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Crítica | Ring 0: O Chamado (Ringu 0)

por Leonardo Campos
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A trajetória de Sadako é tão extensa quanto o percurso dos mascarados slashers que habitam o cinema de terror ocidental desde os anos 1980. Com uma cronologia absurdamente rizomática, em Ring Zero: O Chamado, os realizadores provavelmente perceberam que esticar a história era quase impossível depois dos desdobramentos dos filmes anteriores. O jeito foi investir no prelúdio, conhecido também pela terminologia prequel por aqui, quando alguns textos decidem não apostar na tradução. Com tom menos assustador, mas permanência de uma atmosfera climatizada pelo medo e pavor, a produção não é um exemplar descartável da franquia, principalmente por nos mostrar o lado mais humano de Sadako, personagem já apresentada como “monstro” nas incursões anteriores.

Sob a direção de Norio Tsutura, cineasta guiado pelo roteiro de Hiroshi Takahashi, acompanhamos ao longo de 99 minutos, um prelúdio interessado em desvendar para as pessoas as origens de Sadako, tendo em vista delinear as motivações que a tornaram a criatura habitante do imaginário cultural popular estabelecido entre o final da década de 1990 e o novo milênio. Inspirado no conto Lemon Heart, de Koji Suzuki, escritor que deu as bases para a existência dos filmes desta franquia, Ring Zero: O Chamado se inicia com a investigação de Akiko Miyaji (Yoshiko Tanaka), personagem que há 30 anos, era parte de uma busca por informações que explicassem determinados acontecimentos em torno de Sadako (Yukie Nakama), jovem envolvida numa trupe teatral por indicação de seu terapeuta, preocupado com o bem-estar e a socialização da moça. O problema é que a proposta terapêutica não sai como o planejado.

Observe. Sadako é uma garota que não entende adequadamente as coisas que acontecem em seu cotidiano. Num traço comparativo, realizado por muitos espectadores, Sadako seria o equivalente ao perfil de Carrie, personagem de King adaptado brilhantemente por Brian De Palma em 1978. Ela é uma espécie de desajustada, acossada por quem cobiça os seus dotes e vantagens, sendo importante, por sua vez, ressaltar a fuga da narrativa pelo caminho fácil do maniqueísmo. Ring Zero: O Chamado apresenta uma garota que também reage, dando o retorno diante de atitudes injustas e inesperadas. É uma vida de mão-dupla que torna a história mais crível, mesmo que em alguns momentos, todas essas vantagens deixem mais espaço para o marasmo, pois falta um bom ritmo que nos convença a seguir até o fim nesta saga da memória.

Também é importante destacar esse detalhe “memorialístico”, pois podemos observar no filme um tom relativamente voyeur dos espectadores que salvaguardadas as devidas proporções, parecem ler o diário ou a biografia de Sadako, em detalhes. A direção de fotografia de Shinichiro Ogata colabora com a intensidade desse tom do passado, ao investir em cores claras, como fotografias envelhecidas em muitos trechos. Há um aspecto visual estourado, interessante para o que se propõe deslindar em termos históricos. Acompanhada pela condução musical de Shu Yamaguchi, trabalhada em parceria com alguns toques eficientes do design de som de Alessio Masi, tipicamente integrante das convenções do terror oriental.

De volta ao teatro, Sadako é a sensação para os olhos do diretor Yusaku Shigermori (Takeshi Wakamatsu), algo que causa o ciúme de Aiko Mazuki (Kaoru Ozunuki), personagem que decide se colocar no caminho da jovem que em breve se tornará a lenda da menina dos languidos cabelos negros molhados, saída de um poço para se tornar maldição numa fita VHS. As coisas não ficam bem para Mazuki, pois ela aparece misteriosamente morta algum tempo depois. Nada indica com tanta certeza que seja uma ação de Sadako. Por sinal, a menção ao VHS é apenas uma associação de quem já conhece a mitologia por detrás da franquia, pois durante o filme não há abordagem deste tópico como conteúdo dramático. Isso é coisa para a posteridade, afinal, é preciso lembrar que estamos três décadas antes da incursão realizada por Hideo Nakata.

A forma como Sadako é tratada pelas pessoas ao seu redor, desconfiadas de sua presença macabra, lembra vagamente uma caça às bruxas. A forma encontrada para seu desfecho é o que torna a sua existência no plano sobrenatural uma celeuma para as gerações vindouras que terão o desprazer de ser parte da maldição em torno de sua tragédia, combustível para um eterno ciclo de vingança, algo que é parte intrínseca do folclore japonês. Ademais, lançado em 2000, Ring Zero: O Chamado tem Nobuaki Sugiki, supervisor dos efeitos visuais discretos da produção, também singela no seu painel de explicações que evita o didatismo exagerado e deixa algumas coisas para que o público faça as suas próprias conexões. Falta ritmo, há pouca intensidade nos personagens, problemas que prejudicam o nosso interesse em se manter atento aos aspectos reflexivos de um filme que retrará o medo da humanidade diante do que lhe é desconhecido.

Ring 0: O Chamado (Ringu 0: Bâsudei) — Japão, 2000
Direção:
 Norio Tsuruta
Roteiro: Hiroshi Takahashi (baseado no conto de Kôji Suzuki)
Elenco: Yukie Nakama, Seiichi Tanabe, Kumiko Asô, Takeshi Wakamatsu, Ryûshi Mizukami, Kaoru Okunuki
Duração: 99 min.

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