Crítica | Relatos do Front

PLANO CRÍTICO RELATOS DO FRONT

Mais um filme que merece ser visto por todos os brasileiros, Relatos do Front cativa não só pela belíssima produção, mas também pelo esforço em não ser uma obra de panfletagem. Dessa forma, o projeto visa mostrar dois lados opostos de uma realidade brasileira, sem precisar levantar uma bandeira que apoie esta ou aquela ideologia. A película aborda a política genocida nas favelas brasileiras. Por meio de relatos de especialistas, policiais e moradores da periferia, a obra pretende mostrar os dois lados desse cotidiano, que afeta policiais e cidadãos.

Sabe aqueles documentários que não têm medo de sujar o sapato? Relatos do Front tem potencial de ser a primeira opção quando pensamos em algum do gênero. O cinegrafista Jadson Marques penetra nas periferias brasileiras acompanhando pessoalmente a realidade de policiais e moradores. Assim, conseguimos sentir como se estivéssemos assistindo em primeira pessoa os terrores desse cotidiano, nos deixando cada vez mais incluídos no que está acontecendo. 

Esse recurso é interessante, visto que um dos maiores problemas de películas do gênero é o fato de quererem contar a história por cima: apresentam um problema, mas não se insere no meio dele. Dessa forma, esses documentários parecem querer priorizar as estatísticas em detrimento das cenas em primeira pessoa, ou seja, a própria realidade. Isso tudo, comumente acompanhado de sequências com recursos cinematográficos exagerados (o que no gênero é um erro), como excesso de trilha sonora em depoimentos ou técnicas de corte de cena (como efeitos no fade out, por exemplo).

Em Relatos do Front, esses recursos cinematográficos pouco aparecem. No entanto, é uma pena que o documentário não tenha abdicado totalmente desses efeitos, tornando algumas sequências sensacionalistas. Em alguns depoimentos, por exemplo, a obra se perde em focar exageradamente, por meio de close ups,  no choro das pessoas, transmitindo um drama além do que a cena deveria ou queria ter. De fato, os relatos são emocionantes, porém não era necessário toda essa overdose nas cenas de drama. Deixe os exageros para narrativas fictícias.

Em outro ponto, devemos destacar o cuidado do diretor Renato Martins. Ele zela em equilibrar a balança, de modo que a visão dos cidadãos e dos policiais são demonstrados sem favorecer nenhum dos lados. Desse modo, a película é de interesse de pessoas de qualquer posicionamento.bÉ importante lembrar que expor a visão do diretor não é considerado um erro. Entretanto, é fundamental saber para quem você está produzindo o documentário. No caso de Relatos do Front, é notório que o projeto quis demonstrar uma realidade brasileira; e toda realidade têm dois lados. Aqui, demonstrar apenas uma perspectiva não seria só antiético, mas também um desrespeito à sociedade. 

Além do sensacionalismo pontual, o filme também peca em ser repetitivo. Acompanhamos a mesma sequência repetidas vezes: relatos de moradores, continuado de cenas de tiroteio na periferia, seguido de opiniões de especialistas, continuado de relatos de moradores… Seria mais interessante que a película se dividisse em três atos. O primeiro ato realçaria as perspectivas por meio de imagens, o segundo levantaria o drama dos relatos dos cidadãos (tomando cuidado com o sensacionalismo, é claro) e o terceiro ato iria explicitar a visão dos especialistas sobre o problema exposto. Dessa forma, o documentário ficaria mais organizado e menos cíclico.

Enfim, Relatos do Front é um importantíssimo filme brasileiro. Além de levantar temas modernos do nosso país, consegue trabalhar o enredo de forma honesta, ou seja, sem levantar bandeiras. É uma pena que peca em utilizar  desnecessariamente alguns recursos cinematográficos em uma porção de cenas, construindo sequências repetitivas.

Relatos do Front (Brasil, 2018)
Direção: Renato Martins
Roteiro: Renato Martins
Duração: 100 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.