Crítica | Rick and Morty – 1ª Temporada

Reconheço que provavelmente sou o único ser vivo na face da Terra que não achou Rick and Morty essa maravilha toda, mas isso acontece. Talvez tenha sido a expectativa que foi se amontoando em minha mente na medida em que só ouvia elogios sobre a série animada de Justin Roiland e Dan Harmon e, ao mesmo tempo, atrasava a conferência do resultado final. No entanto, olhando em retrospecto, talvez seja apenas o olhar mais distanciado mesmo que tenha resultado em uma análise mais fria de uma série que, convenhamos, diverte em vários momentos, mas não tem nada de realmente muito diferente do que é oferecido aos borbotões por aí. Ah, vale um adendo: não assisti ainda as demais temporadas, pelo que a análise realmente fica circunscrita ao material apenas da 1ª.

Sem dúvida interessante em sua premissa meticulosamente tresloucada que coloca um avô e um neto, um pseudo-Doc Brown, Rick, pareado com um pseudo-Marty McFly, Morty (ambos com trabalho de voz de Roiland), em aventuras multidimensionais, a série começa não muito mais do que como uma espécie de “Reunião Anual da Maior Quantidade Possível de Referências à Cultura Pop”, graduando, felizmente, para algo mais significativo do que isso, com identidade própria, sem dúvida, mas, mesmo assim, ao longo dos 11 episódios que formam a 1ª temporada, um esquizofrênico mergulho em momentos nerds para nerds apontarem para a tela e rirem do quão espertos eles são por identificarem este ou aquele momento. E, antes que me venham com pedradas, eu sou muito nerd. Nerd velho e certamente rabugento, mas nerd de toda forma, então não afirmo isso de forma pejorativa, mas, apenas, aponto que a temporada quase inteira é baseada nessa bengala narrativa, algo que também acontece com a recente Final Space, mas só que lá com uma pegada bem mais coesa.

E quando usei o advérbio de modo “meticulosamente” acima quis dizer exatamente isso. Os roteiros da temporada são cuidadosamente elaborados para que todos os “botões” da nerdice sejam devidamente apertados, que todos as alavancas geek sejam puxadas e assim por diante. Isso vale inclusive para a personalidade doentia de Rick, um cientista maluco, bêbado, drogado, politicamente incorreto e sem nenhuma empatia por qualquer ser vivo, talvez com exceção dele próprio. Seu neto Morty é, para ele, um mero sidekick, uma (in)conveniência que mais atrapalha do que qualquer outra coisa. Lógico que, ao longo da temporada, há uma aproximação maior dos dois e Morty mostra-se mais do que um adolescente bobalhão, funcionando como a proverbial bússola moral ou o mais próximo disso que a pegada “transgressora” da série permite. Mas a relação não vai muito além disso, ainda que a temporada tente colocar em pauta, de maneira débil, a relação familiar, especialmente entre gerações bem diferentes, mas invertendo a lógica do que se esperar de cada uma delas, já que, aqui, o avô é que é “modernoso” e o neto mais, digamos, tradicional.

Ao longo dos quatro primeiros episódios (reparem que são apenas 11…), a temporada fica exclusivamente na estrutura de referências à cultura pop e não consegue desassociar-se disso. Faz sentido, pois, aqui, os showrunners parecem estar sentindo o terreno, testando as águas, mas é um trio inicial que arrisca muito ao não entregar de cara o que a série tem de diferente além do vovô babaca. Mas o problema começa a ser corrigido já no quinto episódio, com a apresentação definitiva da multitude de realidades alternativas e, no quinto, com a introdução dos Meeseeks, é que a temporada realmente mostra a que veio. As criaturas que tem como função apenas servir e morrer resultam não apenas em um episódio muito divertido, mas, também e principalmente, como uma reflexão profunda e crítica severa à raça humana. Servir e morrer. Escravidão “de bom grado” cujo prêmio é a morte. Se visto separadamente, esse momento na série poderia, sozinho, ganhar todos os prêmios possíveis, pois é aí que Roiland e Harmon mostram para que criaram a dupla Rick e Morty.

Mas o melhor é que os perturbadores Meeseeks são seguidos do episódio que nos apresenta aos Cronenbergs (esta aí uma referência espetacular), monstruosidades inadvertidamente criadas por Rick ao criar uma poção do amor para Morty. E, se a multidimensionalidade era apenas mais um artifício narrativo sem maiores consequências, é aqui que a dupla de showrunners mostra que não, que ela faz parte integral do show quando eles fazem Rick e Morty, em questão de segundos e sem pensar duas vezes, deixar a Terra de sua própria dimensão literalmente tornar-se um deserto pós-apocalíptico e “adotar” uma outra Terra igualzinha (só que onde os dois acabaram de morrer de maneira bem violenta) como lar. Se, no capítulo anterior, Roiland e Harmon tiveram minha curiosidade, aqui eles ganharam minha atenção (também sei fazer referências!).

O que se segue a esses dois excelentes episódios não consegue jamais chegar ao mesmo nível, mas certamente mantém a temporada em um patamar de qualidade muito superior aos quatro primeiros capítulos, o que é suficiente para tornar a proposta muito atraente e inteligente que vai além das bobagens referenciais iniciais e que abrem de vez o caminho para um crescendo de loucura que, se não chega a ser algo tão fora da curva como muitos afirmam, certamente colocam a série na direção certa para isso acontecer em temporadas futuras.

O design dos personagens e a animação da série acompanham o estilo moderno de obras semelhantes. Traços simples, mas muito expressivos, uma vivacidade frenética nas sequências de ação e uma variedade impressionante de criaturas exóticas que populam eficientemente a temporada, jamais dando qualquer chance para o espectador piscar o olho sem perder alguma coisa. Rick é particularmente interessante, com um visual doentio e uma voz propositalmente irritante e rouca, mas não da maneira sexy que vozes roucas costumam ser. É como ver um sujeito que acabou de sair do Asilo Arkham depois de terapias particularmente agressivas e alguns meses ao lado do Coringa fazendo uma estranha dupla com seu neto medroso. É um negócio quase abusivo, mas que funciona bem.

Rick and Morty provavelmente recebeu mais aclamação do que realmente merecia, mas a 1ª temporada, apesar de começar de maneira burocrática e pouco inspirada, apresenta pontos altos altíssimos e, depois, normaliza-se como algo realmente acima da média, mas ainda precisando se provar. A reimaginação enlouquecida de Doc Brown e Marty McFly tem futuro, sem dúvida.

Rick and Morty – 1ª Temporada (EUA, 02 de dezembro de 2013 a 14 de abril de 2014)
Criação: Justin Roiland, Dan Harmon
Direção: Justin Roiland, John Rice, Jeff Myers, Bryan Newton, Stephen Sandoval
Roteiro: Dan Harmon, Justin Roiland, Ryan Ridley, Eric Acosta, Wade Randolph, Tom Kauffman, Mike McMahan
Elenco: Justin Roiland, Chris Parnell, Spencer Grammer, Sarah Chalke, Dana Carvey, John Oliver, David Cross, Claudia Black, Richard Christy, Virginia Hey, Alfred Molina, Maurice LaMarche, Aislinn Paul, Cassie Steele
Duração: 242 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.