Ricky Gervais sempre foi um comediante que operou melhor quando parecia desconfortável dentro do próprio sucesso ou, no mínimo, causando desconforto naqueles à sua volta no mundo das celebridades. Havia algo genuinamente corrosivo em seus primeiros especiais: a sensação de que ele estava zombando de estruturas de poder, convenções sociais e hipocrisias culturais a partir de um lugar quase marginal, mesmo quando já era famoso. Mortalidade surge, no entanto, como um retrato bastante claro de um artista plenamente consciente de sua posição, de seu público e, principalmente, de sua fórmula. O novo especial não é ruim, tampouco desprovido de risadas, mas carrega um ar de repetição e de cansaço que se torna impossível de ignorar.
Meu colega Ritter Fan teve o prazer de assistir ao especial ao vivo no Hollywood Bowl – quem pode, pode né? – e, apesar dele não gostar de stand-up como eu, concordo com a opinião geral dele sobre o material de Gervais aqui, ainda que, por seus comentários, tenha ficado a impressão de que o produto final na Netflix é um pouco mais brando. Se em SuperNatureza o problema central estava na necessidade excessiva de explicar a própria ironia e de didatizar o funcionamento da comédia em tempos de cancelamento, Mortalidade tenta corrigir esse vício com um movimento curioso: Gervais fala menos sobre ser cancelado, mas continua orbitando exatamente os mesmos alvos. A diferença é de tom, não de essência. O comediante parece mais cansado, mais autoconsciente e, paradoxalmente, mais confortável. Ele sabe que o público está ali para ouvi-lo dizer certas coisas e ele as diz com precisão cômica, ainda que seja previsível.
O tema da mortalidade, que dá título ao especial, funciona mais como eixo conceitual do que como investigação profunda. Gervais fala sobre envelhecimento e morte com o sarcasmo habitual, mas seguindo uma linha mais de rabugice do que de existencialismo, raramente transformando essas reflexões em algo realmente novo dentro de seu repertório, lembrando um pouco o que vemos em After Life, só que sem o drama, claro. O que muda é a moldura emocional: há menos agressividade performática e mais um cinismo resignado, como se o comediante estivesse rindo não apenas do absurdo do mundo, mas também da própria insistência em continuar comentando sobre ele. Quando as piadas funcionam melhor, é justamente nesses momentos de autodepreciação, em que ele reconhece sua riqueza, sua idade e o fato de que sua indignação já não nasce de urgência, mas de hábito.
Ainda assim, Mortalidade sofre do mesmo mal que assombra os últimos trabalhos de Gervais: a sensação de que ele está batendo em portas já abertas. O humor contra a moral performática da internet, contra o cancelamento e contra a indignação automática continua rendendo gargalhadas, mas carece de risco real. Não há, aqui, a impressão de que algo pode dar errado e isso, para um comediante que sempre se apoiou no desconforto, é um problema estrutural. O choque existe, mas é domesticado, como se o politicamente incorreto dele já fosse esperado; o tabu aparece, mas vem acompanhado de uma rede de segurança retórica que impede qualquer abalo mais profundo ou uma risada mais alta.
Por outro lado, é preciso reconhecer que Gervais ainda domina como poucos o ritmo de um palco. Seu timing segue impecável, sua leitura da plateia é afiada e sua capacidade de construir longas digressões que culminam em punch-lines eficazes permanece intacta. Há piadas em Mortalidade que funcionam não pelo conteúdo em si, mas pela maneira como são entregues, pela pausa calculada, pela risadinha de Gervais ou pelo choque de algo irreverente. Nesse aspecto, o especial continua sendo uma aula de delivery, mesmo quando o texto não surpreende.
O que talvez mais incomode em Mortalidade não é o que Gervais diz, mas o que ele deixou de tentar dizer. Há um sentimento de acomodação criativa, como se o comediante tivesse aceitado que esse personagem — o provocador rico, cínico e irritado com a estupidez alheia — é suficiente para sustentar sua carreira até o fim. E talvez seja mesmo. O público responde, a plataforma entrega visibilidade, e o riso acontece. Mas é difícil não pensar que o Ricky Gervais que um dia já foi mais criativo com as cutucadas à vaidade artística e ao moralismo social com frescor e inventividade estaria hoje impaciente com esse looping confortável. As péssimas piadas sobre os bastidores do Globo de Ouro, em que ele se elogia bastante, representam bem essa abordagem cansada de “greatest hits” do Gervais, que, talvez, tenha ficado maior do que o seu próprio material.
Mortalidade é, portanto, um especial sólido, competente e ocasionalmente muito engraçado, mas que confirma uma estagnação criativa que já vinha se desenhando. Ele é melhor do que SuperNatureza em termos de fluidez e menos obcecado com justificativas, mas ainda refém de uma fórmula que se repete com pequenas variações e bem menos engraçado ou criativo com o material cômico. Há lampejos do grande comediante que Gervais foi e ainda pode ser, mas eles surgem mais como lembrança. No fim das contas, talvez o título seja involuntariamente revelador: não apenas sobre a morte biológica, mas sobre a mortalidade de um certo impulso criativo que, aos poucos, vai se esgotando e se repetindo.
Ricky Gervais: Mortalidade (Ricky Gervais: Mortality) | EUA, 2025
Roteiro e performance: Ricky Gervais
Duração: 59 min.
