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Crítica | Robin Hood (1973)

por Gabriel Carvalho
382 views (a partir de agosto de 2020)

“Você sabe, existiu um monte de lendas e mentiras sobre Robin Hood. Todas muito diferentes. Nós do reino animal temos nossa própria versão. É a história do que realmente aconteceu na floresta de Sherwood.”

A antropomorfização de animais é uma das mais célebres características recorrentes na filmografia da Disney. Ao encontrar no folclore inglês o mítico Robin Hood e as peripécias que aprontara na floresta de Sherwood, o estúdio de animação decidiu por transformar os personagens lendários da mitologia do Príncipe dos Ladrões em animais – um mero ajuste estético para torná-los mais reconhecíveis. Sendo assim, o protagonista se torna uma raposa, seu melhor amigo apresenta-se como um urso e o vilão toma a forma de um leão franzino. As associações com as figuras das estórias são inúmeras e o primeiro grande acerto do filme é conseguir nos fazer assimilar, para além da própria narrativa, os animais com os seus respectivos representantes. A mais clara destas relações entre homem e natureza é a de Ricardo Coração de Leão (Peter Ustinov) – rei da Inglaterra na época em que, supostamente, Robin Hood também viveu. Indo adiante, a aparição do rei serve como uma exaltação do contraste de sua aparência com a de seu irmão, o Príncipe John, sendo notável o fato do antagonista da obra, também um leão, receber o mesmo intérprete que Ricardo. Além da apresentação física, Peter Ustinov trabalha a voz de um modo diferente da anterior ao incorporar a real realeza no final da animação, dando adeus àquela mais fina. Ao se tornar o verdadeiro rei da Inglaterra, distante de seu povo até então, Ustinov exala a imponência, o respeito e a bondade existentes no peito de um líder que o povo precisa. Ao passo que ele se encontra longe, porém, cabe a Robin Hood roubar dos ricos para dar aos pobres, impedindo a falência dos moradores de Nottingham, esgotados devido os impostos excessivos cobrados por John, o rei temporário.

A trama prossegue sem grandes surpresas, mantendo-se em uma linha leve, mas extremamente aventureira; uma mistura encabeçada pelo charmoso Robin Hood, na voz de Brian Bedford, ator que emprega uma elegância não-refinada ao protagonista. Ao seu lado, João Pequeno é uma reimaginação do carismático Balu, de Mogli: O Menino Lobo. Ambos os personagens são trabalhados por Phil Harris – o que, apesar de tornar João Pequeno igualmente simpático em relação a Balu, enfraquece as tomadas de decisão feitas em Robin Hood por si só. Dessa maneira, o aspecto redundante torna-se um demérito ao passo que o melhor amigo do herói é uma reciclagem comportamental do melhor amigo de Mogli, mas sem o mesmo foco na amizade. Com o intuito de injetar uma outra peça no tabuleiro dessas terras britânicas, além do embate de Hood contra injustiças cometidas pela nobreza, os roteiristas não demoram para encaixar o interesse amoroso do protagonista, Maid Marian (Monica Evans), em cena. Infelizmente, a química entre os dois é fabricada de uma maneira pouco convincente, adicionando-se camadas de background ao relacionamento à base de exposição preguiçosa. Enquanto Robin Hood continua sendo um bom herói da história, certamente galanteador, Maid Marian torna-se uma coadjuvante sem graça, com pouco a fazer senão dar abertura a introdução da incrível Lady Kluck (Carolle Shelley), certamente destoante em personalidade quando comparada ao interesse amoroso de Hood – uma personagem que só pode ser categorizada deste modo, como o interesse amoroso de Hood, o que é uma pena, visto que a animação se atrela a estes clichês sem qualquer encorpamento. O herói enfrenta o mal e conquista a garota.

Também não há muita inventividade na hora de se produzir a animação pela animação. O primeiro encontro dos dois amantes é sucedido por um número dançante feito à base de cópia e cola. Intensificando o processo de não-originalidade, muitas sequências animadas de Robin Hood são repetições das feitas em outros filmes da Disney, como o já citado Menino Lobo e até o primeiríssimo longa-animado do estúdio, Branca de Neve e os Sete Anões. A semelhança física de Balu com João Pequeno dá margem para que cenas inteiras sejam repetidas na estrutura, algo que barateou os custos de produção, mas também deu sinais de desgaste à empresa. A sequência de dança, portanto, é desnecessária. Já a animação apresenta traços bastante simples, mas é papel das cores fazê-la chamar atenção, dando bastante vida aos personagens e garantindo um sentimentos estético rústico, mapeando o ambiente e imergindo o espectador nele. O verde, aliás, é uma força neste cenário da Idade Média. Ademais, as aparências dos coadjuvantes devem ser notadas, como a do Frei Tuck (Andy Devine) e a de Alan-a-Dale (Roger Miller). Os animadores transformam um simples texugo em uma amigável figura do clero, que, assim como Robin Hood, trabalha em favor dos pobres. A sua importância na narrativa casa com a sua proposta em cena. Ao acabar sendo preso, o filme soa realmente dramático, sendo este o ápice do distúrbio retratado neste reflexo social, no qual os pobres vão parar atrás das grades justamente por serem pobres. Por outro lado, o teor sentimental de sua presença, assim como a do protagonista, não é perfeito, beirando algumas vezes à pieguice, enquanto, em outras, encontra o ar do triunfalismo heroico que revigora qualquer alma.

Já em relação ao galo Alan-a-Dale, Robin Hood acerta ao torna-lo tanto narrador quanto personagem da história, o que garante, presumidamente, a veracidade do que se é narrado, mesmo que a narrativa seja protagonizada por arquétipos de heróis, vilões e coadjuvantes indefesos. Eis a história do que realmente aconteceu na floresta de Sherwood. Em um outro plano, embora contenha várias dessas padronizações de personagens, Robin Hood, ao tratar dos seus antagonistas, aborda caricaturas que acabam por atender requisitos mais lúdicos. O “grande” Príncipe John é um leão ganancioso, mas, acima de tudo, covarde, bastante dependente de uma estima que não existe dentro do seu peito. The Phony King of England, cantada por Phil Harris, destroça qualquer intenção da obra em fazer John um vilão realmente ameaçador. Sua parceria com o traiçoeiro Hiss (Terry-Thomas) simplesmente não existe, algo que abre possibilidades extremamente cômicas; uma piada pronta. É o Xerife de Nottingham (Pat Buttram) que dá mais raiva ao espectador, cobrando impostos dos habitantes de uma maneira completamente indiscriminada. A contraposição de heróis com os vilões, porém, exalta-se na inventiva ação da obra, que tem, excluindo-se a última, um viés particularmente galhofa. O cantarolar do galo também promove uma pegada musical própria – Oo-De-Lally exemplifica essa ótica, combinando narração com canção. Em termos musicais, Robin Hood é singular, afeiçoando-nos tanto por Whistle-Stop, uma espécie de tema do filme, quanto por Love, indicada ao Oscar. Com uma espirituosidade substituindo uma qualidade mais formal, o cinema de Robin Hood é aventura infantil, despretensiosa, mas também energética.

Robin Hood – EUA, 1973
Direção: Wolfgang Reitherman
Roteiro: Larry Clemmons, Ken Anderson, Vance Gerry, Frank Thomas, Eric Cleworth, Julius Svendsen, David Michener
Elenco: Brian Bedford, Monica Evans, Phil Harris, Andy Devine, Roger Miller, Carolle Shelley, Peter Ustinov, Terry-Thomas, Pat Buttram, George Lindsey, Ken Curtis, John Fiedler, Barbara Luddy, Billy Whitaker, Dana Laurita, Dori Whitaker, Richie Sanders, Barbara Luddy, J. Pat O’Malley, Candy Candido
Duração: 83 min.

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15 comentários

Diogo Maia 13 de dezembro de 2020 - 21:18

Uma das animações mais genéricas e esquecíveis da Disney, fruto de uma das piores fases do estúdio. Os caras não tiveram vida fácil após o falecimento do dono da companhia e passaram um aperto danado até a estreia de A Pequena Sereia. Até lá, produziram apenas obras medianas, no máximo, na minha opinião. Porém, esta aqui consegue ser ainda mais apagada que as demais em relação ao restante da cinematografia do estúdio. A impressão que fica é de estar assistindo algum especial para a TV retirado do universo de Mogli ou algo parecido, só que com traços mais rústicos, para não dizer pobres e sem imaginação. Nota 3/10.

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Herbie: The Love Bug 16 de maio de 2018 - 16:50

Eu acho que Mary Poppins é um filme excelente, em todos os aspectos. Mas respeito a sua opinião.
Já ouvi falar desse desenho, e sei que Se Meu Fusca Falasse serviu de inspiração para ele e para um desenho da Hanna-Barbera chamado Speed Buggy.
https://www.youtube.com/watch?v=3hx-hEWl10c
Qualquer dia confiro “Carangos e Motocas”.
Essa onda de filmes de comédia da Disney começou quando eles fizeram “The Shaggy Dog” (não o filme com o Tim Allen, e sim com o Fred MacMurray e Tommy Kirk) de 1959. Era uma comédia barata em preto e branco que gerou grande bilheteria. Depois dele, vieram muitas outras comédias de sucesso (não que todas tenham ido bem em crítica). Quando não se existia o Superman do Christopher Reeves ou Star Wars, o divertimento do público era os filmes da Disney (Anos 60 até o meio dos anos 70, quando surgiu Star Wars). Eles tomaram naquele lugar por terem recusado o filme do George Lucas, e tentaram correr atrás com filmes hoje considerados cult, mas na época fracassos de bilheteria como The Black Hole e The Watcher in the Woods. Até Tron entra na lista.

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planocritico 16 de maio de 2018 - 17:53

@Lohan_no:disqus , acho – só acho – que eu concordo com você sobre Mary Poppins: https://www.planocritico.com/critica-mary-poppins/

Abs,
Ritter.

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Herbie: The Love Bug 16 de maio de 2018 - 19:02

Já li essa crítica, a propósito. Ótima, como sempre!
Gostando ou não, temos que reconhecer que Mary Poppins é um filme sem falhas de roteiro e de direção. O visual é lindo, e as músicas são extremamente criativas. Existem mais chances de não gostarem aqueles que leram os livros da P.L Travers.
Em 1987, a Disney queria fazer uma sequência baseada no roteiro que a Travers e um arquivista da Disney criaram. O Bert não estaria aí, e teria um primo (Michael Jackson era a primeira escolha, é sério). Mas, como Pamela Travers era o capeta em formato de mulher, não saiu kkkkkkkkkkk
Me lembro do Roger Ebert em um de seus posts falando que The Love Bug e Herbie Rides Again eram seus filmes preferidos na infância, mas Mary Poppins era a principal e
perfeita quanto a essa época de live-actions da Disney. Tanto é que o Walt quase sempre botava o mesmo trio em muitos de seus outros projetos (Robert Stevenson, Bill Walsh e Don DaGradi). Walsh, também produtor, disse que sempre tentava empregar o que o Walt faria quando produzia um filme.

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Cesar Cesar 16 de maio de 2018 - 19:46

Eu gostava era da Mary Tyler Moore. Também gostava de “Agente 86” e “Os Seres do Amanhã”. Detestava “Os Waltons”.

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Cesar Cesar 17 de maio de 2018 - 11:12

https://www.youtube.com/watch?v=dSMDZ1Wmmt8

Esse tal Willie era insuportável. Eu nunca gostei dele, achava ele pedante. Ele namorava a Ronda, com “R” mesmo”, mas a Turma do Chapa é que era legal.

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Gabriel Carvalho 16 de maio de 2018 - 02:00

Obrigado você por acompanhar as nossas críticas. Que experiência legal!

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Gabriel Carvalho 16 de maio de 2018 - 01:59

O lobo é o xerife. A raposa tem um caráter mais galanteador, enquanto lobos são mais agressivos. Faz sentido.

Eu, particularmente, acredito que ele está fazendo justiça.

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Cesar Cesar 16 de maio de 2018 - 10:46

O xerife deveria ser a raposa, animal simbolo da esperteza (no mau sentido) e da falsidade. Animal dissimulado, a raposa é exatamente aquilo que aparenta ser: um ladrão de galinhas. No caso em tela, Robin Hood se revela um ladrão sem escrúpulos – como se ladrões fossem boa coisa – e sinceramente, tratando-se de animações para adultos (sem a classificação XXX) ele mereceria uma bala na cabeça.

Por falar em animações para adultos (sem sexo) voce conhece “Felidae” ou “The Plague Dogs”? Não? Precisa conhecer!!! Vou colocar um link aqui para voce.

http://www.[link]

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Gabriel Carvalho 16 de maio de 2018 - 01:58

Jesus, em toda crítica você fala do Se Meu Fusca Falasse. Hahahahahahaha. Eu acho genial.

Eu entendo a reciclagem de cenas, mas de forma pontual. Aquela dança comemorativa é toda reciclada, um absurdo.

Sim, eu gostei mais do filme do que a crítica em geral. Na minha cabeça, até mesmo mais meia estrela eu pensei em dar. Fico assoviando a musiquinha até agora, isso é um bom sinal.

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Herbie: The Love Bug 16 de maio de 2018 - 16:54

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Claro, quando criança nem deparei nesse detalhe. Mas pelos vídeos, é extremamente nítido. Robin Hood foi uma das animações que serviu de inspiração para Zootopia, mais pro visual do Nick (não sei quem da produção disse que a animação de 73 é uma de suas preferidas).

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Paulo Roberto 15 de maio de 2018 - 17:11

Por incrível que pareça, a primeira vez que fui ao cinema foi para assistir esse desenho do Robin Hood! Nostalgia total. Muito bacana essa iniciativa de comentar as produções mais antigas. Parabéns a todos vocês do Plano Crítico por essa iniciativa.

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Cesar Cesar 15 de maio de 2018 - 11:26

Essa é mais uma animação ruim da Disney onde um Robin Hood afrescalhado (deveria ser um lobo mas é uma raposa) pensa que está fazendo justiça quando não passa de um ladrão barato. Os animais coadjuvantes também não ajudam muito.

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Herbie: The Love Bug 14 de maio de 2018 - 21:00

Ótima crítica.
Tenho essa animação mais viva na cabeça do que Aristogatas. Me surpreendi que a sua nota foi mais positiva do que a anterior até, pois muitos acham Robin Hood uma das animações mais fracas do estúdio.
E olhando algumas cenas no YouTube, essa reciclagem de cenas deve irritar muito mesmo. Pourra, logo a Disney fazer isso?
O projeto é, talvez, o mais antigo da Disney. O estúdio começou a pensar nele após Branca de Neve e os Sete Anões, querendo adaptar a lenda de Reynard, a Raposa. Porém, o protagonista estava mais pra um vilão do que um herói. Eles até pensaram em colocar a história de Reynard em Ilha do Tesouro (1950), mas decidiram tornar o filme somente um live-action completo. A ideia que veio a se tornar Robin Hood surgiu durante a produção de Aristogatas.
O Peter Ustinov atuou em alguns live-actions de sucesso da Disney, como O Fantasma do Barba Negra (Blackbeard’s Ghost, do mesmo diretor e roteiristas de Mary Poppins e Se Meu Fusca Falasse) e One of Our Dinosaurs Is Missing, esse não tão bem em crítica. O Walt Disney queria que ele interpretasse o Nikita Khrushchov em um filme de comédia para a TV chamado “Khrushchev in Disneyland”, inspirado em um quase encontro que Walt teve com o cara. Porém, ele era o único interessado nesse projeto e após a sua morte, cancelaram prontamente e deram prioridade à Se Meu Fusca Falasse e outros filmes que Disney autorizou antes de morrer.
E acho que foi bem feito. Esse filme tinha uma grande chance de ser ruim demais kkkk

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Cesar Cesar 16 de maio de 2018 - 10:49

Mary Poppins é um saco!!! Esses clássicos Disney só encantam os mais bobos. O fusca Herbie ainda é divertido, ainda que eu prefira “Carangos e Motocas”, aquele desenho onde tem a Turma do Chapa – uma gangue de motos – que implica com o Willie, um carro metido a bonzinho, verdadeiro almofadinha.

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