Crítica | Rei Sol (2018)

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Fazem nem dois anos que Luís XIV foi retratado por Albert Serra no belíssimo A Morte de Luís XIV. Jean-Pierre Léaud, ao mesmo tempo que interpreta o rei, representa a si mesmo como uma espécie de avatar da Nouvelle Vague, um ícone que atravessou o tempo e teve um legado tão longo quanto o reinado do rei da França, que durou mais de setenta anos. É uma encenação estática e decadente sobre a morte como um evento, sobre a herança tanto de um monarca quanto de uma figura crucial na história do cinema. Serra, que já era um grande nome na cena europeia, atingiu seu ápice, sem sombra de dúvidas.

Passa-se o tempo e o artista tem a ideia de encenar a história que lhe rendeu milhares de elogios numa instalação teatral, algo já feito por Serra anteriormente. É o ponto de partida para Rei Sol, que no lugar de Léaud há um ator amador, e ao invés da pomposa composição visual há o menor número de detalhes possíveis, apenas uma sala vermelha, pequenos objetos de cena e gemidos do rei nos seus últimos momentos. O intérprete Lluís Serrat se arrasta, come, geme, penteia o cabelo, sente dor, medica-se e espera a morte da forma mais desprezível possível, com artistas bisbilhotando sua dor.

Essencialmente é uma instalação de mau gosto, que assimila a glutoneria do rei como uma forma de arte conceitual cuja crítica ao poder é tão rasa quanto a própria mise-en-scène do filme. Luís XIV gasta seus respiros finais não em família como no filme anterior, mas sozinho, como fosse o centro do mundo, se paparicando das formas mais objetivas e óbvias possíveis, como olhando-se no espelho e perdendo o fôlego comendo doces. São imagens obscenas mas que acreditam demais na sua validação como “grande arte”. Eu até teria algum respeito se houvesse alguma ironia inserida, ou pelo menos se o filme tivesse metade da duração final.

Quando o truque é revelado e descobrimos que aquilo não passava de uma encenação teatral é que tudo fica pior, quando há um plano de pelo menos dez minutos de Luís XIV caído morto com a plateia olhando. Muitos parecem raciocinar como se fizessem cálculos matemáticos, buscando alguma beleza em cima daquela pobreza para parecer mais culto ou descolado ao fim da sessão de teatro, enquanto alguns outros espectadores renderam-se ao celular (e tenho certeza que o grupo da família estava bem mais divertido). O Rei Sol é dado como morto e aplausos estrondosos são ouvidos, pessoas validando suas posturas pretensiosas de artista por terem a paciência de aguentar uma hora do exibicionismo nojento da peça. É mais um caso de “é arte porque só eu entendo”, pessoas que se acham por captarem o conceito. Pois trata-se de um filme tão pedante que só arrotando muito caviar pra ter algum argumento pra defende-lo.

Rei Sol (Roi Soleil) – Portugal, Espanha – 2018
Direção: Albert Serra
Roteiro: Albert Serra
Elenco: Lluís Serrat
Duração: 61 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.