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Crítica | REC 4 – Apocalypse

por Iann Jeliel
423 views (a partir de agosto de 2020)

Contém SPOILERS. Leia aqui as críticas de todos os filmes da franquia.

O segundo tinha adaptado o terror na inserção da ação, o terceiro tirou o found footage para potencializar essa ação no grafismo do terror, e o quarto usaria a identidade construída na ação para finalizar a história da quadrilogia em grande sanguinolência.  Assim como no terceiro filme, apenas um membro da dupla de criadores do universo assume a direção, no caso, Jaume Balagueró, que como cineasta está uns passos atrás de Paco Plaza, mas que ainda demonstra saber bem o que fazer com a mistura versátil apresentada por ele no filme anterior.

Acho que a principal diferença entre os dois está no modo de filmagem em grande angular de Balagueró, uma escolha que em grandes durações pode gerar um efeito de cansaço, visualmente falando. Contudo, o recurso tem um propósito claro de valorizar os espaços da ação sem perder a sensação de enclausuramento que o cenário naturalmente deve passar. A história se passa inteiramente num navio, no qual Ângela Vidal – a repórter protagonista do primeiro e sobrevivente infectada pelo parasita da menina Medeiros no segundo – é finalmente resgatada, mas antes de qualquer liberdade, precisa ser estudada para ver se não ocorreu nenhum tipo de infecção.

Sabemos a priori da resposta, mas o filme não entrega suas cartas tão facilmente e sustenta uma ambiguidade proposital na personagem que vai construindo na figura de uma redoma simbólica, que definitivamente seria eficiente para qualquer lado escolhido, como foi no filme anterior. Só que antes, essa redoma era muito uma forma da linguagem transicionar ao reativo, uma identidade que já é uma realidade nesse filme, assim, seja Ângela a vilã ou a heroína no final, sua personificação de personagem feminina forte seria consolidada no exercício de sobrevivência. A dúvida na verdade só melhora essa construção icônica sobre a personagem, além de ser um ótimo freio de mão para que ela consiga contracenar e alavancar o desenvolvimento dos outros.

É o filme mais rico da franquia em personagens, todos além de Ângela são muito bons, inicialmente desenvolvidos dentro daquele realismo do primeiro para não se tornarem genéricos. Depois, quando a carnificina chega, abraçam mais exageradamente seus arquétipos de modo sincrônico à intensidade desejada. Ainda que gaste um bom tempo nessa contextualização de personagens e da história, o ritmo imprimido é constantemente eloquente, sempre provocando situações a acontecer para ir gerando um efeito de dinamismo de prontidão. Nem parece, mas é somente depois da metade do filme que a ação de fato começa, e é quando tudo se eleva gloriosamente. Méritos da inserção do terceiro filme, que sacrificou seus personagens em prol de fornecer a identidade para esse poder extrapolar e ainda ser mais impactante em seriedade graças aos personagens relevantes e a um espaço ainda mais confinado.

Uma pena que a escolha da grande angular se justifique tão tardiamente pois, como dito, usada em tempo demasiado se torna visualmente cansativa, o que poderia ter sido dosado melhor nas pausas do filme para não ficar um claro fadigamento da técnica no final. Contudo, é ela que cumpre perfeitamente sua função geográfica de deixar a ação inteligível dentro da intencional maior tremedeira que busca emular a caótica do clímax. Independentemente do cansaço, o terceiro ato é memorável, com viradas perfeitamente programadas e coerentes dentro do direcionamento narrativo e várias sequências de gore absurdamente viscerais e empolgantes. Novamente, REC entrega cinema “B” de altíssimo nível, que só não é melhor porque traz alguma reciclagem de situações, mas contextualizadas no cenário do navio. Como aquela cena icônica da motosserra do terceiro, que aqui se repete com um motor de barco. É bom? DEMAIS, mas convenhamos que foi um tanto reciclado.

Apocalypse pode até dar uma ideia errada pelo seu título e matéria promocional, que indicam algo global de fim de mundo com Ângela sendo a vilã responsável, mas na verdade é um filme que ainda continua bem fiel as suas origens, que mistura confinamento em terror de sobrevivência de intensidade crescente com uma grande protagonista para representar sua imagem. Uma ótima conclusão para uma das grandes franquias de terror deste século.

REC 4: Apocalypse (REC 4: Apocalipsis | Espanha, 2014)
Direção:
Jaume Balagueró
Roteiro: Jaume Balagueró, Manu Díez
Elenco: Manuela Velasco, Paco Manzanedo, Héctor Colomé, Ismael Fritschi, Críspulo Cabezas, Mariano Venancio, María Alfonsa Rosso, Carlos Zabala, Javier Laorden
Duração: 96 minutos

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