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Crítica | RoboCop (2014)

por Guilherme Coral
435 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3

Quando foi anunciado que o próximo filme de José Padilha seria um remake de RoboCop, instantaneamente instalou-se aquele temor justificável. Afinal, o filme de Verhoven, como dito pelo nosso editor, Ritter Fan, é o melhor filme de super-heróis, sem ser de super heróis, já feito. Sabendo, contudo, que seu longa somente se prejudicaria ao ser comparado com o original, o diretor optou por uma abordagem diferente, estabelecendo uma nova proposta para o policial cibernético.

O novo filme de Padilha (que, antes, quase foi de Darren Aronofsky e, depois, de David Self), desde seus primeiros minutos, aborda o questionamento sobre a utilização de drones, por meio de uma cena no Oriente-Médio. Nesta, diversos robôs humanoides e ED-209s (substancialmente o mesmo do filme original, mas em CGI) patrulham as ruas enquanto cidadãos são chamados para serem revistados. Assistimos esse acontecimento através de um noticiário tendencioso que apoia completamente o uso de tais máquinas. Pouco após, os patrulheiros são atacados pela resistência local que é finalizada violentamente, gerando mortes civis. Em seguida somos direcionados para a problemática que permeia a maior parte do filme: drones em território americano são proibidos pela Lei Dreyfus.

Sabendo das limitações impostas pela tal lei, Raymond Sellars (Michael Keaton), presidente da Omnicorp (empresa que fabrica as máquinas utilizadas fora do país), procura uma maneira de burlar a legislação vigente e lucrar através de um serviço de segurança ao menos parcialmente mecanizado. A solução é o RoboCop. A busca para o experimento é alguém que, por alguma razão, perdeu algum dos membros e tem de lidar com tal deficiência. Assim,  quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado contra sua vida ele, convenientemente, se torna o melhor candidato.

Existe, contudo, um problema que se apresenta desde a própria concepção da cidade de Detroit que vemos no longa-metragem. Se ambientando no futuro, a cidade está longe de apresentar o nível de violência esperado para que seja necessário o uso de um policial cibernético. A metrópole parece uma cidade normal de um país desenvolvido e não pede medidas drásticas. Isso pode ser exemplificado pelo próprio líder do crime da cidade que, até então, teme assassinar policiais. Para evitar comparações com o filme original, exemplificarei usando Batman Begins. Lá, Carmine Falcone, chefe da máfia de Gotham City, não teme assassinar Bruce Wayne em frente a um juiz. Ao contrário de Detroit, Gotham é uma cidade que, claramente, está no fundo do poço, fazendo o espectador entender e até desejar a presença de um super-herói/vigilante.

O maior problema da cidade apresentada no remake é a corrupção da força policial. Nesse ponto, entra uma vantagem do drone: maquinas são incorruptíveis. Tal característica, porém, é pouco abordada e, quando aparece, se dá de forma superficial. Isso é resultado da falta de foco do filme, que prioriza o lado emocional da família de Alex Murphy, em detrimento de um desenvolvimento efetivo da trama. Para a execução desse lado, vemos constantes esforços do roteiro para transformar o policial cada vez mais em máquina e menos humano, apesar de sua proposta inicial ter sido um humano com pedaços de robô.

Juntando-se ao foco na família para produzir um problema de ritmo no longa, existe também o lado do treinamento de RoboCop. Essas sequências, apesar de nos oferecer diversas cenas com ótimo uso de CGI, ocupa grande parte da projeção, ao ponto que vemos poucas vezes o policial de fato em ação. No fim, ficamos realmente com a sensação de estarmos assistindo um filme de origem de super-herói. Mais uma vez o questionamento que Padilha deseja colocar perde a força.

Contudo, o que mais distancia o longa de seu próprio objetivo são as referências ao filme original. Seja através do uso da música tema do filme de Verhoeven (composta por Basil Poledouris), de citações em diálogos (“I’d buy that for a dollar.”) ou da própria estética, o remake acaba forçando o espectador a compará-lo com o original.

Ainda assim, apesar de tais defeitos e de não chegar aonde quer, RoboCop proporciona boas cenas de ação, mesmo que algumas delas tenham o clássico problema dos filmes contemporâneos com sua câmera e montagem agitadas. Em termos visuais, o longa não deixa a desejar, trazendo um belo uso da computação gráfica que somente em alguns pontos se torna evidente. A nova roupa do policial poderia ter sido mantida na cor original, garantindo a identidade do personagem e evitando comparações com a famosa pergunta de Bruce Wayne: “does it come in black?” A trilha sonora, composta por Pedro Bromfman (de Tropa de Elite 1 e 2), em algumas cenas, é intrusiva demais, entregando o que acontecerá, mesmo considerando que o  roteiro de Joshua Zetumer seja bastante óbvio, sem gerar grande suspense.

Não poderia finalizar essa crítica sem tecer alguns elogios ao trabalho de Gary Oldman que nos entrega um cientista em um sério dilema de usar suas criações para fins bélicos e, mais importante, um dilema que conseguimos acreditar. Suas aparições são, muitas vezes, o ponto alto do filme, ao ponto que traz à tona a temática que deveria estar sendo abordada nos outros momentos: até que ponto o calculismo de um robô pode substituir o método de pensamento humano? No papel do policial, Joel Kinnaman convence, mas sem se destacar.

RoboCop é mais um fruto dos remakes desnecessários de Hollywood. É um filme de ação que entretém, mas não oferece nenhum elemento especial e, portanto, logo foge à memória. Padilha falha em sua abordagem deixando sua nova produção uma obra que somente arranha a superfície, sem propor os desejados questionamentos de maneira efetiva, nos forçando a intermináveis comparações ao ótimo filme de Verhoeven.

RoboCop  (Idem, EUA – 2014)
Direção: José Padilha
Roteiro: Joshua Zetumer
Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jackie Earle Haley, Samuel L. Jackson
Duração: 117 min.

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9 comentários

Thiago Silva t.silva 17 de setembro de 2020 - 18:13

Nobre critico não se atentou a discussão central do tema: A Percepção Humana (sentimentos, emoções, sensações) podem ser automatizadas através da Inteligência Artificial? Basta pensar criticamente em alguns aspectos: Por que a lei/senador leva o nome Dreyfus? (Quem é Dreyfus? Um filosofo que discute sobre a impotência da IA em substituir o julgamento humano) Julgamento central nas cenas onde Robocop atira em um foragido na frente do filho e no meio da multidão (algo não plausível). Emoção quando o tocador de violão com mãos de ciborgue não toca justamente pela falta de emoção. O jornal sensacionalista remete a todo momento a discussão inicial da sobreposição da IA. Não bastante, o filme começa com uma criança sendo executada por robô policial justamente pela incapacidade da percepção que somente humanos tem contra o processamento de dados das máquinas.

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Helder Zemo 8 de março de 2016 - 18:06

Pra mim o filme é bonzinho, nao é a aquela atrocidade do remake de Total Recall por exemplo, mas pequenas coisas poderiam melhora lo, como por exemplo, cortar a familia do Murphy talvez assassinando todo mundo no começo ou simplesmente nao aparecendo como no original, Detroit ser mais violenta, no filme a cidade parece ser mais utopica que a abandonada e violenta Detroit dos dias atuais, que é quase se nao pior que a Detroit do filme do Verhoeven, nao senti isso em nenhum momento do filme, parece uma New York disfarçada quase, os personagens da OCP, fora o otimo Gary Oldman tinham que ser melhores, comparar o Michael Keaton com o Dick Jones e quase uma covardia e o principal: censura rated r, fazer um filme do Robocop P13 foi a gota dagua… bom, acho que nao sao pequenas coisas, mas quase o filme inteiro kkkk

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Helder Zemo 8 de março de 2016 - 18:06

Pra mim o filme é bonzinho, nao é a aquela atrocidade do remake de Total Recall por exemplo, mas pequenas coisas poderiam melhora lo, como por exemplo, cortar a familia do Murphy talvez assassinando todo mundo no começo ou simplesmente nao aparecendo como no original, Detroit ser mais violenta, no filme a cidade parece ser mais utopica que a abandonada e violenta Detroit dos dias atuais, que é quase se nao pior que a Detroit do filme do Verhoeven, nao senti isso em nenhum momento do filme, parece uma New York disfarçada quase, os personagens da OCP, fora o otimo Gary Oldman tinham que ser melhores, comparar o Michael Keaton com o Dick Jones e quase uma covardia e o principal: censura rated r, fazer um filme do Robocop P13 foi a gota dagua… bom, acho que nao sao pequenas coisas, mas quase o filme inteiro kkkk

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Ricardo Correa 16 de julho de 2014 - 08:19

OK: devido às entrevistas dadas por Padilha para a promoção do filme sobre sua total liberdade de produção – eu , ingenuamente , esperava uma estética e um jeito ou desenvolvimento e diálogos um tanto distante do filme norte – americano e hollywoodiano assim fiquei surpreso como ele foi feito de modo extremamente fiel a estes preceitos…Incluem- se aí esta morosa necessidade da família ser o tom central do drama ao passo q o aspecto dicotômico do personagem de Gary Oldman poderia direcioná-lo frente aos grandes cientistas da ficção ( com ares de DR Henry Frankstein – ou da Tyrel Company – companhia criadora dos replicantes de Blade runner ou ainda um Bolívar Trask – pra citar algo mais contemporâneo – em X-men dias de um futuro esquecido) e contudo mantê-lo como um ser que se pensa herói , maravilhado com o toda a revolução benéfica que julga propor ( esta a faceta escolhida para o filme ). E só destaco Oldman porque realmente tudo o q mais viceja na produção vem dele e respira através dele ….

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Guilherme Coral 16 de julho de 2014 - 14:28

Também esperava algo completamente diferente do que vi, Ricardo. Mas como você bem disse, acabou caindo dentro do genérico que são os filmes de ação hoje em dia. Gary Oldman realmente é o melhor do filme, por mais que seu personagem pudesse ter sido melhor aproveitado – no fim o crédito vai para esse fantástico ator

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JCésar 2 de março de 2014 - 04:07

Posso ser um voz ´pregando no deserto, mas o filme (que precisa ser completado, já que foi idealizado para ser uma trilogia) é perfeito e apesar de uma falha gritante de tentar não denegrir Detroit ( Que deveria ser compensada por revoltas sociais contra o corporativismo da OCP, que diga-se de passagem foi para China???) é genial.
Vi uma grande reclamação quando a participação do Jackson, mas o Robocop original era uma crítica a mídia e ao modo como os governos resolviam as coisas. Detroit não precisa ser violenta (no filme é apenas o acaso que leva ela a possuir o Robocop – notem que se Murphy fosse de NY lá ficaria o Robocop). O que quiseram dizer é como os interesses econômicos de alguns podem deturpar a verdade para que ela se adeque ao que desejam.
O filme não é perfeito, (exageram no treinamento, só para justificar o treinador do Robocop como próximo vilão, a armadura negra parece mais uma piada complicada de enteder, coisa que acontece direto no filme, além de que a OCP deveria ter sido mais difamada, parece coisa só de um cara).
Mas no geral achei tão bom quanto o primeiro (e bem melhor do que as sequências).
Robocop, (bem como Tropas Estelares), é uma critica a sociedade consumistas e alienada pela mídia.
MAS VALE LEMBRAR QUE O FILME FOI CONCEBIDO PARA SER UMA TRILOGIA.

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Guilherme Coral 2 de março de 2014 - 21:15

JCésar, muito obrigado pelo comentário! Em relação a Detroit não precisar ser violenta, tenho de discordar – acredito que um dos grandes motivos da necessidade do RoboCop é justamente essa. Claro que existe a manipulação pelas grandes corporações, mas o povo começa a aceitar a presença do policial cibernético e para isso precisa haver uma visível mudança na criminalidade. O RoboCop original era uma distopia e acho que tal abordagem seria desejável no novo filme, mesmo com sua proposta sendo diferente.
Em relação a ele ter sido idealizado como uma trilogia só posso dizer uma coisa para quem assim idealizou: só lamento. O produto final é este e não importa o que ele poderia ter sido e sim o que ele é.
Mais uma vez, muito obrigado pelos comentários e continue conosco!

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planocritico 22 de fevereiro de 2014 - 01:42

Acabei de assistir. Concordo integralmente com a crítica. O filme é bonito, bem feito esteticamente (os designs atualizados de Robocop e dos ED-209s são excelentes), mas faltou alma ao filme. Além disso, ele é extremamente didático, tratando a plateia como idiotas que não conseguem somar 2+2. O que é aquela interminável introdução com o Jackson falando mundos e fundos dos drones e mostrando uma equipe no Oriente Médio? Para que aquilo tudo? E Detroit? Não vi perigo na cidade ou qualquer justificativa para tanta necessidade de uma polícia especial. O paralelo com zonas de guerra é extremamente forçado. Padilha poderia ter trabalhado menos a parte da mídia (que em 10 segundos fica redundante e chata), menos no treinamento do Robocop que nada – ou quase nada – acrescenta à narrativa e mais no dilema do que é ser humano, do que é o livre arbítrio. Ele toca no assunto, mas joga tudo para o lado para focar na ação que, no final das contas, é bem rápida e sem nenhum senso de perigo. Deixem o Robocop em paz! – Ritter.

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Guilherme Coral 22 de fevereiro de 2014 - 12:46

Realmente no fim ficou um filme totalmente dispensável, uma ação genérica. A Detroit do original era completamente distópica, parecendo muito com a cidade de Dredd e essa perda de tempo com o treinamento ficou parecendo um grande exibicionismo dos efeitos especiais porque realmente não acrescenta nada! É um filme muito superficial – concordo, deixem o RoboCop em paz!

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