Crítica | Repo Man: A Onda Punk

“Quanto mais você dirige, menos inteligente você é.”

Repo Man é um crime em formato de cinema: sem regras, sem moral e sem disciplina. Mas quem é o culpado por esse crime, se é que seja um crime cometer crimes na realidade em que o projeto se encontra? Pode parecer uma viagem meramente linguística, porém, percebam que o próprio conceito do longa-metragem, sua premissa, explora uma ordem em que a instituição, as leis propriamente ditas, tornaram-se criminosas. É basicamente uma obra sobre repossuir carros, sob um pretexto capitalista simples, mas não sobre roubar carros, noção que as aparências presumem.

Com essa visão preenchida pelas nuances das contraposições, Alex Cox, o cineasta responsável por A Onda Punk, comanda os seus pensamentos ambíguos, quiçá anamórficos, de um modo sujo, entre as regiões que separam um divertimento descompromissado, uma crítica social extremamente ácida e um retrato bem alucinado sobre as contradições da nossa sociedade. Assim, um carro nada inocente cruza as estradas norte-americanas transportando uma carga misteriosa na sua traseira. Esbarra na cidade do nosso protagonista, contaminada pelos alienados.

Justamente como aponta a Agent Rogersz (Susan Barnes), uma antagonista com um braço de metal, em uma das muitas passagens cafonas e sensacionais desse icônico longa, “ninguém é inocente”. Como ninguém é inocente, só resta ao indivíduo lutar por si mesmo, sem pensar em sociedade. Portanto, ao invés de construir um personagem principal, interpretado por Emilio Estevez, que carrega uma história edificante, que consegue superar os obstáculos, a narrativa apenas ironiza sua trajetória. Otto é carregado pelo acaso, saindo de seu emprego mundano por conta da rebeldia e, pela transgressão, entrando, porém, logo no sistema. O acaso transforma-o em um repo man. Os agentes do governo, os bandidos e os rebeldes: todos os arquétipos, cada um com suas próprias hipocrisias que são sarcásticas na visão de Cox, estão na mesma zona de oposição ao interesse do herói. Ele só quer encher o seu punho de dólares, garantindo a sua parte.

Herói entre aspas. O conceito entra até mesmo em um dos preceitos do movimento punk, que é a autonomia. O governo está mais preocupado com alienígenas. Os rebeldes querem saber mais sobre as conspirações. Os anarquistas não querem nada, apenas cometer violências indiscriminadas. Os pais do protagonista, em passagem notável, revelam que gastaram suas economias, antes destinadas ao garoto, em doações para uma igreja. Otto não pode contar com ninguém. Repo Man é muito irônico. Não existe engrandecimento. Existe apenas fuga da realidade, seja com drogas, seja com a independência. Uma sucessão de acontecimentos surreais, com a pretensa ideia de que algo está sendo ensinado ao jovem. Ninguém aprendeu nada, porque não há nada para aprender. Bud (Harry Dean Stanton), suposto mentor a Otto, encontra-se preso na alienação: comunistas e cristãos não podem entrar no seu carro. Ganha aquele que não tem moral.

Muito mais do que uma obra que captura a essência do movimento punk, Repo Man é o movimento punk transformado em cinema, niilista e completamente subversivo, contrário até mesmo à subversão. John Wayne era um viado”, comenta um personagem-chave dessa diversão, nonsense por toda a sua duração, mas que é pautada em uma auto-consciência impressionante. Logo o macho-alfa por excelência. Na verdade, dentro do seu próprio escopo absurdista, Repo Man é o contra-senso por excelência, característica que, com justiça, o colocou no panteão dos filmes cults mais celebrados. O que resta ao homem é acreditar em si mesmo e só, como acontece com o protagonista do longa, desconstruindo relacionamentos, relações de mestre e aprendiz. “É tarde demais para gente se envolver romanticamente?“, pergunta esse oportunista quando precisa. Os julgamentos já acabaram, e a coisa mais pura que sobrou foi justamente a porca radioatividade.

O escape é o cinema e o espaço. O senso que Alex Cox esbanja em termos de simplicidade e sarcasmo – com direito a um Emilio Estevez um pouco canastrão demais – é criminoso, e essa é a prova mais visceral disso. Quem criticou o protagonista de Contatos Imediatos do Terceiro Grau por sua decisão ao final do clássico de Steven Spielberg não percebeu o poder daquele comportamento, amoral. Um salve-se quem puder na obra menos moralista da carreira de Spielberg – e uma das mais corajosas que o cineasta já dirigiu. O mesmo posicionamento retorna.

Contatos Imediatos produzido por uma juventude desacreditada, mas com vontade de se divertir o quanto puder, gastando o seu tempo livre com sexo, comida e drogas. Tão punk essa obra que renega marcas aos alimentos – o cenário é rico. Não é sobre mercado isso, e sim sobrevivência. Subsistência e não ganância. Otto é sobrevivente. Conquistar algo? As oportunidades vão surgir dos céus. As respostas não estão na Terra, no entanto, permanecem nas galáxias. Repo Man é criminoso, pois não quer ser vítima ou chorar mazelas. Contudo, rouba carros ainda na legalidade.

Repo Man: A Onda Punk (Repo Man) – EUA, 1984
Direção: Alex Cox
Roteiro: Alex Cox
Elenco: Harry Dean Stanton, Emilio Estevez, Tracey Walter, Olivia Barash, Sy Richardson, Susan Barnes, Fox Harris, Tom Finnegan, Del Zamora, Eddie Velez, Zander Schloss
Duração: 92 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.