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Crítica | Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos

por Ritter Fan
501 views (a partir de agosto de 2020)

Dan Cain: Ele está morto?
Herbert West: Não mais.

  • Há leves spoilers.

Chega a ser irônico que uma das melhores adaptações de uma obra de H.P. Lovecraft seja um terrir tipicamente oitentista repleto de gore e uma perturbadora sequência de abuso sexual (que não existe em todas as versões até, mas é a que usei para fazer a análise). E é mais interessante, ainda, que Re-Animator tenha nascido como um projeto que mirava uma montagem teatral pelo saudoso Stuart Gordon, transformando-se, em seguida, em um piloto de série de televisão, somente para, depois, ganhar sua versão definitiva como longa cinematográfico.

E mais! Gordon queria fazer um filme sério, de época, que respeitasse a homenagem à Frankenstein, de Mary Shelley, que foi todo o objetivo de Lovecraft, mas sua parceria com Dennis Paoli e William Norris o levou para o caminho da modernização da narrativa para cortar custos e o tom cômico/satírico à la Evil Dead para permitir o uso de todo o sangue que eles queriam sem que a imersão fosse quebrada. O resultado foi um dos grandes clássicos do gênero (terrir, mortos-vivos, escolha sua classificação!) e que sobreviveu muito bem ao teste do tempo, além de ter resultado nas obrigatórias continuações – A Noiva do Re-Animator e Re-Animator: Fase Terminal – e até mesmo um musical montado em Nova York, em 2011.

A história abre com um preâmbulo em Zurique, na Suíça, em que vemos o “cientista maluco” Herbert West (Jeffrey Combs) revivendo o Dr. Hans Gruber (Al Berry), só que com efeitos colaterais, digamos, explosivos. Isso já estabelece o tom da narrativa sem que quase nenhuma palavra em inglês seja dita e prepara o espectador para o que está por vir em poucos e preciosos minutos que também deixam às escâncaras o tino narrativo de Gordon. Depois de uma bela sequência de créditos ao som da música-tema de Psicose rearranjada por Richard Band que a apropria e a converte, sem pudor, no tema de Re-Animator, a ação é transposta para a Nova Inglaterra, especificamente para a Miskatonic University, onde somos apresentados ao promissor estudante de medicina Dan Cain (Bruce Abbott), sua namorada e filha do reitor Megan Halsey (Barbara Crampton), o reitor conservador Dean Halsey (Robert Sampson) e o ambicioso e claramente perturbado Dr. Carl Hill (David Gale), que, por sinal, tem uma tara doentia por Megan. É nesse ecossistema relativamente pacífico que Herbert West é reinserido como estudante e locatário de um quarto na casa de Dan, não perdendo tempo em recomeçar suas experiências para reanimar mortos com um reagente que mais parece o sangue do Predador.

O que segue é o padrão de filme desse naipe, mas Stuart Gordon mantém exemplarmente o controle de ritmo, de suspense e de comicidade, a verdadeira chave para o sucesso de Re-Animator que nunca se torna repetitivo ou cansativo, com cada minuto de projeção sendo aproveitado para o desenvolvimento dos personagens que, claro, mas não negativamente, são arquétipos do gênero: o inocente que se envolve na confusão, o reitor/pai durão, a bela dama em perigo, o cientista maluco e o médico vilanesco. Além disso, considerando o orçamento de menos de um milhão de dólares, não só Stuart consegue fazer muito com absolutamente nada – a sequência do gato reanimado no porão é o exemplo máximo disso -, como a equipe de efeitos visuais e práticos, maquiagem e direção de arte fazem milagres atrás de milagres que vão desde simples incisões a laser no crânio de corpos, até complexas e longas sequências de um corpo sem cabeça (ou de uma cabeça sem corpo, lógico), sempre com hectolitros de sangue.

Mesmo que o tema frankensteiniano do conto original seja deixado um pouco de lado para o roteiro focar em uma abordagem mais afeita a zumbis, a grande verdade é que o texto de Gordon, Paoli e Norris alcança uma amálgama muito bem construída desses clichês do horror corporal, com um humor que não é lastreado por piadinhas deslocadas, mas sim pelo mais completo inusitado das situações e pela capacidade de Jeffrey Combs de compor um Herbert West que é, em partes iguais, insano, histriônico, sério e heroico, não necessariamente nessa ordem e não necessariamente resultando em uma atuação que podemos chamar de excelente sem categorizá-la cuidadosamente dentro desses parâmetros e para os fins específicos dessa obra.

Além disso, mesmo que a mencionada sequência de abuso sexual no necrotério da universidade cortada da versão cinematográfica americana (ó, puritanismo falso!) e que quase chega a ter cunilíngua por uma cabeça decepada seja revoltante, ela é, ao mesmo tempo, absolutamente brilhante por sua coragem, originalidade e realização técnica. São alguns minutos que o espectador quer fechar os olhos, mas sem conseguir e que só amplificam a sensação de bizarrice da obra, de certa forma equiparando-se ao estupro arbóreo do já citado Evil Dead.

Posso estar errado, mas acho que Lovecraft admiraria o que fizeram com seu conto aqui, especialmente porque ele nunca teve um amor muito grande por essa obra em particular e talvez apreciasse a zombaria que Stuart Gordon engendra com muita perspicácia. Seja como for, Re-Animator permanece, sem dúvida alguma, como um clássico que transita entre gêneros e que mantém-se vigoroso mesmo na era dos exageros digitais.

Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos (Re-Animator, EUA – 1985)
Direção: Stuart Gordon
Roteiro: Stuart Gordon, Dennis Paoli, William Norris (William J. Norris) (baseado em obra de H.P. Lovecraft)
Elenco: Jeffrey Combs, Bruce Abbott, Barbara Crampton, David Gale, Robert Sampson, Al Berry, Carolyn Purdy-Gordon, Ian Patrick Williams, Gerry Black, Peter Kent, Craig Reed
Duração: 104 min.

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18 comentários

Marcellofn 5 de março de 2021 - 17:47

Um clássico absoluto dos anos 80, a melhor década de todas, em qualquer área da cultura pop. Vi várias vezes, tanto a versão original como a censurada que passava na tv. Pra mim, junto com A Volta dos Mortos-Vivos e o citado Evil Dead são os melhores exemplos dessa obras de terror gore/cômico. Em anos recentes, só Shaun of The Dead se compara. Gordon, Combs e Barbara Crampton fizeram no ano seguinte um filme bem legal tbm nessa mesma vibe, Do Além.

Responder
planocritico 5 de março de 2021 - 17:48

Sem dúvida, um clássico. Muito divertido e surpreendentemente bem feito. Pena que a continuação não foi tão boa…

Abs,
Ritter.

Responder
maumau 27 de maio de 2020 - 11:25

Qual seria o filme do reanimator que tem a cena infame do rato lutando contra um…pênis?

Responder
planocritico 27 de maio de 2020 - 12:15

Não lembro, mas posso dizer que com certeza não é esse aqui.

Abs,
Ritter.

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marcio 25 de maio de 2020 - 17:15

Um clássico, também gostei da sequência se não me engano é de 1992

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 20:48

De 1990, na verdade.

Abs,
Ritter.

Responder
Lavínia F. Santana 25 de maio de 2020 - 11:13

Esse filme pod ser considerado um trash?

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 11:51

Pode sim. Mas é um trash que se destaca entre outros trash.

Abs,
Ritter.

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Pablo 25 de maio de 2020 - 09:49

A primeira vez que o assisti foi no saudoso Cine Trash, da Band. Agora eu o tenho.

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 15:49

É muito bacana esse filme!

Abs,
Ritter.

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Cavana 25 de maio de 2020 - 03:23

REVI ESSES DIAS ATRAS NO YOUTUBE… SAUDADES DO CINEMA SEM COMPROMISSO DE SER POLITICAMENTE CORRETO, PUXANDO A SARDINHA PRA AGRADAR MINORIAS QUE NEM DE CINEMA ENTENDEM… DEIXEI DE VER FILMES DE TERROR COM FREQUÊNCIA, POR NÃO ACHAR OBRAS COM CONTEUDO DESSE NIPE.

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 15:49

“minorias que nem de cinema entendem” não faz lá muito sentido, não é?

– Ritter.

Responder
Rafael Lima 25 de maio de 2020 - 00:09

Ótima resenha, Ritter. Eu acho Re-Animator brilhante. A mistura de comédia e horror que o Gordon faz aqui é brilhante. O Herbert West do Jeffrey Combs é um personagem cativante com todos os seus exageros, o tipo de personagem canalha psicótico que a gente não consegue deixar de torcer.

Pra mim, Stuart Gordon era o cara pra adaptar histórias do Lovecraft.

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 15:49

Obrigado! É um filmaço mesmo e o Combs está excelente na fronteira entre o histrionismo e o fascínio legítimo. Gosto muito do personagem dele.

Abs,
Ritter.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 24 de maio de 2020 - 18:27

Esse troço é absolutamente insano, perturbador e maravilhoso!!! Eu vi escondido, porque meus pais não queriam deixar. Acho que fiquei uma semana sem dormir direito HAUHAUAHUAHAUAHUAHAUAHAUHAUHA

Responder
planocritico 24 de maio de 2020 - 18:35

Ai, ai, ai! Vai ficar de castigo!!!

Abs,
Ritter.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 24 de maio de 2020 - 18:45

Falando nisso… O último filme que seus pais não deixaram você ver foi o Big Bang, né?

Responder
planocritico 24 de maio de 2020 - 19:17

Eu já tinha 18 na época…

Abs,
Ritter.

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