Home FilmesCríticas Crítica | Rebecca – A Mulher Inesquecível (2020)

Crítica | Rebecca – A Mulher Inesquecível (2020)

por Ritter Fan
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Rebecca, romance gótico escrito por Daphne du Maurier e lançado originalmente em 1938, é uma daquelas obras que nunca saem de moda e que ficam perenemente “em publicação”. Há um apelo universal na forma como a britânica construiu seu clássico thriller psicológico que desafia o tempo e trabalha seus temas de maneira envolvente e atemporal, mesmo considerando as alegações (ao meu ver infundadas) de plágio do livro A Sucessora, da autora brasileira Carolina Nabuco. É natural, portanto, que muitos já tenham tentado adaptá-la de todas as formas possíveis, começando por ninguém menos do que Orson Welles, em seu mítico programa de rádio, ainda no ano original de publicação da obra, e passando, claro, pela magnífica versão cinematográfica de Alfred Hitchcock, responsável pelo único Oscar de Melhor Filme na carreira do Mestre do Suspense.

Ainda que adaptações tenham continuado nas mais variadas mídias – teatro, televisão, ópera e até três continuações literárias por outras autoras, mas chanceladas pelo espólio de Du Maurier – ao longo das décadas, a que inevitavelmente ficou no imaginário popular é a de Hitchcock e, ao que tudo indica, continuará assim por muito tempo, já que o longa de Ben Wheatley, diretor de bagagem ainda incipiente, por mais visualmente impressionante que possa ser, não só não começa a arranhar a superfície da obra de 1940, como sequer é capaz de capturar a atmosfera do romance de dois anos antes. É, em resumo, a versão iluminada, feliz e sorridente de uma história opressiva, claustrofóbica e assustadora, como se fosse uma versão Disney de algum conto sombrio dos Irmãos Grimm.

E sim, a nova versão de Rebecca é lindíssima. O embasbacante design de produção de Sarah Greenwood, a espetacular direção de arte comandada por Nick Gottschalk e os inacreditavelmente variados figurinos de época de Julian Day fazem do longa um colírio para os olhos, algo que é amplificado pelo fotogenicamente perfeito casal formado por Lily James como a narradora/segunda Senhora De Winter (seu nome verdadeiro nunca é revelado assim como no livro e adaptações posteriores) e Armie Hammer como Maxim de Winter. Mas tudo isso resulta em uma suntuosíssima e caríssima embalagem para um ovo de Páscoa que se revela, no máximo, passável, daqueles que o comensal mordisca só para dizer que provou, mas nunca mais retorna para devorar.

Mesmo considerando que o roteiro de Jane Goldman, Joe Shrapnel e Anna Waterhouse consegue ser ainda mais próximo do material fonte do que a adaptação hitchcockiana, especialmente em um detalhe da reviravolta final, o texto extrai toda a sutileza e os subtextos da narrativa, substituindo-os por diálogos pesados e pouco criativos que, se não tornam a história exatamente cansativa, tira todo o seu brilho ou, para manter minha analogia com a Disney, põe verniz demais. Com isso, a inegável beleza dos cenários, dos figurinos e também da fotografia de Laurie Rose servem verdadeiramente como distrações e não como componentes que contribuem para a espiral de inveja, opressão, claustrofobia e maldade que perpassa a história e a mansão fictícia de Manderley, verdadeiro mausoléu em idolatria à Rebecca do título, falecida primeira esposa de Maxim que a governanta Senhora Danvers (Kristin Scott Thomas, muito bem, mas subaproveitada) ama acima de tudo e de todos, fazendo de tudo para que a segunda Sra. de Winter sinta-se deslocada, perdida e sufocada, torna-se o símbolo de uma casca que protege um interior oco que apenas permite fracos ecos da intenção da obra original.

Mas nem tudo se perde. O primeiro quarto do longa, passado na ensolarada e belíssima Monte Carlo e que conta com a sempre irritantemente perfeita Ann Dowd como a Senhora Van Hopper, empregadora da personagem de Lily James e que a trata como uma serviçal do mais baixo nível, é um deleite. Mesmo que Hammer e James sofram automaticamente na comparação com Laurence Olivier e Joan Fontaine nos mesmos papeis – é humanamente impossível evitar esse paralelo, então me perdoem -, eles são eficientes em estabelecer um relacionamento crível, com ele fugindo de algo que não sabemos exatamente o que é e ela inocentemente deslumbrada por tudo, que serve para contrastar com a lugubridade da gigantesca mansão no litoral da Inglaterra para onde os dois vão depois da lua-de-mel. O problema é justamente quando Manderley entra na história, carregando uma Senhora Danvers que, por mais que Thomas tente, acaba não tendo o peso narrativo em razão de um roteiro que não consegue ser sutil e que aborda o lado psicológico na base do be-a-bá, inclusive com Wheatley correndo na progressão da história justamente quando precisava ter mais calma, obviamente distribuindo mal cada “capítulo” de sua obra.

A prova maior desse problema está na grande reviravolta final e a abordagem da consequência dela até o encerramento do filme. Falo, aqui, dos 30, 35 minutos finais que transportam a ação substancialmente de Manderley até a cidadezinha próxima e depois até Londres em que tudo é trabalhado com desleixo, como se o diretor estivesse olhando para o relógio e notando que seu tempo estava acabando. Novamente fazendo a inevitável comparação, o longa de Hitchcock tem apenas nove minutos a mais, só que não só parece mais curto e dinâmico, como empresta à ação final, por assim dizer, uma cadência mais lógica e semelhante ao ritmo do que veio antes.

A própria opressão que a onipresença de Rebecca em tudo da mansão – com seu monograma em todos os lugares e sua ala oeste mantida imaculada – exerce sobre a segunda Senhora de Winter é objeto de correria, com Wheatley esvaziando a atmosfera gótica e substituindo-a por informações didáticas for dummies. No lugar de deixar o espectador sentir o que precisa sentir, compadecendo-se pelo drama da personagem de James no processo, ele pega em nossa mão e diz o que temos que sentir, algo que as reações da atriz – e, paralelamente, também as de Hammer – telegrafam teatralmente.

Mas de maneira alguma este Rebecca – A Mulher Inesquecível é um filme deplorável ou mesmo ruim. Há elementos que o tornam um esforço valoroso, mas não valioso, que alguns espectadores – potencialmente aqueles que nunca leram o livro ou viram a adaptação de Hitchcock – podem apreciar no conjunto, especialmente aqueles que forem fãs da dupla principal de atores. Não há nada de errado nisso, especialmente se o novo, ensolarado, visualmente esplendoroso, mas raso Rebecca atiçar a curiosidade pelo material original e sua versão cinematográfica máxima.

Rebecca – A Mulher Inesquecível (Rebecca, Reino Unido – 21 de outubro de 2020)
Direção: Ben Wheatley
Roteiro: Jane Goldman, Joe Shrapnel, Anna Waterhouse (baseado em romance de Daphne Du Maurier)
Elenco: Lily James, Armie Hammer, Kristin Scott Thomas, Keeley Hawes, Ann Dowd, Sam Riley, Tom Goodman-Hill, Mark Lewis Jones, John Hollingworth, Bill Paterson, Ben Crompton, Jane Lapotaire, Ashleigh Reynolds
Duração: 121 min.

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