Crítica | Rebelião de Tubarões

A pesquisa que se debruça diante das reflexões sobre incidentes envolvendo seres humanos e tubarões é fascinante. Inicialmente, o leigo imagina se tratar de um assunto exclusivo para estudantes ou interessados no mundo animal. Ledo engano. É preciso buscar posicionamento diante das celeumas que envolvem o meio ambiente, pois conforme as hipóteses expostas, testadas, derrubadas e comprovadas em Rebelião de Tubarões, a ação humana é um dos maiores elementos nocivos na equação “meio ambiente + sociedade + desenvolvimento”. Focada na polêmica incidência de ataques de tubarões no Pernambuco, em Recife, o documentário flerta com o estilo detetivesco, excluindo qualquer possibilidade de marasmo nas exibições de suas “teses”.

Dinâmico, Rebelião de Tubarões abre com recorte de jornais e resumo panorâmico das condições ambientais do “espaço cênico das reflexões”. Uma das estratégias é apresentar ao público as duas espécies apontadas como responsáveis pelos incidentes no Recife: o tubarão-tigre e o tubarão cabeça-chata. No primeiro caso, temos um animal que come de tudo que encontra nos oceanos, de carcaças, latas de tinta e até mesmo almofadas de embarcações já foram encontradas em seu interior. Entre regiões fluviais e mares abertos, o segundo caso é uma das vítimas da ação humana no meio ambiente. Expostos ao público, tais espécies são estudadas no Brasil e no exterior, numa impressionante análise que nos apresenta interações totalmente pacíficas entre os mergulhadores e tais animais.

O que faz, então, as espécies que patrulham parte do litoral pernambucano a agir com tanta agressividade? Para compreender a agressividade das espécies que atacam em Recife, Lawrence Wahba passou 11 meses em investigação noutros mares, isto é, nas Bahamas, em Cuba, na Flórida, além dos principais pontos da capital pernambucana. Autor de Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões, Wahba é alguém que entende do conteúdo e constrói uma análise coesa e sem fragilidade discursiva. Em sua opinião, baseada em dados empíricos, o homem é o grande culpado pelos problemas, afinal, alguns aterros impediram que os tubarões encontrassem uma zona adequada para a sua reprodução. Há também a história do matadouro que eliminou as vísceras de sua produção no mar, algo que ajudou na manutenção e atração das espécies que atacam.

Há ainda a pavimentação de manguezais (Porto de Suape) e a pesca de arrasto desenfreada como algumas das fontes dos problemas expostos. Nos registros, aponta-se que por meados da década de 1940, havia apenas um incidente catalogado oficialmente. De 1992 a 2006, o número ficou na casa dos 50 registros, mudança brusca e turbinada, como a mídia fez questão de expor, assunto que urgia por resolução ou ao menos, contenção de danos. A exibição da criança que atira uma garrafa plástica na água, como se o oceano fosse repositório do lixo humano, além de direta, sem alegorias ou contorcionismo intelectual, é também um alerta com tom de proposta de intervenção.

Sob a direção de Rodrigo Astiz e Malcolm Hall, o documentário foi realizado numa parceria entre o canal Discovery e a produção brasileira da Canal Azul. Com depoimentos de Fábio Hazin, Samuel Oliveira, Otto Gadig, Walmir Silva, Rômulo Bastos, Lawrence Wahba, dentre outros, Rebelião de Tubarões constrói o seu tecido científico sem deixar de ser atraente em suas panorâmicas aparentemente inspiradas no discurso audiovisual turístico. Para Hazin, pesquisador da UFRPE e presidente do CEMIT, a produção exagerou em seu posicionamento sensacionalista, opinião semelhante ao que Samuel Oliveira, Secretário do Recife, declarou quando a produção foi exibida na televisão. Já Otto Gadig acha que não é um material tão problemático assim.

Exibido em 165 países, como descrito brevemente no parágrafo anterior, Rebelião de Tubarões é um documentário bem estruturado esteticamente. A condução sonora de Alan Fábio Gomes estabelece um tom de entretenimento sem vulgarizar o discurso científico, tal como acontece com muitas produções do segmento. As imagens editadas por Marilyn Copland são fluentes, eficientes na função de organizar os depoimentos, as imagens descritivas com narração e a exposição dos dados inclusos nos gráficos realizados pela produtora Third Eye Design.  Ademais, sobre a estética do documentário, torna-se importante destacar o trabalho fotográfico da equipe de câmeras subaquáticas e microcâmeras, meticulosas na captação das imagens e dos movimentos dos tubarões radiografados para análise.

Há, de fato, um clima sensacionalista, algo que coloca a produção dentro da ciranda chamada “contradição”, afinal, algumas críticas pontuais ao clássico de Steven Spielberg percorrem os 49 minutos de produção, mas os próprios realizadores, interessados em manter a audiência, haja vista o discurso sobre a sonolência dos “filmes ambientais”, investem em algumas passagens que recorrem ao posicionamento midiaticamente exagerado, aparentemente extraído das ficções narrativas sobre o tema. O trecho com o depoimento de Walmir Silva, vendedor que foi atacado e guarda rancor dos seus traumas é demasiadamente exagerado, com o narrador a insistir constantemente que “ele é muito, muito pobre”. As cenas do matadouro fechado se assemelham aos cenários de filmes da linha O Massacre da Serra Elétrica. É um detalhe, entretanto, que não atrapalha a condução científica de Rebelião de Tubarões, caso o documentário seja contemplado com senso crítico e direcionamento.

Rebelião dos Tubarões — (Brasil/Estados Unidos, 2006)
Direção: Rodrigo Astiz, Malcolm Hall
Roteiro: Rodrigo Astiz, Malcolm Hall
Elenco: Lawrence Wahba, Rodrigo Astiz, Malcolm Hall, Fábio Hazin,
Duração: 49 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.