Crítica | Retrato do Amor (2019)

“Depois dessa canção, o garoto e a garota se apaixonam.”

Grande parte dos acontecimentos de Retrato do Amor são compostos por uma indefinição, sem trazer consigo uma noção concreta de quais são os próximos passos a serem tomados por seus protagonistas. Com isso, quiçá a existência de um pronome indefinido antecedendo o nome da obra conseguisse compreender melhor, mesmo em terrenos genéricos, a proposta do longa-metragem do cineasta Ritesh Batra. Na premissa, um homem se encanta por uma mulher após tirar uma fotografia sua, e então o acaso se unirá à necessidade, para que ambos possam passar mais tempo juntos. Ao contrário de uma objetividade em retratar o amor – uma universalidade nesse sentido -, o imaginário título sugeriria o romance em questão como sendo apenas mais uma entre várias possibilidades para o amar. E, por causa do que a obra apresenta pacientemente por toda a sua duração, essa certamente seria uma visão coerente à proposta, que preza tanto o quão ordinários são os momentos vividos pelo casal protagonista quanto o quão também são especiais.

De uma certa maneira, o roteiro que Batra escreve mistura acontecimentos acidentais com uma construção mais insistente de sentimento. O segundo e terceiro ato são movimentados por repetições de encontros supostamente banais, mas que sempre ressignificam o envolvimento entre os protagonistas. Para ser mais claro, Retrato do Amor não se pauta nos clássicos amores à primeira vista – apesar de existir uma certa mística no primeiro encontro entre os seus personagens centrais, mesmo que mesclado a um ambiente comum. Depois do encontro de Rafi (Nawazuddin Siddiqui) com a garota misteriosa, que mal sabe o nome, o personagem toma conhecimento que sua avó ameaçou parar de tomar os seus remédios, para que o seu neto aceite se casar com alguém que ela arranjar. Portanto, o homem termina inventando um relacionamento com aquele seu encontro anterior, até mesmo um nome – Noorie, que escuta em uma canção -, procurando impedir a sua avó de tomar ações equivocadas. Porém, como a senhora quer se encontrar com a pretendente, Rafi precisaria ter alguém para apresentar, o que acontece após ele reconhecer a garota em um cartaz e ir ao seu encontro para propor que encene ser sua namorada. Boa parte das cenas posteriores, consequentemente, acontecerão também em meio a ocasiões pouco especiais, como um cinema que tem ratos e uma chuva que os convida a se abrigar em uma lanchonete.

Ao mesmo tempo, Rafi e Miloni (Sanya Malhotra), nome verdadeiro de Noorie, sustentam enormes diferenças em seus cotidianos. A maior delas comporta o clássico pretexto de amantes em posições sociais díspares. Enquanto Rafi é pobre, morando e dormindo junto com várias outras pessoas, Miloni tem seu próprio quarto. A contextualização que Ritesh promove é precisa, especialmente por evitar colocar os personagens para discutirem acerca disso. Os seus arcos acontecem individualmente, ao passo que os encontros servem a outro propósito. Com poucos diálogos, cenas dos dois juntos são preenchidas por uma monotonia, realçada para sustentar um desenvolvimento mais intrínseco que externo. Miloni responde a perguntas de Rafi com sentenças curtas, sem dar muita margem para conversa fiada. A própria trilha-sonora acompanha este caminhar, muito melódica e serena, rejeitando exageros. Há determinadas tramas menores, contudo, que não são verdadeiramente bem exploradas, como a relacionado aos estudos de Miloni e as tentativas da garota em se aproximar de uma ideia terrena de vida, morando em uma vila e plantando. As conversas com a empregada que trabalha para os seus pais são estranhas, pois saem um pouco do ar casual do resto do longa para entrar em áreas mais artificiais.

Assim sendo, Retrato do Amor é um longa-metragem que apresenta o amor sendo construído, minuciosamente, não necessariamente sendo consumado. Mas não um amor composto por exageros, grandes sorrisos, constatações claras de que o coração está acelerando a cada cena que se passa. Na verdade, pode-se apontar que o que acontece entre os protagonistas remete um pouco à noção de casamento arranjado, onde as partes primeiramente se juntam para depois, possivelmente, se apaixonarem. Em contrapartida a buscar responder questões como se esse relacionamento ganhará corpo, a obra se encerra. No caso, a poesia da cena conclusiva comprova o cuidado dramático de Batra, mesmo em um romance tão minimalista, com poucas expressões. Porém, o tom é mais que esperançoso, mesmo em meio aos impasses que certamente irão crescer mediante o fim da canção.

Retrato do Amor (फोटोग्राफ) – Índia/EUA, 2019
Direção: Ritesh Batra
Roteiro: Ritesh Batra
Elenco: Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra, Akash Sinha, Abdul Quadir Amin, Sachin Khedekar
Duração: 111 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.