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Crítica | Rejeitados Pelo Diabo

por Iann Jeliel
284 views (a partir de agosto de 2020)

É hora de fazermos o que o senhor chamaria de limpeza dos perversos.

O músico e agora cineasta Rob Zombie teve sua primeira aventura no audiovisual em A Casa dos 1000 Corpos, filme que dividiu as opiniões fortemente pelo estilo de videoclipe sádico e bagunça não intencional, com várias referências a clássicos do gênero misturados em humor e perturbação em doses aleatórias. Como foi lançado em uma época propícia ao seu estilo, o filme fez relativo sucesso principalmente diante da polarização, o que fez Zombie se motivar a fazer uma continuação, já que agora tinha mais recursos e um feedback imenso sobre os problemas de sua experimentação anterior, e com isso, a possibilidade de se precaver mais com possíveis problemáticas na produção, algo que até o próprio diretor fala que prejudicou consideravelmente o resultado final do filme anterior, que foi mutilado como suas vítimas, com mais de 20 minutos cortados e diversas mudanças no texto durante as gravações.

Rejeitados Pelo Diabo, além de vir com essas vantagens, nasceu naturalmente com um desprendimento estrutural do anterior, o que o permitiu ser mais livre para brincar com as características misantrópicas banais que seus personagens imorais poderiam fazer com quem cruzasse seu caminho, além de poder inserir seu caráter referencial de forma mais orgânica à trama. Ela que tem somente uma única conexão direta com o anterior, que é o estabelecimento da premissa, onde uma narração midiática contextualiza o descobrimento daqueles assassinos com base nos fatos acontecidos no primeiro. A partir daí, a policia local começa a caçá-los, e logo na sequência inicial, elimina os peões de personagens desinteressantes, deixando Capitão Spaulding, Baby Firefly e Ottis, que eram os mais relevantes anteriormente, fugirem, para assim dar início a um jogo destrutivo inteligente entre eles e os oficiais da lei, que na mente de Zombie não são também flores que se cheire.

Ao focar na batalha entre vilanias, o suspense fica pautado para várias vertentes. A primeira é como os assassinos, que naturalmente já resguardam o carisma do público após terem sido previamente apresentados, vão conseguir escapar, o que logo gera a contrária de como os policiais vão conseguir pegá-los, com o avante do xerife Wydell estar sendo levado pelos limites da moralidade da lei. Há ainda uma terceira linha que resguarda a utilização de vítimas no caminho dessa disputa, que não são só meras peças descartáveis para um implante sádico gratuito do roteiro, como também representam desafios a serem passados pelos personagens, o que garante um reforço na dualidade da tensão e a mantém em constância. A trama com essa dinâmica se torna mais fluida, e a aleatoriedade das situações criadas vai adentrando-as naturalmente, o que consequentemente torna o filme mais imprevisível.

Embora os exageros do diretor estejam bem controlados, a vulgaridade excessiva dos diálogos ainda cansa e se tornou brega com o tempo. É aquela velha inserção de fock ao final de cada frase só para mostrar o quanto os personagens são sujos e ao mesmo tempo cool. O humor, nesse sentido, também soa deslocado, por esse apelo de referências a diversos elementos da cultura pop que nada combinam com essa história, como Star Wars ou Elvis Presley, tentando ser uma espécie de aliviador da situação, e acaba que por muitas vezes a quebra por completo. Embora, quando esse é utilizado durante as cenas mais enérgicas como uma referência a outros filmes de lunáticos, funciona muito bem, já que foi uma das características que mais chamou a atenção em algumas cenas do anterior, o que o tornou de certo modo icônico. O efeito é basicamente o mesmo, só que num cenário expandido de maior organização.

É nítida a evolução de Zombie como diretor nesse sentido, e dificilmente sua identidade visceral, sombria e desesperançosa fica melhor do que isso, ao apostar em planos mais abertos e a câmera menos tremida, ajudam a retirar seu senso de videoclipe paspalho, embora ainda estejam presentes aquelas demasiadas câmeras lentas em superclose com ar documental, elas estão melhor elaboradas e não cansam tanto. As cenas mais pesadas, seja na questão gráfica ou no conteúdo implícito, também têm sua distribuição atenuada em momentos-chave para a história progredir, distanciando de um caráter apelativo já natural que o diretor busca com elas. Surpreendentemente, e não por questão de limitações de gore impostos pela censura, Zombie deixa somente para mostrar o sangue nos momentos certos, quando o roteiro desafia a moral do público para a violência não se tornar banal a ponto de não ser mais efetiva ao choque.

O ato final é a prova dessa evolução do diretor em lidar com seu estilo, por mais que se submeta a uma solução simplista, o roteiro retira o espírito mais primitivo do público, ao ter direcionado toda a construção para a torcida pela morte dos personagens num determinado momento, ao mesmo tempo que pela primeira vez traz um senso de humanidade naqueles monstros, que não fica forçado pela irônica escolha musical. Hoje, esse final pode ser até mal interpretado, tendo em vista os direcionamentos do último filme da trilogia, ademais, como esse tinha sido pensado quase isoladamente, sem uma perspectiva de uma nova continuidade, a conclusão serviu perfeitamente ao faroeste dos Assassinos Por Natureza.

Rejeitados Pelo Diabo (Devil’s Reject, EUA/Alemanha – 2005)
Direção: Rob Zombie
Roteiro: Rob Zombie
Elenco: Sid Haig, Bill Moseley, Sheri Moon, William Forsythe, Ken Foree, Matthew McGrory, Leslie Easterbrook, Geoffrey Lewis, Priscilla Barnes e Danny Trejo
Duração: 109 min.

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