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Crítica | Rick and Morty – 5ª Temporada

por Kevin Rick
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  • Há leves spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Ao longo da quinta temporada, os roteiristas fazem várias piadas com a estrutura do show. Confesso que algumas são até divertidas, como quando Rick nega que um personagem estabeleça um backstory canônico, ou quando ele não quer ir à Cidadela com Morty, pois seria “retornar para o enredo principal”. Todavia, a piada está mesmo na equipe criativa da série, especialmente os criadores Justin Roiland e Dan Harmon, por não estabelecerem um contexto com o público. Será um show episódico e solto ou teremos continuidade narrativa? Não temos a menor ideia, e fazer humor com isso soa como uma maneira covarde do roteiro encobertar a falta de coerência da proposta.

E, vejam bem, não estou necessariamente ditando uma linearidade do encadeamento da temporada, com ligações certinhas a cada episódio. A qualidade estrutural da animação está justamente no caráter episódico das aventuras, mas quando está em correlação com um sentido dramático para a construção de personagens. Vou parecer disco arranhado, mas a 2ª Temporada é o melhor exemplo do que a animação pode oferecer, nos dando aventuras ordinárias com início, meio e fim, mas também mantendo um cânone, desde o arco dramático da família Smith, a temática da temporada em questão, até a finalidade do enredo principal, normalmente culminando em um clímax lógico e sugerido ao longo da narrativa geral – quem aí se lembra do emocionante final que Rick se entrega, para que sua família possa retornar à Terra?

Estou falando tudo isso, pois o último episódio da 5ª Temporada, Rickmurai Jack, é um desfecho que trabalha muito bem a dinâmica tóxica (e mitologia) entre Rick e Morty, insere o típico humor negro e irreverente da animação com camadas dramáticas para a dupla, além de brindar o público com ótimos twists cliffhangers que foram sugeridos há muito tempo com o melhor antagonista da série. Dessa forma, ele merecidamente recebe louvores como um dos melhores episódios em toda a série. Mas aí jaz minha pergunta e a base do meu argumento: isso foi contextualmente construído durante a temporada?

Eu diria que não. Pode ser feito a alegação de que o mote da temporada é o afastamento entre Rick e Morty com vários episódios destacando uma distância entre eles, mas, ainda que esse intuito pareça existir, tematicamente é muito superficial. O quinto ano, até o nono episódio, mantém a mesma estrutura episódica da temporada anterior, e até mais mal escrita, na minha opinião. Acabo retornando à mesma reclamação que fiz em críticas anteriores: inconsistência.

A temporada até começa entusiasmando o espectador com o hilário Mort Dinner Rick. Não sou lá muito fã da estranha dinâmica entre Rick e Nimbus no episódio – apesar de achar divertido a vulnerabilidade de Rick -, mas a trama de Nárnia com Morty tem um timing cômico fantástico entre as viagens temporais e o aspecto rotineiro, assim como o contraste entre o Morty cínico e selvagem com o oprimido. Os dois episódios seguintes, Mortyplicity A Rickconvenient Mort, também trabalham eficientemente seus conceitos com uma boa parcela de criatividade da aventura e no humor, especialmente a repetição bem pontuada das cópias da família Smith.

E então veio Rickdependence Spray, vulgo episódio do “espermatomonstro”. A única explicação que vejo para a existência desse capítulo é a de estufar a temporada. É um episódio que tem como base conceitual a masturbação, e, como normalmente acontece em Rick and Morty, utiliza a ficção científica para exagerar o conceito e fazer comédia com a reação dos personagens, aqui sendo a vergonha de Morty. Mas a execução narrativa é um absurdo infantil, cheio de piadas nojentas e inconfortáveis. O próprio humor é realmente vazio de imaginação (surpreendente até pensando nos piores episódios da série), dependendo da repetição de atos toscos com espermatozoides, incestos, e outras piadas típicas de besteiróis americanos.

O que se segue é um trinca de episódios bobinhos e preguiçosos, característicos de uma animação preocupada com quantidade. Temos Amortycan Grickfitti que é basicamente uma referência à Hellraiser, repetindo as piadas cansativas de que Jerry é um perdedor, enquanto os episódios 6 (sobre os perus e o presidente) e 7 (com a trama de megazords), nem parecem roteiros da série, pensando na estranheza dos personagens. Principalmente Rick, que vira um idiota paspalhão na dupla de capítulos. É como se os personagens perdessem a essência, caracterização, personalidade e traços comuns para apenas exercerem qualquer tipo de papel que a aventura demanda.

Felizmente, os dois episódios que antecedem o finale conseguem retificar a série comicamente, e até dramaticamente. Um deles tem como mote um drama íntimo de Rick com o Homem-Passáro, que nos fazem relembrar da curiosa complexidade de Rick, enquanto o penúltimo capítulo manuseia a sempre interessante dinâmica de Rick e Morty em uma história que separa as aventuras, mas dedica-se em retratar a desequilibrada relação entre mesquinhez e empatia dos protagonistas. Até ali vinha sendo uma temporada regular, quase ruim pensando que quatro episódios vão do medíocre ao tenebroso. E então temos o já citado fantástico Rickmurai Jack.

Como eu expus anteriormente, o desfecho da temporada aprofunda-se na mitologia e no cânone da animação, oferecendo uma experiência digna do que a série pode realmente almejar: criatividade conceitual, comédia absurda e emocionante, desenvolvimento de personagem e uma trama com substância. É uma pena que o episódio venha com essa nota de traição ao pensarmos no percurso até o final. Qual é a ideia aqui? Criar toda uma temporada inconsistente, sem implicações ou enredo principal, para então revirar o contexto na finale como gancho para o público continuar vendo a série? Realmente me parece covardia dos criadores não estabelecerem uma abordagem para a audiência. Fica aquele desfecho que te deixa feliz, mas receoso de que o próximo ano de Rick and Morty faça a mesma trapaça.

Rick and Morty – 5ª Temporada (EUA, 20 de junho de 2021 a 05 de setembro de 2021)
Criação: Justin Roiland, Dan Harmon
Direção: Jacob Hair, Anthony Chun, Bryan Newton, Erica Hayes, Kyounghee Lim
Roteiro: Dan Harmon, Justin Roiland, Jeff Loveness, James Siciliano, Caitie Delaney, Albro Lundy, Mike McMahan, Anne Lane, Michael Waldron
Elenco: Justin Roiland, Chris Parnell, Spencer Grammer, Sarah Chalke, Sherri Shepherd, Sam Neill, Kathleen Turner, Taika Waititi, Jeffrey Wright, Pamela Adlon, Elon Musk, Justin Theroux, Claudia Black, Matthew Broderick, Liam Cunningham, Keegan-Michael Key, Eddie Pepitone, Paul Giamatti, Susan Sarandon
Duração: 230 min. (10 episódios)

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