A segunda temporada de Roma é uma obra marcada pela urgência. Se o primeiro ano era uma crônica lenta e densa da decomposição da República, o segundo funciona como um épico em aceleração, comprimindo décadas de eventos históricos em dez episódios que avançam com a brutalidade de quem sabe que o tempo está acabando. E, de fato, estava. Cancelada prematuramente, a série precisou condensar seu projeto original que atravessaria com calma o período do Segundo Triunvirato até a ascensão definitiva de Augusto em uma temporada que carrega, ao mesmo tempo, a grandiosidade de um desfecho e as cicatrizes de uma obra interrompida.
Isso não significa, contudo, que a segunda temporada seja menor, apesar de ter sim suas irregularidades. Pelo contrário: ela é mais sombria, mais violenta e mais desesperançada. Se a primeira mostrava o fim de um sistema, a segunda trata do que vem depois e a resposta é clara: não há redenção, apenas rearranjo do poder. A morte de César, que encerrava o primeiro ano como um ponto de ruptura histórico, aqui é apenas o início de um mundo ainda mais cruel.
O episódio de abertura estabelece esse tom com precisão. Não há luto épico, apenas confusão, medo e oportunismo. Brutus retorna para casa tremendo, não como herói republicano, mas como homem que entende, tarde demais, o peso do que fez. Marco Antônio emerge do Senado atordoado, imediatamente ameaçado por inimigos que farejam fraqueza. A promessa de restauração da República soa oca desde o primeiro minuto. Roma deixa claro que César não morreu para salvar o sistema, morreu porque o sistema já estava morto.
Marco Antônio assume o centro da temporada como figura trágica. Diferente do César pragmático do primeiro ano, Antônio é governado por impulsos, lealdades pessoais e uma crença quase infantil no carisma como ferramenta política. Sua tentativa de governar Roma por meio de anistias, acordos e gestos simbólicos revela-se rapidamente insuficiente. Ele não entende ou se recusa a aceitar que o jogo mudou. A República não pode mais ser “equilibrada”; precisa ser substituída. Nesse vácuo surge Otaviano.
Talvez o maior triunfo narrativo da segunda temporada seja a transformação de Otaviano. O garoto doente, manipulável e observador do primeiro ano dá lugar a uma das figuras mais friamente calculistas da televisão. Não há transição gradual: há um salto brusco, quase desconfortável, que espelha o próprio processo histórico. Otaviano não amadurece emocionalmente; ele endurece. Aprende rápido que poder não se exerce com afeto, mas com controle. As proscrições, a lista de inimigos entregue a Vorenus, a execução de Cícero pelas mãos de Pullo, tudo isso não é apresentado como vilania explícita, mas como eficiência política. Roma tem a coragem de mostrar que o Império nasce não do caos, mas da administração fria da violência.
Esse movimento político ecoa diretamente na trajetória de Lucius Vorenus, talvez o personagem mais devastado da série. Se no primeiro ano ele era o homem deslocado em um mundo em transição, aqui ele se torna o homem quebrado. A perda de Niobe e a suposta morte dos filhos o esvazia por completo. Vorenus já não acredita nos deuses, na República ou na família. Sua ascensão como líder do submundo do Aventino não é empoderamento, mas abandono. Ao declarar-se “Filho de Hades”, ele não desafia os deuses, apenas aceita que nada mais pode lhe ser tirado. É um arco brutal, coerente e profundamente trágico.
Titus Pullo, mais uma vez, funciona como contraponto. Sua jornada nesta temporada é menos política e mais emocional, marcada pela tentativa de construir algo simples em meio ao colapso geral. O casamento com Eirene oferece a ilusão de estabilidade, apenas para ser arrancada de forma cruel e abrupta. A morte de Eirene e do filho transforma Pullo em algo diferente: não mais apenas o sobrevivente instintivo, mas um homem esmagado pela perda. Ainda assim, é ele quem, no final, preserva o futuro ao salvar Caesarion. Pullo não muda o curso da História, mas salva um fragmento dela e isso é o máximo que Roma permite a alguém como ele, ainda com os ótimos toques de ironia do texto.
Atia e Servília levam sua guerra pessoal a um nível quase mitológico. O conflito entre as duas, que no primeiro ano tinha contornos políticos e sociais, aqui se transforma em uma espiral de humilhação, tortura e maldição. A violência cometida contra Servília é um dos momentos mais perturbadores da série, não apenas pelo ato em si, mas pelo que ele representa na política romana despida de qualquer verniz civilizatório. A maldição final de Servília e seu suicídio não são gestos melodramáticos, mas o encerramento simbólico de uma era. Com ela morre a ilusão de que a vingança pessoal pode equilibrar a balança histórica.
Cleópatra e o Egito surgem como o último suspiro de um mundo onde prazer, política e espetáculo ainda se misturam sem vergonha. A Alexandria retratada por Roma é decadente, luxuriosa e desesperada, um reflexo perfeito de Marco Antônio. Seu suicídio, assim como o de Cleópatra, não carrega grandeza romântica. São atos de fuga.
O episódio final, De Patre Vostro, condensa de forma quase cruel tudo o que a série vem dizendo desde o início. Otaviano vence não por ser mais justo, mas por ser mais paciente. Vorenus morre não como herói republicano, mas como pai reconciliado — um gesto íntimo, não histórico. E Pullo, o homem que nunca acreditou em grandes narrativas, torna-se o guardião da verdade sobre César para uma criança que não pode conhecê-la. É um encerramento agridoce, melancólico e profundamente humano.
A segunda temporada de Roma sofre, sim, com o ritmo acelerado imposto pelo cancelamento. Alguns arcos pediriam mais tempo para respirar; certas transições políticas acontecem rápido demais. Ainda assim, o que a série entrega é notável: um retrato implacável do nascimento do Império como consequência direta da falência moral, política e social da República. Ao fim, Roma não celebra vencedores. Ela observa sobreviventes. Mostra que a História não é feita apenas por grandes homens, mas esmagando vidas comuns no processo. A primeira temporada nos ensinou como uma República morre. A segunda nos mostra algo ainda mais desconfortável, como um Império nasce e porque ele parece, para muitos, uma solução.
Roma (Rome) – 2ª Temporada — EUA, 2007
Criação: John Milius, William J. MacDonald, Bruno Heller
Direção: Alik Sakharov, Allen Coulter, Alan Poul, Tim Van Patten, Steve Shill, Adam Davidson, Roger Young, John Maybury, Carl Franklin
Roteiro: Bruno Heller, Eoghan Mahony, Scott Buck, Todd Ellis Kessler, Mere Smith
Elenco: Kevin McKidd, Ray Stevenson, Polly Walker, Ciarán Hinds, Lindsay Duncan, Tobias Menzies, Kerry Condon, Indira Varma, David Bamber, Max Pirkis, Lee Boardman, Nicholas Woodeson, Suzanne Bertish, Paul Jesson, James Purefoy, Guy Henry, Allen Leech, Simon Woods
Duração: 570 min. (10 episódios)
