Crítica | Retrato de uma Jovem em Chamas

A experiência que a diretora Céline Sciamma nos propõe em Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) é a de provar um momento específico da vida em seu maior número de camadas, passando por atos, palavras, sentimentos, até chegar à imagem. Estamos na França, em 1760 ou 70. Marianne (Noémie Merlant) é contratada para pintar o retrato de casamento da jovem Héloïse (Adèle Haenel), que acabou de sair do convento e que não está feliz com a ideia do noivado, por isso se recusa a posar para uma pintura. Com um pequeno mistério familiar estabelecido já nas primeiras cenas e o desafio de Marianne, que deve pintar um retrato “de memória”, temos estabelecida a base do longa. Primeiro, a resistência de se eternizar pela imagem, produto de cicatrizes emocionais que descobriremos com o passar do tempo; depois, a mudança que a convivência e a própria imagem terão aos olhos das duas mulheres envolvidas.

Numa medida simplesmente de representação e sentimentos envoltos em um processo criativo frente à imagem de uma mulher, este longa francês me trouxe à memória O Estranho Caso de Angélica (2010) com a diferença de que para Sciamma, que escreve e dirige a presente obra, a carga sentimental e mesmo a experiência ocorre de fato e paralelamente à produção do retrato. O filme tem uma primeira camada simples, mostrando a história de uma pintura e a mudança no relacionamento entre artista e modelo ao longo do tempo, mas para além dessa simplicidade há o desafio de convenções sociais, a vivência de um amor proibido e o produto final dessa relação impossível, que gera também os seus próprios frutos, alguns deles expostos em paredes ou imortalizados em cores e formas que por si só valem mais do que mil palavras — chegando a abrir as portas para a história do filme, por sinal.

Merlant e Haenel possuem uma conexão belíssima em tela, fazendo com que o público também as vejam como produtos artísticos, modelos, representação de vidas que se diferenciam pela trajetória; que têm personalidades diferenciadas pelos figurinos (a mais introspectiva vestido azul e verde, a mais expansiva vestido vermelho) e que trazem novas formas de ver o mundo, uma para outra, parte da relação que termina de modo tocante, como uma daquelas histórias de amor a que estamos acostumados — com uma separação a contragosto — mas com um contexto e um peso dramático imensos. O trecho do Verão de Vivaldi (segundo concerto da série As Quatro Estações) delineia esse sentimento no fim, puxando um dos ganchos mais sutis e belos do longa, apresentado de modo descompromissado e que termina por valorizar ainda mais a trajetória das duas mulheres, não apenas pelo que se vê, mas também pelo que se ouve. A música, aqui, também é imagem, pois suscita a memória.

Claire Mathon (Um Estranho no Lago, Atlantique) procura manter uma base de iluminação e cores que o tempo inteiro nos sugerem poses para um quadro, mesmo quando não imaginamos isso à primeira vista, já que o filme não assume a postura de tableau vivant, mas nos leva a entender isso simbolicamente. A direção cuida perfeitamente dessa dinâmica, medindo com muito escrúpulo o que fazer a seguir, dialogando cuidadosamente com a representação imagética dos personagens (os quadros dentro do quadro), de modo que eles não estão lá apenas para constar, para didaticamente provar que Marianne é uma boa pintora, mas também para contar uma história.

Tudo converge para a tela e nela se imortaliza, como proposto, seja pelas soberbas atuações ou pelas belas composições que vemos. Duas cenas nesse processo merecem destaque pelo seu imenso rigor plástico e pelo que transmite para o espectador: a cena em que as três mulheres da casa estão na mesa, uma bordando, uma cozinhando e outra bebendo vinho; e a cena do aborto, que quase me fez chorar por ter aquele bebê ali do lado da jovem, pegando em seu dado… O retrato final da película pode ser o literal que vemos no filme, ou a própria película, que fala sobre uma artista e sua modelo, ardentes de desejo. Um filme sobre mulheres, sobre corpo, sobre memória, imagem, gozo e felicidade. Um recorte erótico e sentimental da vida que mostra não só uma jovem, mas também um público em chamas.

Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu) — França, 2019
Direção: Céline Sciamma
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami, Valeria Golino, Christel Baras, Armande Boulanger, Guy Delamarche, Clément Bouyssou
Duração: 121 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.