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Crítica | Raya e o Último Dragão

por Iann Jeliel
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Raya e o Último Dragão

  • Confira aqui, nosso índice com as críticas das animações da Walt Disney Animation Studios.

Saudosistas que me perdoem, mas a melhor Disney nas animações é esta de agora. Ainda que os melhores clássicos continuem em sua era da renascença nos 90 (Tarzan, O Rei Leão, Aladdin e A Pequena Sereia, por muitas questões emocionais e nostálgicas envolvidas, dificilmente saem do posto de meus favoritos, e acredito que muitos têm sua própria animação de conforto), eram filmes que faziam parte de um movimento que pregava mais pequenas subversões do conto de fadas clássico do que necessariamente criava uma nova forma de fazê-los. No movimento de agora, desta era “pós-moderna” da Disney, a abertura dada com Frozen com todo o caminho anteriormente traçado culminou num novo conceito de conto de fadas, ainda mais confirmado em Raya e o Último Dragão. Um conceito autêntico para este século, com vida própria fora das preocupações de traçar transicionais gerações, um terreno ciente de que a fantasia não é mais a realização de desejos individuais amorosos, mas um desejo coletivo e humanitário capaz de quebrar ciclos de passados nebulosos.

Em Frozen 2 essa quebra do passado era um mistério a ser resolvido no desenvolvimento da trama, por exemplo, já em Raya e o Último Dragão é uma ideia de inauguração da premissa. Mais uma vez, deparamo-nos com um universo mágico onde a magia acabou, só restando um último artefato denominado “A Joia do Dragão”, como remanescente de um tempo em que dragões e humanos viviam em harmonia. Os dragões se sacrificaram para a criação dessa joia, que tinha o poder de aprisionar os Drunns, criaturas mitológicas capazes de transformar qualquer um em pedra. A paz, no entanto, não reverberou com o fim delas em Kumandra. A humanidade se separou em reinos por não se entender ou chegar a um consenso sobre quem se responsabilizaria por esconder a joia; todos queriam para si, como uma forma de poder. Numa nova tentativa de unificação, proposta pelo reino “Coração”, do qual a protagonista Raya (Kelly Marie Tran) é a princesa, a ganância falou mais alto, a joia foi quebrada, partilhada em pedaços que cada reino roubou para si, ao custo de libertar novamente a ameaça, dando início a um cenário pós-apocalíptico.

Nesse ambiente, Raya busca encontrar vestígios do último dragão, Sisu (Awkwafina), responsável pela magia que trouxe todos de pedra de volta ao normal, para reverter a situação, não exatamente pensando em benefício de salvar o mundo, mas para salvar seu pai, Benja (Daniel Dae Kim), que acabou sofrendo o destino de pedra. De antemão, essa motivação para um protagonista de animação da Disney soa individualista demais para ser empática, mas existe um motivo para isso. Toda a confusão entre os reinos começou por Raya ter confiado em Namaari (Gemma Chan), princesa de um dos reinos rivais, e mostrar o esconderijo da joia, acreditando que ela fosse sua amiga. Depois de ser traída, Raya não confia mais em ninguém e nem acredita no discurso que seu pai pregava de unificação entre os povos de Kumandra. Obviamente, sua jornada, passando por cada reino em busca dos pedaços, será um processo de resgate dessa esperança na união, incitada pela presença de Sisu ao seu lado. Adormecida durante anos, a “dragoa?” não presenciou o que aconteceu para a desumanização da humanidade àquele ponto e ainda acredita na bondade por favores, quase como se fosse uma criança.

Não à toa, ela representa o espírito inocente da animação e a parte humorística do filme, junto a outros secundários clichês característicos (o bichinho de estimação, a criança malandra, o bebê overpower, o brutamontes de coração mole) que irão contracenar com a protagonista amargurada e ajudá-la a ressignificar um pouco seu sentimento de desconfiança para uma aura de esperança. Como personagem forte que é, o princípio de conflito não estar na dúvida se ela vai ou não conseguir juntar as joias, até porque do jeito que ela é autossuficiente e com a ajuda de um ser mitológico ao seu lado, os desafios físicos, apesar de Namaari ser uma adversária dura, não são maiores que a bolha de orgulho a se desarmar para que seu coração acredite novamente no outro, mesmo que os riscos de novas perdas sejam bem possíveis. Na presença de uma antagonista com um arco igualmente bem desenhado, o tom de responsabilidade aos contornos dramáticos da aventura dá a ela um peso de densidade épica ainda maior.

O “como” tais dificuldades morais serão superadas por ambas é o que dá escala ao resto, que já possui sequências de ação eletrizantes visualmente, mas que se tornam mais vibrantes dado o peso consequencial real de cada uma. Acreditamos realmente que tem algo em jogo, e esse é um sentimento só presente na Disney em seus melhores momentos. Desde toda a sinergia negativa passada pela petrificação de Benja no início – que ok, não é uma morte de Mufasa, mas eu sou adulto, não acho um absurdo que a nova geração veja essa cena e no futuro se lembre com uma memória afetiva parecida, porque é muito bem construída – até toda a elaboração do clímax, na forma como põe tudo a perder e sustenta – como em poucas animações – a dúvida de que tudo realmente possa ter se perdido, Raya e o Último Dragão prova ser uma animação de casca, daquelas que marcarão uma geração por envolvimento emocional, cenas icônicas, personagens complexos e mensagens relevantes e (a)temporais bem passadas.

Tudo isso com um toque – igual ao de Moana – a uma valorização cultural específica (sudeste asiático, desta vez) em toda a elaboração de sua mitologia (e produção), sem parecer pedante e enfiado ali de qualquer forma como um mero chamativo internacional para vender o filme. Pelo contrário, soa como reforço à ideia de que as novas histórias têm de surgir de lugares que ainda não tinham vitrine, e que na fantasia de agora elas podem ser a porta de entrada à confirmação deste novo conto de fadas. Há quem diga que pode ser demasiadamente positiva, mas a graça é essa e a ideia da Disney é essa. Se antes esses contos nos confortavam por viver um amor idealizado que nunca viveríamos, por que não os utilizar hoje para se confortar um pouco, num cenário tão caótico, com a idealização de um mundo que conseguiu se unir para um bem maior. Pode ser que nunca aconteça como o famoso “viveram felizes para sempre”, mas o sentimento de acreditar não custa nada e já vale como refúgio, principalmente se veio numa vestimenta de postulante a jovem clássico das animações.

Raya e o Último Dragão (Raya and the Last Dragon | EUA, 2021)
Direção: Don Hall, Carlos López Estrada | Paul Briggs, John Ripa (Codiretores)
Roteiro: Qui Nguyen, Adele Lim | Paul Briggs, Don Hall, Adele Lim, Carlos López Estrada, Kiel Murray, Qui Nguyen, John Ripa, Dean Wellins (História)
Elenco (vozes originais): Kelly Marie Tran, Awkwafina, Izaac Wang, Gemma Chan, Daniel Dae Kim, Benedict Wong, Jona Xiao, Sandra Oh, Thalia, Lucille Soong, Alan Tudyk
Duração: 114 min.

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