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Crítica | REC 3 – Gênesis

por Iann Jeliel
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Contém SPOILERS. Leia aqui as críticas de todos os filmes da franquia.

REC é um dos melhores exemplos de franquia que soube reinventar sua identidade sem precisar trair o gênero ao qual pertence. Talvez o grande fator que proporcionou essa reinvenção bem articulada foi o fato de todos os filmes passarem pela mão dos criadores de seu universo, no caso, a dupla de cineastas Paco Plaza e Jaume Balagueró, que sabiam dos processos que fizeram a marca, e com isso, sabiam como desconstrui-los por baixo de uma nova ideia. No filme anterior, os dois já propunham uma efetiva mudança de perspectiva, onde o found footage que acreditavam como funcional já não tinha mais ferramentas para promover como exercício de puro horror naquele contexto, como foi no primeiro.

Assim, REC: Possuídos utiliza o que já havia sido estabelecido para preparar o terreno às mudanças internas de identidade, misturando o terror de sobrevivência a uma ação mais frontal e cada vez mais exagerada conforme a apresentação de seus conceitos mitológicos.  Em REC 3: Gênesis, a mitologia apresentada é finalmente expandida na prática para outro ambiente fora daquele prédio, através da quebra definitiva da linguagem documental, que como dito, não fazia mais sentido de existir dentro de um contexto em que o registro não é mais obrigatório, porque não há mais informações a serem ocultadas. Existe uma brincadeira bem legal proposta por Plaza – que dirige esse filme separado de seu parceiro – de começar no found footage, dando uma falsa ideia de repetição, somente para confirmar essa subversão que estava acontecendo. Esqueça a câmera, não há mais sentido em se preocupar em gravar tudo de novo só como fonte de informação, nós como público já sabemos como funciona a mitologia, e é isso que importa, “danem-se” os personagens.

Se seguisse novamente com o mesmo processo até o final, o roteiro estaria basicamente tratando a gente como trouxa (igual ao que uma certa franquia faz aí… Não é, Atividade Pararnomal?). Só que o mais legal é que essa quebra brusca não faz essa escolha inicial ser gratuita, somente como pegadinha, ou admite os personagens como irrelevantes. Pelo contrário, dentro da estrutura, a videoconferência inicial é fundamental para o desenvolvimento primário do casal principal.  Eles precisam ser acreditados como quase um casal de fantasia, para quando o filme propuser o desenrolar de acontecimentos para juntá-los novamente, cheio de maluquices “sem noção”, eles se tornem aos poucos plausíveis e cumpram seu papel de potencializar a identidade reativa programada no grafismo do longa.

E olha, Paco Plaza sabe o que faz, ele possui um timing expressivo e moderado na maturação para a aceitação desses elementos fantasiosos, novamente se aproveitando do que foi construído anteriormente, mas posicionando adequadamente o próximo degrau de exagero à medida que nós como público vamos aceitando o formato tradicional de película naquele universo. Ele se demonstra consciente do desnorteamento causado com essa troca de imagens, e então planeja cirurgicamente viradas em que ele acredita que terá o costume já a seu favor, para logo em sequência, entregar de forma prática a catarse que pensaria sobre essa nova óptica. Quando menos se espera, o filme admite toda a aparência meio tosca de pegar roupa medieval para se disfarçar no meio dos zumbis e coloca o marido para enfiar a espada neles. Daí para frente, vira um festival de sanguinolência inescrupulosamente divertido, que por incrivel que pareça, converte toda a breguiçe das bases dramáticas em algo relevante diante daquelas circunstâncias.

Funciona porque é honesto, não é o filme se levando a sério, é o filme levando a sério aquilo que dentro dele é acreditado, e tirando o fato de não ser found footage, é basicamente o mesmo mérito que houve no primeiro, o que o fez ser tão assustador e o que faz este ser tão empolgante. Uma empolgação calculada pela organização de exageros bem sobrepostos pelo diretor, além de muitíssimo bem conduzidos, com sequências de ação energéticas, geograficamente inteligíveis e criativamente memoráveis. Como não lembrar da cena em que a noiva dá a louca, rasga o vestido, pega uma motosserra e começa a serrar todos os zumbis? É simplesmente icônico. Aliás, todos os trinta minutos finais são recheados dessas cenas insanas de confrontamento que conseguem ser devidamente tensas, porque houve a micro base de desenvolvimento de personagens condizente com sua evolução em campo de batalha, e imprevisíveis pelo descontrole de exageros proposital que a premissa toma um tanto antes desse segmento.

Se o caminho de todas as franquias de horror – como dizem as línguas automatizadas – é sempre “piorar” por se tornar mais “trash”, porque não abraçar logo esse corpo e dentro dele se preocupar em saber fazer o que sabe ao invés de querer enganar. É esse o real problema com franquias de terror que ficam presas ao prometerem entregar de novo o que o primeiro fora do nicho conseguiu entregar, e isso dá espaço para quererem julgar todos da mesma forma e acabarem desvalorizando os honestos no caminho, independentemente da sua intenção de abraçar ou não esse novo corpo. Lamento por ambos, mas fato é, para quem tem mente aberta, REC 3: Gênesis é o cinema “B” em sua forma mais pura e gratificante.

REC³ Gênesis (Idem – Espanha, 2012)
Direção: Paco Plaza
Roteiro: Luiso Berdejo, David Gallart
Elenco: Leticia Dolera, Diego Martín, Ismael Martínez, Àlex Monner, Borja Glez. Santaolalla, Emilio Mencheta, David Ramírez, Miguel Ángel González, Ramón Agirre, Xavier Ruano, José de la Cruz, Antonio Barroso
Duração: 85 minutos

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