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Crítica | Rebelião (1967)

por Kevin Rick
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Existem filmes que evocam determinadas emoções a partir de seus contextos temáticos, principalmente por como foram trabalhados ao longo da obra, que deixam uma marca profunda no espectador. Dependendo da proposta, podem ser formas de aprendizado, comoção, entre outras dezenas de sentimentos proporcionados pela Arte. Mas existem alguns, ainda mais raros, que deixam verdadeiras cicatrizes. Filmes que perturbam o interior, remexem o âmago e incomodam nosso senso. Rebelião (1967), dirigido por Masaki Kobayashi, é uma dessas obras-primas.

O filme do lendário cineasta japonês, conhecido globalmente por Harakiri, nos leva ao ano de 1725, durante o período Edo do Japão, para acompanhar a história do vassalo Isaburo Sasahara (Toshirô Mifune), o mais habilidoso samurai do território dominado pelo clã Aizu. Um dia, seu lorde emitiu uma ordem para que o filho de Sasahara, Yogoro Sasahara (Gô Katô), casasse com uma de suas mulheres, chamada Ichi (Yôko Tsukasa), após a moça contrariar os desejos do governante. Ainda que resistentes à decisão injustificada, Isaburo e Yogoro aceitam a mulher e o matrimônio em prol da obediência e proteção do nome familiar. Surpreendentemente, Ichi é uma esposa, mãe e ser humano exemplar, resultando no casal verdadeiramente se apaixonando e vivendo felizmente, até que a morte de um herdeiro faz com que o senhor do clã reverta sua ordem, requerendo o retorno de Ichi a seu castelo. Frente a isso, pai e filho se rebelam contra a injustiça.

No início de Rebelião, vemos Isaburo junto de seu amigo/adversário Tatewaki Asano (Tatsuya Nakadai), participando de um típico exercício samurai. A câmera de Kobayashi evidencia a espada, os cortes e o rosto enérgico dos personagens. Vemos o icônico Bushido. Entretanto, logo em seguida, Isaburo afirma para Asano que é dominado pela família da sua esposa há 20 anos, resignado ao papel de proteção familiar acima do caminho do guerreiro. Com poucos minutos, Kobayashi subverte o subgênero, continuando sua abordagem de crítica à tradição samurai de Harakiri, mas, ao longo da fita, procura caminhos mais, digamos, domésticos, para fazer o tratamento de desnudação da mítica do samurai. É, na verdade, uma obra voltada para o âmbito do drama familiar buscando a experiência da indignação.

Toda a estrutura narrativa e a imagem do filme são voltadas para a construção tijolar do ódio causado pelo aprisionamento da rígida e injusta ordem social. Kobayashi inicia com a já dita exposição da verdade trágica de um grande guerreiro subjugado pelos deveres familiares, e vai colocando camadas de desigualdade oriundas do autoritarismo, sempre escalonando um sentimento de repulsa com os costumes e a honra deturpada de uma sociedade baseada no enclausuramento de vontades e emoções. Narrativamente, grande porção da obra ocorre através de manobras diplomáticas da família Sasahara para escapar da autocracia, mantendo o espectador atento com as negociações, o desejo de independência e a maneira que sofrem com mentiras e golpes de todo um coletivo fundamentado em opressão. O enredo do abuso de poder é desenvolvido em um progresso de vínculo entre a audiência e os reprimidos que se veem cada vez mais engajados em protesto, raiva e rebelião.

Visualmente, Kobayashi cria o mesmo sentimento de prisão social e cultural. Os cenários, seus planos e até a forma de andar dos personagens, é simétrica e organizada. Ameaças e ordens são proferidas com educação. Sentimentos humanos são colocados de lado de maneira descompromissada em prol da proteção de nome familiar ou aceitação de ordens ridículas. Notem como os personagens raramente se expressam além de formalidades, mas Kobayashi sempre dá close-ups nesses momentos, evidenciado explosões de emoção como algo raro e notável. Superficialmente, tudo é harmônico e proporcional, mas existe uma podridão interior, a distância entre o dever social e o humano – percebam como o casal apaixonado nunca se toca até o desfecho da obra.

É um filme construído imageticamente e narrativamente para proporcionar revolta. As interpretações contidas e cativas emocionalmente, especialmente a performance do semblante derrotista ao sentimento de libertação rebelde de um abrangido Toshirô Mifune, vão sendo soltas pela vontade de autonomia. Como Mifune diz: “finalmente me sinto vivo“. Quando o clímax da rebelião chega, o espectador anseia junto de seus personagens o prazer da desobediência. O desfecho trágico mantém a obra pragmática e frustrante, mas a sensação de alívio da independência de escolhas mantém um sorriso emocional no rosto do espectador que embarca junto com esses personagens em uma experiência de indignação e a força do querer da mudança.

Rebelião (上意討ち 拝領妻始末Jōi-uchi: Hairyō tsuma shimatsu)- Japão, 1967
Direção: Masaki Kobayashi
Roteiro: Shinobu Hashimoto (baseado no livro Hairyozuma shimatsu, de Yasuhiko Takiguchi)
Elenco: Toshirô Mifune, Yoko Tsukasa, Go Kato, Tatsuya Nakadai, Tatsuya Nakadai, Shigeru Koyama, Masao Mishima, Isao Yamagata, Tatsuyoshi Ehara, Etsuko Ichihara, Tatsuo Matsumura, Takamaru Sasaki, Jun Hamamura
Duração: 128 min.

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