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Crítica | Relíquia (Relic)

por Iann Jeliel
1412 views (a partir de agosto de 2020)

Desde A Bruxa, em 2015, ou melhor, Corrente do Mal, em 2014, o terror vem passando por uma nova fase vanguardista denominada por muitos como “pós-terror” – termo que não faz o menor sentido, diga-se de passagem –, que se refere a um retorno de atmosferas psicológicas sessentistas, buscando subverter as principais convenções do gênero e transformá-las no benefício da dúvida para criar o terror do desconhecido. Em especial, esses filmes articulam um forte teor alegórico, geralmente acrescentando camadas sociais de problemáticas e discussões atuais no fundo do cenário fantasioso proposto. Metaforicamente, esses acréscimos temáticos funcionam como gatilhos para potencializar o poder angustiante da narrativa, ao menos é assim que na teoria deveria funcionar, mas lógico que nem todas as articulações conseguem desenhar esse objetivo com eficiência. Relic, infelizmente, se encaixa em um desses casos, ao prometer demais na construção e ficar devendo na entrega prática para onde tudo é direcionado, de certo modo, adquirindo o significado nocivo do rótulo “pós-terror”, justamente tentando negar o próprio gênero a que pertence.

O aspecto mais problemático é a notória falta de propósito em muitas das cenas que participam do processo de criação de tensão. Existe uma diferença entre as cenas contemplativas que manipulam o encaixe do público dentro da atmosfera e as que simplesmente enrolam o telespectador para gerar expectativa sobre o que raios está acontecendo. Natalie Erika James tem até domínio para realizar a primeira vertente, mas parece perdida no timing de dosagem para os takes escolhidos e muitas vezes cai na segunda, especialmente antes da premissa se estabelecer, ela parece demorar por conveniência em alguns diálogos que nem desenvolvem as personagens nem a situação direito. Quando a premissa finalmente se instaura, o lado atmosférico fica mais evidente, mas a problemática persiste principalmente no que diz respeito a sequências de desconfiança (aquela famosa checagem de algum barulho estranho, ou comportamento bizarro da avó), a cineasta matura ao máximo essas sequências na promessa de entregar alguma coisa, uma informação, uma nova pista ou aspecto alegórico, mas ela espera tanto a cena que perde o tempo de corte e a quebra se torna não só previsível como vai cansando o público depois da décima vez realizada, sem que algo de tão relevante aconteça.

Nos espaços entre elas, fica o período em que a dramaticidade individual do trio de personagens deveria ser consolidada, mas sua introdução feita entre os primeiros 20 minutos tinha ficado à mercê da contemplação vazia. Assim, quando esse desenvolvimento finalmente vem à tona, já é tarde, e a metade final é basicamente um conflito entre a tentativa de criar importância e o efeito consequencial que deveria vir após nos importamos com aquelas pessoas. Não há tempo para nem um nem outro serem executados com destreza, por mais que individualmente tenha noção da importância de importar seus personagens para o que tanto prometia ao clímax ser eficiente e recompensador na espera da suposta construção psicológica.

O trio de atuações é devidamente conduzido a essa lógica do texto, e as atrizes entregam o pedido dentro da noção de “dúvida vs sobrenatural”, mas por conta da má distribuição de tempo, a intenção surge sem efeito. Analisando isoladamente, está tudo ali direitinho, só mal posicionado, o que torna fácil de perceber as intenções, artificializando a mágica de não saber se o problema da avó é demência clínica ou influência espiritual maligna. Na verdade, pouco importa, e bom que não importe, assim não existe tratamento expositivo para nenhum lado de viés interpretativo, há o subtexto familiar alegórico claro sem parecer óbvio, e uma conclusão de pensamento fechada, mas não martelada, mastigada. O grande problema é, pensando no intuito, a reação diante da construção é proporcional?

Lógico que entra um aspecto muito subjetivo de como cada um se relaciona com a premissa, a temática e a própria elaboração do filme enquanto suspense no puro, mas olhando de forma macro, a impressão é a falta de maturidade. Cineasta nova, estreante em longas-metragens que vinha antes de 4 curtas, também de terror – algo significativamente mais prático de entregar –, possivelmente não tenha conseguido lidar bem com o processo de transição entre as durações e acabou tendo de apelar para outra via de convenções de rótulo “psicológico” para estender sua ótima ideia, que talvez fosse melhor realizada no micro de 20 a 30 minutos. Há potencial nela e no filme, mas espaçado dentro de blocos inseguros que, talvez, tenham prometido demais.

Relíquia (Relic | Austrália, 2020)
Direção: Natalie Erika James
Roteiro: Natalie Erika James, Christian White
Elenco: Emily Mortimer, Robyn Nevin, Bella Heathcote, Jeremy Stanford, Chris Bunton, Catherine Glavicic, Steve Rodgers.
Duração: 89 minutos

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10 comentários

Cleibsom Carlos 1 de agosto de 2020 - 21:49

Filme sem retoques sobre o massacre físico e mental que é envelhecer! Quando o que temos são perdas, dependência, esquecimento, solidão, incompreensão e abandono, a única “solução” que resta é o retorno da matéria ao pó de onde viemos…Da velhice não há como fugir, por mais jovem que sejamos hoje, é o que RELIC nos esfrega na face! Do que padece a vovó não tem a mínima importância, importam sim as agruras que a velhice nos causa, independente de quem seja! E quem acredita na conversa fiada da melhor idade deve passar longe deste filme cruel e excelente!!!

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Iann Jeliel Pinto Lima 8 de agosto de 2020 - 02:29

Ótimo comentário. Também enxergo a alegoria dessa forma, pena que não acho ela tão bem articulada no filme, como terror.

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Cleibsom Carlos 8 de agosto de 2020 - 12:50

Entendo perfeitamente o que você diz, mas como não vejo RELIC como um filme de terror e sim um drama pesado sobre o envelhecimento, encaro no filme o simples fato de se envelhecer como o terror em si. E neste caso, pelo menos para mim, monstros e fantasmas são até desnecessários, pois o próprio massacre inapelável do envelhecer e a dependência que ele nos causa já nos assusta o suficiente.

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Iann Jeliel Pinto Lima 9 de agosto de 2020 - 18:59

Eu não gosto disso de colocar o filme como drama apenas para justificar sua qualidade como terror. O filme pode e deve ter um alavancando o outro. A proposta dramática é boa, mas não é acompanhada com um timing de construção tão eficiente no terror, o que consequentemente diminui seu impacto porque como disse, o horror está para o drama. Lembrando que não é só de monstros e fantasmas que vive o gênero, mas principalmente de atmosfera e ela pode ser elaborada de diversas formas e nesse ponto eu vejo o problema.

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Bruno [FM] 24 de julho de 2020 - 20:26

Estou amando esses filmes com “títulos poéticos” que andam surgindo. Espero que no caso de “Relic” os responsáveis por lançar o título nacional mantenham o nome como “Relíquia” mesmo e não queiram chamar a atenção com um estrondoso “A Casa da Medo” por exemplo. Só estou esperando ansiosamente os 30 minutos restantes do final desse emblemático filme, que não estão lá.

A diretora estreante Natalie Erika James é um nome a ser observado. Talentosíssima! Amei a técnica utilizada com uma narração sobreposta a uma cena subsequente. Filme com uma parte técnica apuradíssima, uma mixagem e edição de som que podem muito bem chamar a atenção da Academia. Trilha sonora cheia de personalidade. Que não tenta imitar outros filmes, mas demonstra ter uma identidade única (assim como o próprio filme em si). No início a trilha se mostra surpreendente e depois de um tempo, comecei a achá-la incessante. E foi aí que entendi sua intenção de estar tão presente durante o desenrolar da história: a sensação de sufocamento.

Com 1 hora de duração, você está submerso no mistério e na curiosidade de descobrir logo o que está acontecendo. Mistério que já se mostra desde o início. Nesse ponto, sabia que esse filme seria diferenciado e que estava me entretendo com uma baita história clássica de horror. Sem necessidade de jump-scare ou clichês do gênero. Apenas uma história bem contada. E é a partir daqui, que “Relic” (Relíquia) se perde ao meu ver. Por escolher o abstratismo e a metáfora (ideia já começando a ficar SATURADA em filmes no gênero), pra concluir com uma hora e meia de filme, uma história que no princípio se mostrou cheia de conteúdo e HISTÓRIA a se desvendar…não metáforas. Foi como se o roteirista pegasse um balde de cimento (massa/densidade) e jogasse num quadro como tinta.

Não achei um filme ruim, mas eles tinham uma história de horror com um drama da vida real tão originais (como a questão da velhice e árvore genealógica), que achei frustrante a história e o mistério serem finalizados dessa forma. É poético, aterrador, e uma grande lição. Mas não satisfaz no final. E mesmo com tantas pontas soltas (que nos fazem pensar), ficaremos sem a boa história que eu queria muito conhecer. Restaram apenas as metáforas na cabeça sobre a parte dramática. Talvez se o filme tivesse se assumido assim desde o início, o final teria sido melhor digerido.

– Filme 3 estrelas (Bom)

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Iann Jeliel Pinto Lima 25 de julho de 2020 - 13:36

Também não acho ruim, apenas irregular. Concordo com o potencial técnico da diretora, mas acho que falta timing dos recursos na narrativa. A parte dramática é interessante, até a questão da metáfora não me incomoda, mas como você falou parece que o filme busca ela em primeiro plano ao invés de se concentrar no próprio poder de densidade da condução. Seria um ótimo curta ou média metragem.

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digdie 18 de julho de 2020 - 06:16

Alzheimer, doença mental, decadência diante da velhice e hereditariedade definem o filme. Quem tem uma tia(o), avô(ó) passando por isso sabem do que falo.

A casa é a metáfora da mente herdada.

Me lembrou também os sonhos labirinticos que tive na infância sobre a casa de meus avós.

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Iann Jeliel Pinto Lima 18 de julho de 2020 - 20:47

Sim, mas a metáfora é bem obvia na verdade e não tem uma construção dramaticamente tão potente ao meu ver. Mas fico feliz que tenha gostado!

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Fabiano 14 de julho de 2020 - 22:28

Possui uma atmosfera interessante, gostei do inicio e do final, mas em geral achei meio “sem sal”. Se fosse ter a ousadia de dar uma nota, seria um 6.

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Iann Jeliel Pinto Lima 15 de julho de 2020 - 11:57

Gosto de partes isoladas como disse, falta é um timing de preenchimento entre as cenas, fica claro que é um filme “estendido” não pela necessidade. Têm potencial atmosférico, mas precisava ter um controle temporal melhor dele.

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