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Crítica | Reservation Dogs – 1ª Temporada

por Kevin Rick
725 views (a partir de agosto de 2020)

É sempre fascinante o poder da representação de minorias no audiovisual, quando bem feito. Seja uma obra com o encargo de expressar uma cultura inteira ou, como no caso de Reservation Dogs, incorporar uma experiência específica e cotidiana de um grupo marginalizado, a importância do retrato de minorias sociais está na simples evidência do “existir”. É como se fosse um grito por pertencimento, um verdadeiro clamor por, bem, representação: Eu existo, meu povo e minha comunidade existem, minha cultura e sua história precisam ser contadas.

Notem que os pronomes acima não estão sendo utilizados de maneira pessoal, mas sim para caracterizar o que a série co-criada pela superestrela Taika Waititi e por Sterlin Harjo personificam em seu discurso sobre quatro adolescentes indígenas que se envolvem em travessuras na esperança de ganhar algum dinheiro e seguirem o sonho nativo-americano de mudarem de vida na grande Califórnia. Pode parecer que estou dramatizando a história simples de estudo de personagem em Reservation Dogs, sobre garotos e garotas delinquentes crescendo em uma reserva indígena da zona rural de Oklahoma, mas a equipe criativa de descendência indígena (não só americana) buscam contar uma história moderna, de novas gerações de nativos como eles.

Utilizando a linguagem de comédia situacional com várias nuances e camadas dramáticas de subtexto racial, os criadores demonstram uma perspectiva autêntica da experiência nativo-americana atual, e não só do genocídio ocorrido há várias décadas – seus descendentes estão aqui e suas histórias são diferentes, ainda que extremamente associadas ao passado. E aí está o poder da representação quando bem feito, como citei no início do texto. Ao colocar a história de trauma e despojo cultural causada por décadas de extermínio, exclusão e realocação em áreas pobres (daí o título da série) pelas lentes de uma juventude em contradição entre costumes indígenas e a criação num mundo capitalista, a obra se solidifica como uma bela representação da experiência desta minoria, tanto para o público-alvo retratado sem os típicos estereótipos hollywoodianos quanto para uma audiência (como eu) que desconhecem sua trajetória contemporânea.

Nossos protagonistas desajustados usam camisas do Wu-tang Clan, têm pôsteres de filmes do Tarantino em seus quartos e conversam sobre cultura-pop, enquanto também equilibram suas tradições familiares indígenas como caçar, falar de espíritos e um sentimento de comunidade que permeiam cada decisão e conflito dos personagens. Em uma cultura destruída aos montes, seja pelo assassinato ou pelo racismo estrutural, o individualismo ou a mudança é sempre evidenciado como um defeito.

Daí entra o ótimo desenvolvimento dramático dos personagens (todos ganham ótimos episódios focados individualmente), em torno de deixarem a vida marginal e os campos abertos sucateados para buscarem uma vida melhor, ao mesmo tempo que abandonam seus familiares, sua comunidade e o próprio grupo. Tudo isso é sempre bem pontuado pelo trauma da perda que acompanha todos os personagens, em um surpreendente estudo de luto à medida que a série avança.

No entanto, o aspecto mais legal de Reservation Dogs está no humor que harmoniza todo esse drama. Qual foi a última vez que você viu uma obra sobre nativos-americanos que não os abordasse de maneira sombria e historicamente trágica? Bem, eu nunca tinha visto. Ainda que a série nunca negue (e de maneira bem sutil evidencia vários problemas sociais enfrentados pela minoria), a comédia ganha o fronte da narrativa em uma inovadora forma de contar a verdade desses descendentes para além de caricaturas e estereótipos.

O típico humor satírico de Taika Waititi é evidente em várias piadas sobre a percepção da “gente branca” sobre o mundo indígena – um capítulo em especial trata de um personagem que tem uma tatuagem da bandeira da Confederação com uma ironia maravilhosa -, assim como os nativos veem vários aspectos da cultura americana com muito humor e boas doses de cinismo. Os criadores também tiram sarro de problemas causados pela marginalização da sua minoria (sempre com um subtexto crítico), como no ótimo episódio sobre atendimento hospitalar ou nas várias subtramas sobre a pobreza das Reservas Indígenas.

Contudo, os melhores momentos cômicos da obra estão nas piadas com a própria cultura nativa – rir de si mesmo é sempre revigorante! -, em vários capítulos que dialogam entre o novo (os protagonistas) e o velho (anciões, tios e um policial tradicional) em aventuras típicas de coming of age que fazem um tratamento humorístico tanto pela tradição e os costumes vistos pelo olhar cínico dos jovens quanto pela divertida reação dos personagens mais velhos – há também uma variedade fantástica de figuras inesquecíveis, desde gêmeos rappers até um velhote maconheiro. A série fica ainda mais divertida quando utiliza-se das raízes místicas e supersticiosas da cultura nativa para fazer comédia, incluindo vários momentos semi-surrealistas de espíritos aparecendo na obra, com louvor especial para um espírito-guia que sempre tosse ou arranha a voz quando faz o grito de guerra indígena. Dessa forma, entre o trauma histórico, o drama coming of age da minoria e a marginalização cultural, com a comédia satírica e o humor leve rindo de si mesmo, Reservation Dogs é a definição de uma autêntica representação.

Reservation Dogs – 1ª Temporada (EUA, 09 de agosto de 2021 a 20 de setembro de 2021)
Criação: Sterlin Harjo, Taika Waititi
Direção: Sydney Freeland, Sterlin Harjo
Roteiro: Sterlin Harjo, Taika Waititi, Bobby Wilson
Elenco: Devery Jacobs, D’Pharaoh Woon-A-Tai, Lane Factor, Paulina Alexis, Sarah Podemski, Wes Studi, Bill Burr, Garrett Hedlund, Zahn McClarnon, Dallas Goldtooth, Gary Farmer
Duração: 200 min. (08 episódios)

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