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Crítica | Rick and Morty – 4ª Temporada

por Kevin Rick
2086 views (a partir de agosto de 2020)

É curioso como cada temporada de Rick and Morty tenta criar uma estrutura narrativa diferente. A primeira temporada é basicamente um monte de referências misturadas com o choque do humor irreverente, ainda que contenha alguns traços mais profundos de desenvolvimento dos personagens. A segunda temporada, de longe a melhor da série, progride o arco dramático dos personagens com a continuidade narrativa, mais dinâmicas e conflitos familiares, e bons elementos de depressão, existencialismo e estudo de personagem, especialmente do impacto narcisista de Rick. Infelizmente, na 3ª temporada a equipe criativa foi meio que perdendo o rumo da história, pois, mesmo mantendo um pouco de continuidade, o drama deixou de ter consequências ou aprofundamento dos personagens; tudo é caótico e violento, então… cadê a graça? Tanto o drama bem desenvolvido anteriormente quanto o humor de contrastes entre Rick e Morty deixam de existir.

Chegamos, então, na 4ª temporada, no qual a série se estabelece como uma típica sitcom animada ordinária. Como um leitor acertadamente pontuou em uma crítica anterior, o quarto ano da animação assume mais o caráter episódico na estrutura solta das histórias, entregando um estilo narrativo mais básico, até quase antológico eu diria, considerando que mal temos seguimento de tramas. Se a temporada anterior já tinha isso em menor medida, principalmente na padronização do humor sem consequências, me deixando extremamente decepcionado pelo desenvolvimento oposto à 2ª temporada, o quarto ano pelos menos assume e dá uma direção ao show, ainda que seja outro desapontamento.

Agora eu vejo a história e o humor como base da aventura, e não tanto dos personagens. Veja, antes as aventuras eram o meio para expressar e criar conflitos para os personagens, mas agora, dado o estilo mais autocontido, elas se tornam a experiência principal. Por exemplo, um episódio sobre dragões com tesão é sobre… dragões com tesão. Pouco existe a construção, seja de evolução ou caracterização, dos personagens nessas histórias, e então a animação toma a rota de Os SimpsonsSouth Park e afins, no qual não há desenvolvimento de personagem, mas apenas as mesmas personalidades em diferentes histórias fechadas.

E o que delineia shows como o que citei é a inconsistência, que já existia na série, mas torna-se praticamente uma parte da experiência. É como estar no automático, na verdade. O espectador consume um episódio sem implicações, acostuma-se com o conceito habitual de cada personagem, e a série acaba ganhando essa carona mais básica em que a audiência pesca bons capítulos dependendo da aventura criada, e paramos de pensar na temporada ou na obra como um todo, ou até mesmo deixamos de nos importar com o arco de personagens, pois são inexistentes. É triste cara, verdadeiramente decepcionante, afinal, este não era o encadeamento dado anteriormente, o que passa o sentimento criativo de que a série se conformou e ficou preguiçosa.

Bem, é o que temos servido por Dan Harmon e Justin Roiland, mais do que felizes em capitalizar por sei lá quantas temporadas a animação terá ao longo dos anos, quem sabe décadas. A verdade é que nem todo mundo tem a coragem de Bojack Horseman. Mas, enfim, pensando na atual estrutura, há, como sempre, o que se divertir e passar o tempo. O caráter referencial da primeira temporada retorna com mais força, entregando bons episódios como Edge of Tomorty, uma ótima paródia (a melhor saída para elevar esses tipos de história além da referência) de No Limite do Amanhãe outros fraquinhos como One Crew over the Crewcoo’s Morty, uma repetição enfadonha da mesma piada – vejo a série sofrendo bastante nisso, no qual determinados episódios ou até mesmo piadas recorrentes (como a insegurança de Beth com o abandono de Rick em Childrick of Morty), tornam-se cansativas, pois os roteiristas ficam meio presos ao “humor da ideia” do que algo mais bem-composto narrativamente.

Entre o mar de mediocridade e tramas genéricas, temos o interessantíssimo Never Ricking Morty, a divertida história de metalinguagem no trem com pessoas que odeiam Rick, um dos poucos capítulos que vejo o caráter episódico funcionando, pois existe uma tentativa de criar algo original, ou pelo menos com mais personalidade no estilo referencial. Além disso, temos o vislumbre do que a série verdadeiramente pode almejar com o excelente The Vact of Acid Episode, pois utiliza os complexos e a dinâmica de Rick e Morty como a piada, e a aventura como o meio de dialogar sobre isso, nos relembrando como o relacionamento tóxico e as consequências traumáticas são divertidas. Ainda que com alguns vislumbres de alta qualidade, entre os chatíssimos dragões voluptuosos, a maçante viagem no tempo das cobras, a padronização da personalidade dos personagens (Rick agora é um otário sem conflito interno, e o cinismo de Morty está cansativo), repetição de piadas, referências vazias, zero drama, etc, a animação sem receio se assume como um passatempo temporário. É divertidinho, confortável e esquecível, e a pior parte, é que, especialmente pensando no segundo ano, a série poderia ser mais, bem mais.

Rick and Morty – 4ª Temporada (EUA, 10 de novembro de 2019 a 31 de maio de 2020)
Criação: Justin Roiland, Dan Harmon
Direção: Jacob Hair, Anthony Chun, Bryan Newton, Erica Hayes, Kyounghee Lim
Roteiro: Dan Harmon, Justin Roiland, Jeff Loveness, James Siciliano, Caitie Delaney, Albro Lundy, Mike McMahan, Anne Lane, Michael Waldron
Elenco: Justin Roiland, Chris Parnell, Spencer Grammer, Sarah Chalke, Sherri Shepherd, Sam Neill, Kathleen Turner, Taika Waititi, Jeffrey Wright, Pamela Adlon, Elon Musk, Justin Theroux, Claudia Black, Matthew Broderick, Liam Cunningham, Keegan-Michael Key, Eddie Pepitone, Paul Giamatti, Susan Sarandon
Duração: 230 min. (10 episódios)

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