Crítica | Resgate (2020)

Fomos atacados pelos Goonies do inferno.
– Rake, Tyler.

Resgate é um filme que já foi feito diversas vezes ao longo das décadas. Mesmo com violência extrema, que inclui até pancadaria contra crianças – ou Goonies do inferno, na única frase inspirada do longa – tudo é seguro e 100% familiar, sem riscos e feito para quem somente quer quase duas horas (precisava dessa duração toda?) de pancadaria, tiro e bomba com Chris Hemsworth como Tyler Rake, um mercenário invencível, mas de bom coração, que entra em uma missão para salvar o filho de um criminoso em Daca, capital de Bangladesh, que obviamente dá muito errado até dar certo.

Baseado na HQ Ciudad e com roteiro de Joe Russo, mais conhecido como 50% dos Irmãos Russo, responsáveis por uma fatia de alguns bilhões de dólares do Universo Cinematográfico Marvel, o longa não tem história alguma, apenas uma premissa, mais ou menos como todos os filmes da franquia Velozes e Furiosos depois do primeiro e, em termos estilísticos, tenta emular o tipo de ação de videogame de filmes como Operação Invasão, mas sem que Sam Hargrave, seu diretor (estreando em longas), saiba fazer mais do que mudar os pontos de vista de primeira para terceira pessoa ou escolher entre câmera (razoavelmente) parada e (completamente) tremida.

Quando o longa dá uma ou duas daquelas tradicionais freadas para tentar criar uma conexão entre Tyler e o menino Ovi Mahajan (Rudhraksh Jaiswal) ou estabelecer algum tipo de passado mais relevante para o protagonista, o que inclui a participação especial de David Harbour que cai de paraquedas na trama, percebe-se imediatamente que teria sido melhor se tudo fosse mesmo uma pancadaria sem fim, sem respiro e sem diálogos que não fossem exclusivamente ligados a ela. Afinal, ver as demonstrações de amizade e o chororô que a meia dúzia de conversas que Russo escreveu para não ficar com vergonha de entregar algo com apenas duas páginas a seu elenco dói mais do que o tiro que Tyler toma logo no começo da projeção, especialmente porque nada – nadinha – é acrescentado à narrativa que não seja mais minutos para adiar o desfecho.

A ação de Resgate é tão epiléptica que nem mesmo o charme de Hemsworth é aproveitado. Aliás, teria sido mais barato trocar por um ator completamente desconhecido, pois não faz diferença ser Hemsworth, Stallone ou Hanks aqui, a não ser, claro, a “habilidade especial” de ter um nome atraente no marketing do filme. É tudo tão enlouquecido e tão igual que essa bobagem não enriquece nem mesmo a carreira do ator como herói de ação como Busca Implacável enriqueceu a de Liam Neeson, pois entre sacolejos de câmera, trocas de armas, batidas de carro, atropelamentos, explosões e mortes que vão desde o arremesso de crianças do telhado até ancinho nos olhos, saber o nome do ator responsável por toda a destruição é um detalhe irrelevante.

Ah, sim, tenho plena consciência de que vai ter gente revirando os olhos para os comentários de crítico chato que espera que um filme de pancadaria não tenha tanta pancadaria assim e coisas do gênero. Bem, já de antemão respondo cada revirada de olhos com um bocejo e apontando para uma lista interminável de filmes nessa mesma linha que conseguem – vejam só a audácia! – também oferecer mais do que só “tiro, porrada e bomba” a começar inclusive do primeiro Busca Implacável. É só procurar.

Mas, quem procura acha e, nessa linha, há pelo menos um aspecto realmente positivo em Resgate, que é o mínimo que se poderia esperar de Hargrave considerando sua profissão como dublê e coordenador de dublês antes de se aventurar na cadeira de diretor. Não há nada pior em filmes de ação desenfreada do que aquela sensação de indolência e lentidão por parte do elenco de dublês, muita vezes causada por uma coreografia pobre e mal executada. Aqui, felizmente, não há absolutamente nada disso. Muito ao contrário, o filme é uma festa insana de sequências longe de realistas, mas muito bem trabalhadas especialmente no quesito lutas, como o momento videogame no conjunto habitacional e o um-a-um de Tyler contra Saju (Randeep Hooda) no meio da rua como os pontos altos. O espectador sente cada impacto, cada movimento, cada golpe e cada perfuração e são raros os filmes que conseguem esse feito.

Mas isso não salva Resgate de ser o que ele é: uma bobagem descartável e genérica que cansa muito rapidamente e não consegue justificar sua duração e nem muito menos a escalação de Chris Hemsworth, que costuma ser um bom ator, mas aqui não tem espaço algum. Teria sido muito melhor um filme dedicado aos Goonies do inferno, esse sim de enorme potencial criativo…

Resgate (Extraction, EUA – 24 de abril de 2020)
Direção: Sam Hargrave
Roteiro: Joe Russo (baseado na HQ de Ande Parks, Joe Russo e Fernando León González)
Elenco: Chris Hemsworth, Rudhraksh Jaiswal, Randeep Hooda, Golshifteh Farahani, Pankaj Tripathi, Priyanshu Painyuli, David Harbour, Adam Bessa, Shataf Figar, Suraj Rikame, Neha Mahajan, Sam Hargrave
Duração: 116 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.