Crítica | Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

Na época da escrita e publicação de Robinson Crusoé, a Inglaterra vivenciava uma grande expansão econômica no bojo do capitalismo, ligada também ao seu projeto expansionista e no constante gerenciamento de conflitos, como por exemplo, o embate entre os partidos Whigs e Tories, responsáveis por derrubar a Dinastia de Stuart, momento conhecido por Revolução Gloriosa. O contexto também seguia o fluxo das Grandes Navegações, com materiais cartográficos e textuais que não dialogavam com tais interesses expansionistas, já comuns para espanhóis e portugueses. Todos estes acontecimentos influenciaram a projeção do personagem título em questão representação metafórica de muitas questões da época.

Publicado por Daniel Defoe, romancista que também atuou como jornalista e apesar de ser conhecido por Robinson Crusoé, também recebeu notável admiração pela publicação de Moll Flanders, romance que também nos guia ao trajeto de um personagem num percurso solitário. Condutor do jornal, The Review entre 1704 e 1713, Defoe versou sobre educação, magia, viagens, pirataria, dentre outros temas. O autor, que também foi comerciante, aderiu ao ato nobilista depois da fama, haja vista o acrescentar o “e” em seu nome depois do “Defo”.

Provavelmente inspirada na história de Alexandre Sebick, um náufrago inglês que viveu durante quatro anos numa ilha do pacífico intitulada “Más a Tierra”, local renomeado para Ilha Robinson Crusoé, em 1966. Especialistas acreditam que o espaço da história seja uma referência à caribenha Ilha de Tobago. Guiada pelo senso de saber empírico que se constitui com base nas observações de viagem, a narrativa conduzia não apenas o personagem narrador, mas também o leitor, por um caminho de acumulação de conhecimento. Ao lutar por sua vida, o herói busca a manutenção da sua humanidade diante da hostilidade da natureza.

O impetuoso personagem foi capturado pelos mouros ao partir numa missão comercial na costa da Guiné. Tratado como escravo do capitão da embarcação que o capturou, Robinson Crusoé amarga bastante tempo diante de tal condição, até conseguir fugir com outros escravos, todos resgatados por um capitão português, que o leva ao Brasil, um dos locais que lhe permite adquirir fortuna. É neste processo que ele conhece e muda a vida de um personagem historicamente complexo e polêmico: Sexta-Feira, numa relação que desde o seu princípio é colonial. Ele o nomeia, juntamente com a colonização da ilha de acordo com os moldes ingleses. A relação deles, desde o início, não é de igualdade, tal como outro “aborígene” espanhol que liberam durante uma fuga.

Depois de 35 anos ausente, Crusoé retorna para a Inglaterra e encontra o seguinte cenário: seus pais estão mortos, bem como dois irmãos, havendo apenas duas irmãs e dois sobrinhos vivos. Ele viaja para Lisboa e descobre que seus bens haviam sido repartidos, pois tinha sido dado como morto. Resultado: 1/3 do que era seu foi para a Coroa Portuguesa e 2/3 para o Convento de Santo Agostinho, espaço de caridade que utilizou o dinheiro como fundo para garantir a sobrevivência dos pobres e conservar o ideal de cristianizar os indígenas.  Mais tarde ele resolve se aventurar de novo pela navegação, numa demonstração de sua postura empreendedora.

Autêntico por conta do relato em formato epistolar, o romance é interpretado pelos historiadores da literatura como uma prosa objetiva que simboliza a classe média e os interesses econômicos da época. Robinson Crusoé consegue dar conta da cartilha de obras do seu estilo, isto é, a abordagem do mito da ilha denominada pelo escritor como metáfora da expansão.  Após bastante sofrimento diante do naufrágio, o personagem passa por numerosas aventuras envolvendo animais, clima inóspito e presença de indígenas, mas sobrevive, tendo como projeto urbanizar o ambiente inóspito por meio do trabalho, bem como cristianizar os “selvagens”.  Ele é adorado pelos seus súditos, apesar de impregnar a “política” local com sua postura despótica.

Para o campo dos estudos literários, as aventuras do personagem representam muito para a história da formação do romance moderno. Com traços que lembram O Filósofo Autodidata, de Ibn Tufayl, história que gravita em torno do isolamento, Robinson Crusoé é um romance estruturalmente extenso, descritivo e focado na análise do desenvolvimento do capitalismo, na ascensão da burguesia, no colonialismo e no absolutismo. A escrita reflete a mobilidade social dele e do mundo com base nas descrições concretas e materiais, da vida cotidiana, numa época em que a educação era um privilégio e o interesse estava voltado aos gêneros poesia/teatro.

Cabe ressaltar que as editoras tiveram uma tarefa preponderante neste momento, pois desempenharam papel tão importante quanto os navegadores e suas histórias de viagens. Ao documentar as empreitadas inglesas, de maneira diferente ao que se fazia (escondia) na península ibérica, os editores contribuíram para a formação de uma identidade forjada em meio ao sentimento de imperialismo e expansionismo nacionalista.

O romance inevitavelmente nos remete às reflexões do historiador Michel De Certeau em A Escrita da História, especificamente na passagem que afirma não haver mais espaço na literatura da época para dragões, princesas e castelos, elementos simbólicos do feudalismo com os novos parâmetros econômicos, políticos e literários europeus. Considerada a fundadora do romance inglês, a obra narra a trajetória do único sobrevivente de um naufrágio que o mantém isolado diante de uma ilha aparentemente deserta.

Adaptado para outras linguagens, em especial, o cinema, Robinson Crusoé é uma das obras que passou pelo processo de infantilização das adaptações para o público juvenil, o que muitas vezes colaborou com a distorção dos elementos debatidos pela obra, uma publicação que vai muito além da mera aventura de um homem náufrago que é levado á desobedecer até mesmo as ordens de seu pai por conta da atração que tem em relação ao mar.

Robinson Crusoé (Inglaterra, 1719)
Autor: Daniel Defoe
Editora no Brasil: Companhia das Letras
Tradução: Sergio Flaksman
Páginas: 408

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.