Crítica | Renascimento de Mothra (1996)

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Há milhões de anos, uma criatura chamada Desghidorah (Death Ghidorah) surgiu no planeta Marte, transformando-o em um lugar arrasado. Quase que imediatamente, o monstro voltou-se para a Terra, sendo recebido por uma raça chamada Elias, pequenos seres humanos que convocaram Mothra para derrotar o apocalíptico visitante. Nessa batalha, os Elias foram quase totalmente destruídos, mas Desghidorah foi derrotado e selado em uma montanha, para que ninguém pudesse libertá-lo. No início desse filme de 1996, vemos uma empresa descobrir, por acidente, o local onde o bicho estava enterrado, retirando o antigo selo do povo Elias e também libertando Belvera, a irmã malvada de Lora e Mona, atuais detentoras dos rituais em torno da grande mariposa protetora da Terra.

Esta é a base do roteiro de Masumi Suetani para Renascimento de Mothra, a primeira parte de uma trilogia que mostra a deusa selvagem em filmes solo, nos anos 1990. Dirigido por Okihiro Yoneda, a película está enraizada numa forte linha moral e de mensagem ecológica clichê, dando base para o enfrentamento de Mothra com o Desghidorah, símbolo da destruição de muitas formas de vida no planeta. No decorrer do filme, percebemos que isso também ganha camadas pessoais e familiares, estando indiretamente ligado à mini-bruxa Belvera (com seu dragão robótico Garugaru) contra suas irmãs benevolentes que sobrevoam a cidade numa pequena Fairy Mothra.

Como essas questões mágicas ou fantasiosas não são mostradas ao mesmo tempo na fita, temos inicialmente um bom equilíbrio (e boa condução textual) entre o bloco dos humanos e o bloco kaiju. O roteiro mantém o mistério de maneira satisfatória e tem a paciência necessária para apresentar os lados em conflito, sempre ligando-os à família Goto. Mas infelizmente esses momentos são breves. Talvez com o intuito de tornar as primeiras cenas mais chocantes, o texto se deixa levar por coisas absolutamente descartáveis como a cena da mãe amarrada no chão, com a filha mentalmente controlada no sofá e as protetoras na Fairy Mothra perseguindo e atirando em Belvera montada no Garugaru. Se fosse algo rápido ou se tivesse alguma função narrativa importante em torno dessa luta em miniatura, tudo bem, mas não é o caso. Qualquer coisa relacionada à fuga de Belvera poderia ser resolvida rapidamente e fora da casa, assim como a posse do selo para libertar o Death Ghidorah.

De todos os grandes problemas do filme, porém, este é o menor. E mesmo que seja descartável ou ridícula em seus efeitos, a perseguição na casa da família Goto tem a sua parcela de diversão, algo que a futura e longa fuga das crianças e dos pais pela floresta, que toda a inútil cena do hospital, que o surto do jornalista louco por um furo ou as reportagens na TV jamais trariam. Num sentido menor, a fuga até cumpre o papel de construção da trama no entorno da batalha, então, mesmo sendo algo chateante (o diretor parece fazer tudo no automático, chega a ser desesperador), é algo que tem utilidade e traz contexto para a história. Já a tentativa do roteiro em resolver algumas coisas em elipse não dá certo nem a curto prazo, porque a atenção do espectador está inteiramente voltada para a grande batalha e apresentar outro núcleo narrativo no meio desse ápice de atenção só tem um final garantido: a irritação do espectador.

Mas enquanto patina horrivelmente em seu desenvolvimento ligado aos humanos, o filme acerta em cheio na parte que importa: os monstros. Os dois desenhos para a Mothra aqui são maravilhosos (especialmente o segundo, mais evoluído e cheio de novos “golpes”) e a luta contra o três-cabeças é surpreendentemente bem dirigida, inclusive nas cenas em que a larva de Mothra aparece para salvar a mamãe, sendo toda a batalha — e o restante do filme, para ser sincero — marcada pela ótima trilha sonora de Toshiyuki Watanabe, cheia de temas belos e tensos. Aqui iniciamos mais um ciclo para a existência de Mothra nos cinemas. A mosura, nesse caso, está muito bem. Já o enredo que a traz de volta… não exatamente.

Renascimento de Mothra (Mosura) — Japão, 1996
Direção: Okihiro Yoneda
Roteiro: Masumi Suetani
Elenco: Megumi Kobayashi, Sayaka Yamaguchi, Aki Hano, Kazuki Futami, Maya Fujisawa, Kenjirô Nashimoto, Hitomi Takahashi, Hiroko Tanaka, Kyôkei Arakawa
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.