Home FilmesCríticas Crítica | Red Screening (Al Morir la Matinée)

Crítica | Red Screening (Al Morir la Matinée)

por Michel Gutwilen
367 views (a partir de agosto de 2020)

Sem muitas delongas, uma constatação inicial: Red Screening é um filme-cinefilia. Um filme que é sobre Cinema, que passa em um Cinema físico e feito por um ávido amante da sétima arte — ainda que eu não conheça o diretor Maximiliano Contenti para constatar isso. Porém, seria impossível dizer o contrário quando se enxerga Argento, Hitchcock e De Palma como claras referências visuais na construção de sua mise-en-scène. Trata-se de uma ode ao maneirismo, ao Giallo e ao horror. Uma contrarevolução diante da última leva de obras contemporâneas que têm medo de se assumir como terror e precisam se vender como algo a mais. Terror “psicológico” ou “pós”-terror, reparem que o substantivo (terror) nunca basta, precisando de um complemento, pois o gênero por si só, para eles, é considerado de um patamar inferior. 

Na Uruguai dos anos 90, uma sessão de um filme de terror está acontecendo no fim da noite. O filme que está passando já é o suficiente para pensar em um desdobramento: Frankenstein: Day of the Beast, de 2011. O que muitos chamariam de “furo de roteiro”, na verdade, é um anacronismo intencional (tal como o de Corrente do Mal), pois estabelece o Cinema (físico) mais como um lugar mágico, onde a lógica e o espaço-tempo do mundo real não possuem vez. Naquela sessão, alguns personagens (ou arquétipos) estão em cena: a projecionista; o lanterninha; uma criança que ficou escondida embaixo da cadeira após o fim da sessão anterior para conseguir ver o filme para maiores; três adolescentes bêbados; um casal que foi ao cinema fazer sacanagem; um velhinho que dormiu na sessão anterior e acordou nessa; além de uma solitária menina que levou bolo do namorado. Obviamente, são arquétipos, figuras familiares que todo mundo que foi ao Cinema já se deparou (ou foi um deles) alguma vez na vida. Espera-se todos os clichês daquelas pessoas e elas irão cumprir todos eles.

Na sessão, além dos espectadores, uma figura encapuzada, de casaco e luva pretas, que parece transportada diretamente de um giallo de Dario Argento. Portanto, só pode ser o assassino que irá matar um por um daquelas pessoas. Como todo serial killer, ele possui uma peculiaridade: os olhos das suas vítimas são arrancados e colocados em conserva. Em Red Screening, é preciso reparar o que todos os mortos possuem em comum: nenhum deles está de fato vendo o filme. Para eles, o Cinema é apenas meio e não fim, um lugar qualquer para que se faça outra coisa e o que está projetado na tela se torna um mero pretexto. Portanto, é possível pensar neste assassino sem motivação como um justiceiro e guardião do próprio Cinema. A punição máxima será aplicada àqueles que desrespeitam, banalizam e maculam o templo do Cinema. Não à toa, sobreviverá ao fim da narrativa os dois olhares mais puros: a criança, a única que estava verdadeiramente imersa em Frankenstein, e a projecionista, fora dos limites da sala. Neste sentido, volta-se ao terror punitivista de John Carpenter (quer filme mais moralista que pune quem faz sexo do que Halloween?) e Dario Argento. 

Além deste elemento autoreferencial ao terror, o espaço físico de Red Screening é elemento integral à construção de uma mise-en-scène pautada em uma experiência fora do mundo real e mais na cinefilia em si. A presença na parede de pôsteres de filmes de Sam Raimi e Dario Argento é mais do que uma caracterização verossimilhante de um cenário dos anos 90. Pelo contrário, ela é uma afirmação do autorismo. Quando um assassinato acontece com o pôster de Opera no fundo do plano, é quase como se a morte fosse um sacrifício em prol de Argento, uma homenagem. Em consonância com isso, o que dizer do momento em que Contenti emula o dolly zoom de Hitchcock em Um Corpo que Cai quando a projecionista se depara com os corpos, ou quando as balas/olhos caindo da escadaria em slow motion são como as pessoas na escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, ou o carrinho de bebê em Os Intocáveis, de Brian de Palma? Não se trata de mero fetichismo vazio feito por um diretor fã desses autores, mas uma assimilação consciente na mise-en-scène de dupla significação em cada cena: ela existe tanto em função de si mesma na narrativa como parte de um louvor aos Deuses do Cinema. 

Se tudo na narrativa irá seguir dentro do mais clichê possível (afinal, o lanterninha, ao ler o horóscopo do dia, prevê o que irá acontecer com a projecionista) é justamente porque no verdadeiro giallo ou nos filmes maneiristas hitchcockianos e depalmianos nunca foi importante os acontecimentos em si (dane-se quem sobreviverá e qual a identidade ou motivação do assassino), mas o modo como eles acontecem. Red Screening é a volta das mortes criativas, que desafiam qualquer lógica em prol de explorar a maior plasticidade deste evento e seu consequentemente banho de sangue explodindo em vermelho. Nenhuma verossimilhança no mundo será capaz de igualar o quão genial é ver a garganta de um homem sendo cortada enquanto ele fuma e a fumaça do cigarro vai saindo por este buraco juntamente com sangue. Sendo Cinema criatividade, as mortes proporcionadas pelo horror podem ser o maior expoente disso e Contenti explora ao máximo essa potencialidade. Não há momento que comprove melhor o pleno entendimento de um diretor em relação ao que é o Cinema de Horror do que a sequência em que, ao mesmo tempo, o menino urina na calça, o homem têm um orgasmo e o casal morre empalado. No fim, essa é a maior declaração a ser feita: contra a sofisticação do horror, mas a aceitação de sua vulgaridade. Viva o mijo, o gozo e o sangue explodindo em tela.

Red Screening (Al morir la matinée, 2020) — Uruguai
Direção: Maximiliano Contenti
Roteiro: Maximiliano Contenti, Manuel Facal
Elenco: Luciana Grasso, Franco Durán, Julieta Spinelli, Bruno Salvati, Emanuel Sobré, Patricia Porzio, Vladimir Knazevs, Hugo Blandamuro, Ricardo Islas
Duração: 87 mins

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