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Crítica | Rock’n’Rolla: A Grande Roubada

por Kevin Rick
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A real Rock’n’Rolla wants the fucking lot!

Depois da falta de sucesso do estranho (ainda que interessante) Revólver e do tenebroso/horripilante/nauseante Destino Insólito, o cineasta Guy Ritchie decidiu retornar às suas raízes do subgênero de comédia britânica criminosa com Rock’n’Rolla: A Grande Roubada. Voltando às suas histórias sobre ambição, dinheiro e trapaças, Ritchie está confortável em uma narrativa de múltiplos degenerados que ocasionalmente se encontram, atrapalham e produzem situações que afetam os eventos da obra até a culminação do clímax. Aliás, eu diria que Ritchie está um tantinho confortável demais, buscando repetir seu sucesso anterior por causa das obras mal recebidas, fazendo com que Rock’n’Rolla: A Grande Roubada não seja tão original quanto Snatch e Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, mas uma espécie de autoparódia.

Esse viés mais cômodo, até acanhado de Ritchie, pode ser visto em várias situações do filme em que o diretor britânico tenta deixar o mais evidenciado possível que esta obra se parece com seus sucessos iniciais: a extensa montagem didática do começo da obra quebrando a quarta parede, o destaque elevado da fodástica música-tema I’m a Man, o submundo do crime na fotografia suja; tudo em um mini-filme de cinco minutos antes mesmo da história se desenrolar normalmente. É quase um testamento de Ritchie que ele retornou a sua forma. Pode parecer que meu argumento é confuso, considerando que estou basicamente falando do forte lado autoral de Ritchie, sempre estilizado e exagerado, como pode ser visto em filmes posteriores, mas Rock’n’Rolla: A Grande Roubada é bem mais uma repetição sarcástica – até comicamente desesperada, eu diria – do molde do diretor britânico, do que uma nova história em seu estilo habitual, daí a autoparódia.

Isso acaba sendo uma faca de dois gumes no filme de Ritchie. Em um primeiro instante, o longa soa como mesmice menos criativa do cineasta, considerando como ele pega a mesma fórmula – o ambiente criminoso, um macguffin, a montagem rápida, etc – e desenvolve de maneira menos criativa do que em seus dois primeiros filmes, com seu tom mais didático, personagens clichês e situações menos absurdas. É quase um filme “menor” do diretor, menos estilizado, peculiar e surpreendente. Todavia, ainda é uma fórmula que só ele sabe fazer, não? Por isso acaba sendo uma paródia particular do diretor, e justamente por isso ganha um caráter irônico no humor que salva a obra de ser apenas uma reciclagem.

Podemos ver essa ironização, por exemplo, quando conhecemos o Wild Bunch, um grupo de bandidos de baixo escalão composto principalmente por Gerard Butler, Tom Hardy e Idris Elba – olha esse trio! -, onde Ritchie ironiza bastante a masculinidade dos personagens. Ele utiliza muito bem os contrastes do machismo de One Two (Butler) ao descobrir que Handsome Bob (Hardy) é gay, ou então o teor de machão do próprio Butler com a dominadora Stella (Thandie Newton), como meio de tirar sarro do personagem e da masculinidade tóxica. Existem outras ótimas piadas nesse sentido, como quando Butler zoa um russo com movimentos fálicos, e em seguida se vê em uma posição de submissão ao mesmo, ou a autoconfiança do personagem durante uma dança ridícula. Butler é muito divertido neste filme, interpretando contra seu arquétipo.

Nessa ideia de autoparódia e ironias, Ritchie cria um ótimo humor com a tirada de sarro de outros estereótipos, como o russo imortal, o gângster canastrão (Tom Wilkinson, um poço de desprezo humano cômico) e a femme-fatale desengonçada de Thandie Newton. Acaba sendo, talvez, até mais divertido que Snatch se pensarmos em cenas específicas, como a das danças (One Two com Bob, e One Two com Stella), a perseguição dos russos e Archie (Mark Strong) encontrando One Two prestes a ser torturado – curioso como todas envolvem Butler, não? Infelizmente, a obra começa a perder força nesse tom de paródia da metade pra frente quando foca no personagem-título do longa, o rock’n’rolla Johnny Quid (Toby Kebbell). Tentando criar uma experiência de exageros da “filosofia rock’n’rolla“, até mais realisticamente dramático (elemento que Ritchie é péssimo) com a questão de violência paterna, a narrativa sofre uma mudança drástica de encadeamento ao simplesmente ignorar o Wild Bunch para dar espaço para o rockeiro inconveniente e mimado.

As piadas de drogas, excessos e rock’n’roll mantém uma regularidade do humor até o ato final, mas Rock ‘n’ Rolla vai perdendo seu carisma e a ironia com o arco maçante de Johnny, tanto pela interpretação cansativa e maneirista de Toby quanto pela falta de equilíbrio de Ritchie na montagem de diferentes blocos, como dos ex-empresários de Quid (Jeremy Piven e Ludacris) que não impactam a trama, e deixam o clímax mal montado com a junção de todos. Ironicamente, pensando na linguagem de Ritchie, é um filme que se beneficiaria de menos personagens, pois é um longa extremamente divertido na dinâmica do Wild Bunch e nas ironias com clichês e convenções do própria filmografia do cineasta britânico, mas que infelizmente não se compromete ao fantástico trio de Butler, Hardy e Elba, até mesmo escanteados no desfecho do filme. Ainda assim, há muito a gostar na mesmice e autoparódia de Ritchie.

Rock’n’Rolla: A Grande Roubada — Reino Unido, França, EUA, 2008
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie
Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Mark Strong, Idris Elba, Tom Hardy, Toby Kebbell, Jeremy Piven, Chris Bridges, Gemma Arterton, Karel Roden
Duração: 114 min.

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