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Crítica | Real Beleza

por Leonardo Campos
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O belo é algo quase sempre relacionado ao “olhar”. No campo da sinestesia, outros sentidos parecem não gozar dos privilégios de quem contempla algo, seja na arte ou na vida cotidiana, tendo os olhos como portal. Uma fotografia, uma pintura, um filme, etc. Para os padrões, o olhar é necessário para que possamos ver e testemunhar o belo, algo problematizado na contemporaneidade, pois muitas noções engessadas sobre o que é e o que não é belo definido como beleza passa pelo crivo do social e do político, não mais exclusivamente pela estética. Diante do exposto, não sei o leitor que já teve a oportunidade de assistir, mas essa é a sensação ao terminar Real Beleza, drama com 97 minutos de duração, lançado em 2015. Na produção, somos levados ao questionamento sobre o belo, noção que por sua vez, desagua na ideia sobre o que é ou não fotografável. Jorge Furtado, diretor e escritor da narrativa, em sua costumeira associação com a Casa de Cinema, de Porto Alegre, estabelece a questão neste filme mais contemplativo, menos verborrágico que os investimentos cinematográficos anteriores.

Na trama, João (Vladimir Brichta) é um fotógrafo em crise. Ele encontra-se apático diante da execução de sua profissão. Comparado aos filmes de escritores, cineastas e dramaturgos em crise, ele é outro em busca de sua musa inspiradora, o rosto catalisador de uma nova fase que ainda não está sequer pulsante em seu cotidiano letárgico. Quando se muda para uma região interiorana do Rio Grande do Sul, as coisas começam a mudar. Depois de alguma procura, ele encontra Maria (Vitória Strada), a garota que edificará a curva sinuosa rumo ao novo limiar de sua existência. O grande “x” da questão nesta história é Pedro (Francisco Cuoco), o pai da jovem, um homem movido por valores não atualizados, preso no passado e com ranço do patriarcalismo que o filme não apresenta como algo panfletário, mas por meio de sutilezas. Algo que renderia uma discussão acirrada sobre dominação masculina é sublimado por olhares, gestos e pequenos atos.

Wilson (Thiago Prade) é quem o acompanha em sua jornada, como assistente. Ele é o coadjuvante que permite ao protagonista, seus melhores momentos em cena, por meio de diálogos que expõe em sua condição, desde o marasmo ao processo evolutivo. O fotógrafo precisa rever não apenas a sua carreira, mas os padrões adotados sobre a realização de sua função. Quando encontra Maria, tudo parece ganhar novo rumo e ele busca a adequação. Para quem provavelmente acha que a garota é o ponto nevrálgico da narrativa, adianto que ainda tem muito mais coisa por vir. Se não há como convencer o pai, talvez seja viável aproximar-se da mãe, Anita (Adriana Esteves), uma mulher que vive a existência amena e comum do cotidiano interiorano, complementada pelo casamento com Pedro, apenas por manutenção, pois eles já não consumam a relação há tempos. Ele é cego e a jovem senhora é a sua leitora.

O desejo floresce desde o primeiro olhar. Maria é apenas a inspiração artística do fotógrafo que se apaixona por Anita, uma mulher que abdicou dos prazeres da vida para cuidar da família, em especial, do marido que não enxerga e depende dela para continuar tendo uma parcela do belo em sua vida, neste caso, a literatura, sua paixão. É um caso de beleza “ouvida” e “sentida”, não apenas possibilitada pelo olhar, sentido que na vida de João, é dominante, ponto de partida e de chegada em sua existência pessoal e profissional. Ele é um homem que vive a imagem, concebendo-a constantemente, mesmo nos momentos em que não dispõe da câmera em mãos. Será assim que em meio aos momentos de ação e reação na vida destes personagens que precisam decidir entre obedecer aos seus maiores desejos ou sublimá-los em prol do que está estabelecido. Não é uma tarefa fácil e as criaturas de Real Beleza sentirão isso na pele.

Nós, espectadores, contemplamos os conflitos e as necessidades dramáticas desenvolvidos nas cenas visualmente deslumbrantes, haja vista a direção de fotografia de Alex Sernambi, setor que adota um padrão estético esverdeado, voltado aos espaços cenográficos naturais do interior do Rio Grande do Sul, região de geografia física muito específica no território brasileiro. Conduzidos pela trilha sonora de Leo Henkin, os personagens de Real Beleza circulam por uma história com título inspirado na canção homônima, de Sergio Sampaio, parte integrante do filme. Editada por Germano de Oliveira e Giba Assis Brasil, a produção é um exercício cuidadoso da linguagem cinematográfica, também no campo da direção de arte, assinada por Fiapo Barth, numa demonstração da capacidade de Jorge Furtado em manipular emoções variadas. Ao longo de sua trajetória como cineasta, o diretor demonstrou ser eficiente no humor, no documental e na profusão dramática de personagens cheios de vida e intensidade, mas freados pelos impedimentos de uma existência mergulhada na reflexão que antecipa cada ato.

Real Beleza – Brasil, 2015
Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Elenco: Adriana Esteves, Elisa Volpatto, Francisco Cuoco, Isadora Pillar, Maria Carolina Ribeiro, Samuel Reginatto, Thiago Prade, Úrsula Collischonn, Vitória Strada, Vladimir Brichta
Duração: 84 min.

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