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Crítica | REC (2007)

por Iann Jeliel
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O terror found footage não tem como ficar melhor do que isso. REC representa o balanço ideal entre a proposta de captura realista, presencial e verossímil de uma situação desesperadora, que não limita a presença de elementos fantásticos e sobrenaturais que permeiam o gênero em sua essência. Digo isso porque, geralmente, em termos de linguagem, quando essas vertentes se cruzam nesse estilo, uma prejudica ou limita as ferramentas de imersão da outra. Peguemos A Bruxa de Blair, por exemplo, o consumado mais importante filme dentro dele, precisou de uma série de contextos a seu favor fora dele para que sua experiência prática fosse potencializada. Graças à campanha de marketing – brilhante, diga-se de passagem -, as pessoas foram assistir ao filme com pelo menos a dúvida maturada de que aquilo poderia ser real, e isso fez toda a diferença para criar o mito em torno do filme, mesmo que numa análise separada, ele em si consiga extrair a atmosfera desejada pelas próprias pernas.

Acontece que independentemente dessa sua capacidade, num olhar panorâmico e de rótulos, é fato que existiu um efeito psicológico anteriormente programado, assim como se criou um efeito psicológico posterior quando este virou um clássico. Pode perceber quem o indica, geralmente o faz com um acompanhamento “veja com essa tal mentalidade” e, de certo modo, isso é limitador ao filme e ao gênero, que depois daí pareceu fundido a uma cartada só. Se a ideia por trás estava vinculada em fazer a maioria acreditar que o que é mostrado em tela “aconteceu” – e isso, em A Bruxa de Blair, só foi possível graças àquele contexto de início da internet e poucas notícias, bem específico –, pode-se dizer que o filme inaugurou e já enterrou a própria ideia em sequência, criando-se o mito ao entorno pelo seu caráter de fato único. Foram muitos anos até que outro nome grande no subgênero gerasse um efeito parecido, só que desta vez, muito mais por paranoia do publico do que uma construção exemplar e rica dentro de um aspecto realista. Atividade Paranormal também se aproveitou de um contexto, ou melhor, de uma mentalidade específica, e propôs uma brincadeira: você que tem uma câmera, comece a se gravar, vai que não há uma assombração a sua espreita?

No grosso, ele não se diferenciava tanto da maioria das tentativas após A Bruxa de Blair de atingir um espectro de verossimilhança fora de seu universo. Algo que jamais acontecerá de forma parecida, porque todos nós sabemos que fantasmas não existem, ou que assassinatos, desaparecimentos e afins gravados não seriam comercialmente vendidos como filme. Faltava essa maior honestidade ao subgênero, uma honestidade que não só foi entregue em REC, como também demonstrada em execução, na sua máxima potência, comprovando o fundamento e eficiência da escolha estética sem a dependência de um ambiente ou circunstâncias programadas. Paco Plaza e seu parceiro Jaume Balagueró acreditam na ficção criada através da gradação situacional, a dupla utiliza os elementos realistas à disposição para inaugurar a ambientação de modo que compremos a ideia de que ela é real para os personagens. Ao comprarmos, inconscientemente acompanhando cada um de um modo próximo, isso transfere nossa relação de observador da ficção para participador dela, e quando menos esperamos no momento da ação, o efeito da verossimilhança torna aquela ficção – que sabemos ser ficção – real.

Essa construção de imersão é muito bem calculada desde o início por um timing irretocável de controle de elipses da montagem. Apesar da curta duração, o roteiro tem o tempo certo para tudo e aquele gasto do início é fundamental para maturar a ideia de verossimilhança, já que a encenação ensaia e entrecorta precisamente cenas descartáveis do cotidiano com erros de gravação para estabelecer uma espontaneidade e principalmente uma humanização daquelas figuras que acompanhamos. Mais tarde, essas pequenas características induzidas se tornam pontos de afirmação de personalidades, que quando chocados na desesperadora situação de quarentena se tornam verdadeiras partículas de gatilhos para estudos sociocomportamentais riquíssimos. Mesmo que uma vez que a ação entra, ela sufoca do início ao fim, existem os momentos de pequenas pausas para fornecer mais conteúdo nesse clima de tensão social, que irá reverberar nas decisões importantes no exercício de sobrevivência.

É o tipo de filme de terror que respeita muito bem seus arquétipos, tanto que eles nem parecem pelo recurso do found footage que deixa as pessoas mais “pessoas” e menos personagens, como pelas decisões tomadas ao longo do percurso, o que é muito verdadeiro por seguir uma figuração quase primitiva dos lapsos deixados nas pequenas pausas da atmosfera social. No fim das contas, o descontrole situacional vem da falta de liderança sobre um grupo recheado de distintas personalidades com claros preconceitos entre si, potencializado pelos “zumbis” e o isolamento forçado. Ênfase no forçado, porque apesar de ser uma caótica que em algum momento já existia naquele ambiente, é também o controle de um desconhecido externo que fornece a explosão interna de tensões e ênfase nas aspas de “zumbis”, porque uma das escolhas mais legais do filme é implantar essa para a verdadeira forma ou origem da ameaça, conversando perfeitamente com a base primordial para a verossimilhança se sustentar: por que continuar gravando e fazendo parte daquilo?

Esse é um grande pecado quando se trata de found footage, e na verdade é bem difícil mesmo de se pensar em algo plausível dentro de uma elipse grande de tempo a ser preenchida que justifique continuar a gravação ao invés de lutar para sobreviver. No caso de REC, não existe um conforto em somente usar o jornalismo como desculpa, ele na verdade é a base até mesmo da construção dramática de todos os personagens, onde é preciso registrar a situação para que na esperança de conseguir sair, exista uma prova em defesa dos personagens sobre o desconhecido que os fechou ali, como em defesa que existia um desconhecido a quem eles enfrentaram. O desconhecido sempre é mais aterrorizante, essa falta de informações constantemente seguradas só reforça a ideia de que tudo precisa ser gravado porque algo de novo pode ser captado. E o mais impressionante é notar que a direção se preocupa em ser entendível na condução dos acontecimentos, mesmo com o balançar da câmera, travas de áudio, gritaria o tempo todo, fazendo isso sem parecer programada, no sentido do cameraman parecer estar dirigindo o filme intencionalmente para o terror (sendo que ele é um personagem).

A claustrofobia filmada de modo inteligível sobre vários planos longos em sequência complementam uma imersão já antes irretocável, mas que consegue se superar quando culmina tudo em um dos finais mais tensos que o cinema de horror já testemunhou. Os últimos 15 minutos são uma aula de como se construir terror em todos os seus níveis, desde os sugestivos, com o ápice da ambiguidade do tipo de ameaça e gradação de certeza de estar em seu território de origem, a principalmente níveis práticos, apertando os personagens e o público já previamente sufocados em um confinamento ainda mais radical, escuro e sem escapatória. É um clímax simplesmente arrebatador, que ainda consegue com chave de ouro concluir-se dentro da origem do termo “filmagens encontradas”, de forma esteticamente icônica e elegante, sem precisar trair em nada o processo que o levou até esse momento. Por isso reafirmo, poucos filmes – para não dizer nenhum – foram tão assertivos e completos dentro de uma proposta. REC pode até não ter sido tão influente ou único como A Bruxa de Blair ou Atividade Paranormal foram para o found footage, mas sem dúvidas, ele é a obra-prima desse subgênero.

REC (Idem – Espanha, 2007)
Direção: Jaume Balagueró, Paco Plaza
Roteiro: Jaume Balagueró, Luiso Berdejo, Paco Plaza
Elenco: Manuela Velasco, Ferran Terraza, Jorge-Yamam Serrano, Pablo Rosso, David Vert, Vicente Gil, Martha Carbonell, Carlos Vicente, María Teresa Ortega, Manuel Bronchud
Duração: 78 minutos

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