudo isso com um toque – igual ao de Moana – a uma valorização cultural específica (sudeste asiático, desta vez) em toda a elaboração de sua mitologia (e produção), sem parecer pedante e enfiado ali de qualquer forma como um mero chamativo internacional para vender o filme. Pelo contrário, soa como reforço à ideia de que as novas histórias têm de surgir de lugares que ainda não tinham vitrine, e que na fantasia de agora elas podem ser a porta de entrada à confirmação deste novo conto de fadas. Há quem diga que pode ser demasiadamente positiva, mas a graça é essa e a ideia da Disney é essa. Se antes esses contos nos confortavam por viver um amor idealizado que nunca viveríamos, por que não os utilizar hoje para se confortar um pouco, num cenário tão caótico, com a idealização de um mundo que conseguiu se unir para um bem maior. Pode ser que nunca aconteça como o famoso “viveram felizes para sempre”, mas o sentimento de acreditar não custa nada e já vale como refúgio, principalmente se veio numa vestimenta de postulante a jovem clássico das animações.

Raya e o Último Dragão (Raya and the Last Dragon | EUA, 2021)
Direção: Don Hall, Carlos López Estrada | Paul Briggs, John Ripa (Codiretores)
Roteiro: Qui Nguyen, Adele Lim | Paul Briggs, Don Hall, Adele Lim, Carlos López Estrada, Kiel Murray, Qui Nguyen, John Ripa, Dean Wellins (História)
Elenco (vozes originais): Kelly Marie Tran, Awkwafina, Izaac Wang, Gemma Chan, Daniel Dae Kim, Benedict Wong, Jona Xiao, Sandra Oh, Thalia, Lucille Soong, Alan Tudyk
Duração: 114 min.

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28 comentários

Diário de Rorschach 15 de março de 2021 - 00:36

Me impressionei de mais com a construção de mundo desse filme, simplesmente sensacional.
Achei ótimo também, mas acho que em alguns momentos o filme tem alguns momentos deus ex machina, como na parte lá da aldeia do mercado lá (me fugiu o nome).
Mas fora isso, o filme é ótimo.

PS: Hollywood vem tentando a muito tempo fazer um filme de ação quase todo feminino (decente, lógico) e quem conseguiu o feito foi a Disney com uma animação.
Mas se lembrar de algum bom ai me conte, porque os que eu vi…

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Iann Jeliel Pinto Lima 15 de março de 2021 - 01:51

Construção de mundo maravilhosa mesmo, muito natural no aspecto de globalização cultural. Hoje, dificilmente me incomodo com Deus-Ex-maquina só por ser um, tem que ser mal construído, algo que acho eu, nenhum desse filme seja.

E cara, tem saído muito filme bom de ação com mulher. Desde Mad Max, há pelo menos um bom por ano, incluindo Moana e Raya que são da Disney e dois dos mais subestimados da última decada a meu ver: Anna: O Perigo Tem Nome e Alita: Anjo de Combate.

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Diário de Rorschach 17 de março de 2021 - 13:34

Te entendo cara, mas no geral o filme é muito bom, se for comparar, pra mim, deixa Moana e Frozen no chinelo.

Ah cara, mas eu digo um filme de ação onde todo o arco principal é feminino. Esses que você citou realmente são ótimos (Anna é do c*cete mesmo), mas todos os antagonistas ali são masculinos. Compreende? kkk

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Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:11

Isso é verdade. O antagonismo feminino é algo em falta, mas aos poucos, isso vai sendo quebrado também.

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O Homem do QI200 8 de março de 2021 - 20:58

Mano, passava uma cena e outra é eu voltava a falar: “esse filme está lindo demais, que visual perfeito”. As cenas de luta tava muito daora, como também a emoção que o filme quis passar, se bem que a história já tá mais do que batida. Mas ainda assim foi um ótimo entretenimento.

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Iann Jeliel Pinto Lima 10 de março de 2021 - 12:20

Repito que não acho a história batida, porque a forma é muito única. Mas sim, estou de acordo, é ação e emoção em alto nível!

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Thiago Lima 8 de março de 2021 - 00:22

A história é bem básica mesmo, mas é conduzida narrativamente de forma bem satisfatória. Me lembrou uma vibe bem Avatar – Lenda de Aang e Lenda de Korra. Gostei!

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Iann Jeliel Pinto Lima 10 de março de 2021 - 12:20

Lembra mesmo em visual, embora não tanto em mitologia. Agora não acho a história básica não, tem uma complexidade e responsabilidade bem madura para uma animação da Disney.

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Igor José 7 de março de 2021 - 17:28

Raya virou minha princesa disney favorita agora, eu amei o filme. Fiquei muito comovido com o final.

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Iann Jeliel Pinto Lima 10 de março de 2021 - 12:20

Tá no mínimo, no meu top 5 também. E sim, final emocionante e pertinente. Me lembrou WW1984, só que ainda melhor.

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Lucio Adriano Mendonça 7 de março de 2021 - 17:28

Tem que pagar pra assistir. Disney acabou de chegar e já quer arrancar o couro.

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Iann Jeliel Pinto Lima 10 de março de 2021 - 12:20

Não mentiu. Mas em abril, já vai tá disponível pra geral no Disney Plus.

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planocritico 10 de março de 2021 - 21:42

Não acho.

Primeiro, o filme era para ser lançado no cinema. Quem quisesse ver no lançamento, teria que pagar ingresso.

Segundo, a Disney já lançou Soul direto no Disney+ sem cobrar mais, o que foi um bônus.

Terceiro, a Disney foi absolutamente transparente. Custa 70 agora, mas em menos de dois meses o filme será incorporado ao catálogo do Disney+. Basta esperar e ver nesse momento.

Quarto, não é aluguel e sim incorporação antecipada do filme ao catálogo, o que permite que você veja mil vezes se quiser.

Quinto: uma família de quatro – um tamanho padrão e razoável para servir de média – gastaria MUITO mais do que 70 no cinema, considerando todos os gastos extras envolvidos.

Abs,
Ritter.

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Lucio Adriano Mendonça 10 de março de 2021 - 21:46

Ok. O problema é que o catálogo dela é de maioria de filmes que já assisti. Com pouco tempo de chegada ela já tinha que liberar as novidades. Pelo valor pago a concorrência oferece mais novidades.

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planocritico 10 de março de 2021 - 21:51

O serviço vai liberar Raya. Em abril. É só esperar.

Até lá, tem filmes-catálogo antigos das décadas de 40 a 70 que muito pouca gente assistiu (porque querer só coisa novinha em folha é perder grande parte do valor do Disney+) e uma quantidade bastante razoável de séries e filmes exclusivos novos, muitos deles voltados para crianças, claro, mas com alguns para adultos também como Os Eleitos e o vindouro Falcão e o Soldado Invernal.

Agora, se mesmo assim você acha que não vale a pena, talvez seja o caso de cancelar a assinatura, não? Pelo menos até haver uma massa crítica de conteúdo exclusivo que você considere que valha o preço.

Abs,
Ritter.

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Lucio Adriano Mendonça 12 de março de 2021 - 15:24

No caso da familia e dividido o valor como no netflix. Entao esta tranquilo.

Lara Loira 12 de março de 2021 - 15:24

super condizente com a realidade do brasil pagar 70 reais por um filme avulso ne, pra ver em CASA

Responder
planocritico 12 de março de 2021 - 15:24

Mas ninguém precisa pagar nada além da assinatura do Disney+. O filme entrará no catálogo ao final de abril. Poderia ser um milhão de reais que mesmo assim o filme seria liberado para assinantes que puderem esperar nem mesmo dois meses, uma espera para lá de razoável.

Agora, sobre a realidade, o cinema é mais caro. Ou era quando eles estavam abertos. O ingresso sem meia entrada não custava R$ 17,50 no lançamento, durante o final de semana, que é o preço per capita na base do que mencionei acima, ou seja, quatro membros de uma família. E a pipoca de 15 ou 20 reais cada saco? Era realista?

E mais. O que é preço realista? Mulher-Maravilha 2 estava sendo alugada por R$ 49,90 nas plataformas de VOD para ser vista ao longo de apenas 48 horas (Raya pode ser vista “para sempre”). Esse preço é realista? Qual é o preço realista? Porque mesmo que você me diga que o preço realista é 15 reais, a pergunta é: realista para quem?

Abs,
Ritter.

Responder
Lara Loira 15 de março de 2021 - 00:36

o que é realista é que as pessoas usam torrent, superflix e etc
e quanto aos cinemas uma pessoa normal consegue ir assistir um filme não no fds de estréia e ir nos dias e horários mais baratos
talvez os bloggers, youtbers e etc possam dizer q não pq ganham ingressos ou ganham grana mesmo e vão em todas rpé estréiias custe o que custar

planocritico 15 de março de 2021 - 01:50

Contra grátis não tem argumento. Conheço gente endinheirada que não assina serviço de streaming algum e não vai ao cinema porque pode baixar tudo de graça na internet…

Sobre os cinemas, o cálculo do valor de um lançamento em streaming não pode ser feito com base nos valores descontados especiais. Afinal, as maiores bilheterias históricas são sempre de final de semana, mesmo no Brasil, pelo que é evidente que o grosso das pessoas vai mesmo é no final de semana.

Abs,
Ritter.

Junito Hartley 7 de março de 2021 - 17:28

Filme bom da poxa, a historia é batida mas é bem feita, os personagens sao carismáticos, visual do filme espetacular, e a protagonista é uma das melhores desses últimos filmes da animação da Disney.

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Iann Jeliel Pinto Lima 10 de março de 2021 - 12:21

Eu não acho tão batida não, talvez a mensagem, mas a forma e estrutura são cuidados de um jeito bem único. Visual espetacular, cenas de ação maravilhosas e uma baita protagonista!

Responder
Junito Hartley 10 de março de 2021 - 21:42

Existem varias Historias de algum artefato magico separado e que tem de juntar as partes pra obter o bem maior.

Responder
planocritico 10 de março de 2021 - 21:46

Forma e estrutura, não a premissa. A premissa é comum. O que importa é como ela é executada.

Abs,
Ritter.

Responder
Michel Gutwilen 6 de março de 2021 - 16:10

Qual a etimologia da acepção “pós-moderno” aqui? Ou foi uma liberdade poética?

Abs

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 6 de março de 2021 - 16:12

Liberdade poética. Até agora não tem uma denominação exata, mas foi o termo que usei pra fazer o recorte do período.

Responder
Lucas 6 de março de 2021 - 16:09

É difícil de explicar, mas animações tem um feeling muito próprio, diferente de um live action. Esse filme manda muito bem nas lutas, na fotografia (que é difícil ser ruim), a trilha sonora é show a parte, o cgi é impecável (sério, os pelinhos da Sisu MDS, a textura da roupa da Raya). E com uma mensagem que nos dias atuais parece ingênua, mas é importante demais pra ser ignorada. Que filme incrível!

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 6 de março de 2021 - 16:11

Concordo totalmente, sem tirar nem por. A Disney nas animações afoga seus pecados!

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