Crítica | Ricos e Estranhos

PLANO CRÍTICO RICOS E ESTRANHOS

Por mais nonsense que Ricos e Estranhos seja, há um delicioso tom de anarquia na história que diz muito sobre Alfred Hitchcock nessa fase da carreira, principalmente a partir deste filme, que dá o pontapé para a crise de sua relação com a British International Pictures. O longa não foi um sucesso, recebeu críticas mornas e negativas à época, mas era bem lembrado pelo diretor, que junto de sua esposa, fez a pesquisa in loco para os espaços iniciais da viagem empreendida pelo casal protagonista. Assim como Fred e Emily, Alfred e Alma eram um casal inocente em Paris, com um misto de medo, fascinação e incredulidade diante daquilo que viam.

Um dos pontos que mais chamam a atenção em Ricos e Estranhos são as locações. É possível se desprender da história um pouquinho e apreciar os planos em Paris e Marselha (França) e Porto Said (Egito, na entrada do Canal de Suez) como um documentário de época, especialmente as tomadas em Porto Said, com direito a caminhadas pela região do cais e pelo comércio local. A expansão das locações deu maior legitimidade ao argumento, que mesmo sofrendo de anacrônicos vícios do cinema silencioso, erros de montagem, contestável atuação do casal em algumas cenas e trôpego desenvolvimento da trama, consegue se firmar, ao fim, como uma boa comédia romântica pincelada com atmosfera de thriller.

O filme começa acompanhando o fim de um dia de trabalho de Fred (Henry Kendall), que está descontente com sua situação financeira e sua condição de vida. Os primeiros minutos transcorrem sem um único diálogo, apenas com sons-ambiente durante a via crucis de Fred até chegar em casa. Essa primeira impressão que temos do personagem nos engana bastante, porque atribuímos a ele uma postura cômica e simpática, impressão que é instantaneamente descartada no momento em que ele chega em casa e começa a conversar com a jovem e bela esposa.

O roteiro logra uma astronômica mudança de perspectiva em questão de segundos, e o homem a quem já nos afeiçoáramos passa a ser um esposo raclamão e grosseiro, em contraste com a docilidade de sua esposa Emily (Joan Barry). Mas essa situação muda na mesma sequência, quando Fred recebe uma carta e com ela a notícia de uma vultosa soma em dinheiro para gastar curtindo a vida. Sem perda de tempo, ele marca uma viagem ao redor do mundo com a esposa, passando pela França, atravessando o Mediterrâneo, o Canal de Suez, o Oceano Índico e chegando à China. Essa viagem trará à tona informações até então desconhecidas sobre o casal, os sentimentos de um em relação ao outro, suas personalidades por trás da máscara de querer agradar e ser um bom cônjuge, coisas do tipo.

Tudo bem que há uma boa dose de estranheza nesse percurso e que há planos e linhas do texto para as quais torcemos o nariz, mas… como não gostar dessa dose de nonsense quase surreal em toda a viagem? O propósito geral do filme é mostrar o amadurecimento de um casal e, como meio de chegar a isso, há a viagem, o flerte, a traição aberta e o reatamento mediante uma situação de vida ou morte. Não existe uma linha de ação externa ao casamento de Fred e Emily simplesmente porque era o casamento o objeto de atenção do roteiro!

O período da viagem é quase inteiramente bem filmado e tem um exemplar encadeamento de eventos, com uma boa e hilária dose de alívio cômico (nunca forçado, como aquele visto em A Mulher do Fazendeiro). Não há vício de filmagens em um único ambiente ou repetição de um mesmo momento cênico, em vez disso, há uma fluída história de como um casal aparentemente apaixonado começa a trair e aonde essa traição levará cada uma das partes.

A reta final da obra não abandona o humor e tem na refeição a bordo do junco chinês um de seus pontos altos. Até mesmo a discussão sobre ter um filho e as condições financeiras dos pombinhos após a viagem caem bem como ponto final, porque fecham o ciclo de aprendizagem e mostram que, mesmo que hajam mudanças na vida de alguém ao longo do tempo ou após uma intensa experiência, algumas coisas simplesmente nunca mudam. O casamento é justamente saber lidar com isso; na pobreza, na riqueza ou na estranheza que porventura envolva uma fase ou toda essa convivência.

  • Crítica originalmente publicada em 12 de janeiro de 2014. Revisada para republicação em 12/11/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Ricos e Estranhos (Rich and Strange) – UK, 1931
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alfred Hitchcock, Alma Reville, Val Valentine (adaptação da peça de Dale Collins)
Elenco: Henry Kendall, Joan Barry, Percy Marmont, Betty Amann, Elsie Randolph
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.