Crítica | “Remind Me Tomorrow” – Sharon Van Etten

É recorrente encontrarmos por aí canções nostálgicas que relatam um passado longínquo hoje reservado apenas na lembrança. Remind Me Tomorrow, quinto álbum da ótima Sharon Van Etten, é um belo compilado de tais tipos de canção. Nada mais é do que um disco feito de lembranças e breves reflexões, algo já claro desde a capa. Se trata de um trabalho feito durante a gestação de seu primeiro filho e após sua estreia como atriz, fatos que conversam diretamente com a temática do álbum, onde percebemos estar diante de uma personagem que também está revendo suas concepções.

É interessante o olhar sincero que a compositora sempre demonstrou sobre o amor. Mesmo cantando muitas vezes sobre falhas e infortúnios que o sentimento pode levar, é notável ainda uma perseverança enorme de Sharon no mesmo. Observe, por exemplo, como I Told You Everything, em suma, é sobre as primeiras percepções de que sentimentos românticos para com alguém estão surgindo, enquanto Jupiter 4 coloca a cantora afirmando com certeza de que seu amor é real. Parecem temas que soariam clichês nas mãos de artistas de baixo calibre, mas aqui são interpretados com a sensibilidade empírica de alguém que possui memórias muito claras sobre o que canta e o que quer passar.

No One’s Easy To Love possui a marca de Sharon Van Etten, apresentando todo o olhar muitas vezes desesperançoso que a compositora possui a respeito do amor em suas letras, pegando de inspiração relacionamentos abusivos e problemáticos que teve no passado. A excelente canção é um dos destaques do álbum, apresentando uma roupagem grandiosa de um verdadeiro rock anthem em que guitarras se misturam a sintetizadores em uníssono e criam um verdadeiro espetáculo musical.

O maior elogio que eu poderia fazer a Remind Me Tomorrow é que se trata de um legítimo disco de indie rock. Em um cenário onde o indie perde cada vez mais força e seus principais expoentes parecem perder sua essência, temos aqui uma obra que respira o gênero desde sua produção, passando pelas letras honestamente diretas até a interpretação despojada da cantora. Sharon nesse álbum ainda faz um sábio uso de sintetizadores, inserindo synths de diversas formas harmônicas junto ao resto da orquestração, nunca deixando sequer a menor sensação de algo artificial nos arranjos.

O disco possui refrões memoráveis. É difícil não cantarolar o excelente “Put Your Hands On me Lover/ I’ve Got My Hands Up” da magnífica Hands, um refrão que soa perfeito para o catálogo da Florence + The Machine, por exemplo (e que, convenhamos, é melhor que qualquer refrão do novo disco da banda). Aqui, a brilhante linha de baixo se funde aos sintetizadores a fim de criar uma canção antológica, mesmo apresentando estrutura relativamente bem tradicional. Seventeen também segue essa fórmula de refrões marcantes, no fim soando como uma versão feminina de algo que Bruce Springsteen cantaria, artista que com certeza possui influência no material da compositora.

Stay é uma aula de como encerrar um álbum. Parece algo bobo, mas escolher uma boa canção para fechar um trabalho parece algo cada vez mais colocado em segundo plano pelos artistas. Se trata de uma belíssima canção sobre o amor entre mãe e filho. Contrapondo as diversas decepções amorosas que Sharon já cantou, aqui a cantora crava que este amor entre ela e seu filho será indestrutível e o que a manterá sempre no caminho certo. É a tese final do disco executada de forma perfeita em meio a um lindo trabalho de vozes em conjunto ao piano.

Remind Of Tomorrow abriu 2019 já como um dos melhores trabalhos desse início de ano. Uma obra que respira a essência indie rock e exala a honestidade da compositora. Sharon Van Etten infelizmente (ou não) permanece ofuscada na bolha indie, mas sem demonstrar preocupações em sair da mesma. Aparenta cantar e compor meramente para colocar para fora – da forma mais sensível, pessoal e simples possível – seus fortes sentimentos. É música em um dos seus formatos mais verdadeiros.

Remind Me Tomorrow
Artista: Sharon Van Etten
País: Estados Unidos
Lançamento: 18 de janeiro de 2019
Gravadora: Jagjaguwar
Estilo: Indie Rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.