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Crítica | Roleta Chinesa

por Luiz Santiago
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Sátira política ou jogo social disfarçado de thriller? Um horror de pequeno porte ou um exagerado drama familiar que ironiza o matrimônio e o conflito de gerações entre pais e filhos? Estas são as perguntas mais comuns daqueles que buscam entender Roleta Chinesa de forma rápida e simples; perguntas que infelizmente trarão bem pouco da riqueza do filme, que não é uma obra-prima mas é uma das melhores direções de Fassbinder.

O que torna Roleta Chinesa pouco atrativo, na verdade, é o roteiro. E essa visão ainda permanece quando tomamos como ponto de vista a interessante guinada dos então recentes “enredos de um ator só” do cineasta (Amor e Preconceito, O Direito do Mais Forte é a Liberdade, A Viagem de Mãe Küster para o Céu, Medo do Medo) para um modelo de textos onde o elenco inteiro recebia grande atenção (O Assado de Satã e este Roleta Chinesa), fase onde o diretor se desafiou a aplicar sua excelente veia crítica e bons diálogos a um número bem maior de personagens, gerando muito mais conflitos e abrindo portas para inúmeros significados.

Diante dessa variedade de caminhos a serem seguidos, é legítimo dizermos que o roteiro de Roleta Chinesa falha como entretenimento fílmico, mas isso não significa que ele seja vazio ou mal escrito. Acontece que a reclusão da família na casa de campo e a interiorização dos impasses entre eles chega em um ponto que se autoanula, tornando algumas sequências realmente vazias dentro do todo da obra.

Mas a história muda se falarmos da direção e da fotografia da fita. Pensados milimetricamente, esses dois elementos técnicos fazem de Roleta Chinesa um inacreditável exercício de uso do espaço, direção de atores -– contando o seu teatral trânsito em cena, ou seja, a literal mise-en-scène, realizada com perfeição –-, a bem equilibrada e ritmada montagem e a fotografia, não só pelo elogiável trabalho com cores em três tonalidades dominantes (uma quente, uma neutra e uma fria), mas pelos ótimos ângulos e movimentos escolhidos ao longo do filme, com destaque para a inesquecível cena entre o casal Christ após o primeiro tiro ser disparado na casa.

A “roleta chinesa” do título é uma espécie de “jogo da verdade”, onde uma pessoa previamente escolhida pelo grupo deverá ser “descoberta” por todos apenas através de suas respostas a perguntas como: se esta pessoa fosse uma moeda, qual seria?; ou, se pintasse um quadro, que imagem veríamos?; ou ainda, quem seria esta pessoa no Terceiro Reich? A sátira política e as indicações de crítica social estão, em sua maior parte, centradas nesta reta final da obra. Fassbinder, que já tinha ironizado o casamento e o adultério no início, torna as relações humanas ainda mais frágeis do que já estavam, quase emulando um ambiente semelhante ao de A Regra do Jogo (1939) e apresentando mais e mais motivos para a tragédia que se daria a seguir.

O elenco do filme está soberbo, cada um destacando-se eu seus papeis cheios de maneirismos, olhares falsos, movimentos suspensos e afetações vocais ou de gestos. Essas características ajudam a criar a batalha psicológica que é travada na casa (existem vários jogos acontecendo ao mesmo tempo: sociais, matrimoniais, políticos, e os que servem de ponte simbólica para estes jogos de relações humanas, como o xadrez e a roleta chinesa).

A tragédia final é o expurgo de uma insatisfação presa e incitada pela filha do casal protagonista, a quem Fassbinder não poupa, atribuindo o papel de núcleo de crueldade, mexendo aqui e ali com as emoções de todos na casa, confrontando-os ou colocando-os em situações onde o comportamento natural de cada um “faria o serviço”.

A ironia volta ao final, com a procissão e os votos de casamento estampados na tela, uma última cena marcada pelo mistério de um tiro que não vemos, o mistério possivelmente trágico para uma família aparentemente normal, algo bem diferente daquilo que imagináramos nos primeiros minutos do longa. No final das contas, nem descobrimos o elo fraco e nem temos pistas sobre a verdade. O diretor joga roleta chinesa com o público e o “indivíduo frágil” escolhido por ele está do outro lado da tela, tentando dar significado a tudo o que acaba de ver.

Roleta Chinesa (Chinesisches Roulette) — Alemanha Ocidental, 1976
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Anna Karina, Margit Carstensen, Brigitte Mira, Ulli Lommel, Alexander Allerson, Volker Spengler, Andrea Schober, Macha Méril
Duração: 86 min.

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