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Crítica | Rota Suicida

por Luiz Santiago
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Inicialmente pensado para ter Marlon Brando e Barbra Streisand nos papéis principais (sendo Brando depois “substituído” por Steve McQueenRota Suicida acabou com o seu próprio diretor, Clint Eastwood, ao lado de Sondra Locke, vivendo o casal protagonista que empreende uma fuga da polícia organizada por um Comissário corrupto e aliado à máfia de Las Vegas.

Na trama, Ben Shockley (Eastwood) é um policial alcoólatra da cidade de Phoenix. Sua “presença insignificante e dispensável” na Força é que faz o Comissário Blakelock (William Prince) atribuir-lhe a tarefa de acompanhar a testemunha Augustina “Gus” Mally (Locke) que é um é um alvo para a máfia. O roteiro começa nos dando uma boa representação do policial durão e largado vivido por Eastwood, e então liga esse personagem à mulher que deveria acompanhá-lo em toda a perigosa viagem até Phoenix, uma relação que começa de forma bastante agressiva e pouco a pouco amolece o coração da dupla, à medida que os perigos se tornam maiores em suas vidas.

Numa primeira camada, podemos falar de Rota Suicida como uma “estressante terapia” para Shockley, que apenas nesse momento de crise, onde sua vida está em risco, é que ouve de alguém o que ele realmente é… e o motivo pelo qual foi escolhido para esta missão destinada a dar errado. Não significando nada para a polícia, sendo um policial dispensável, bêbado, pouco relacionável, sua morte seria apenas uma “fatalidade da profissão“, mas não tiraria o sono de ninguém. E essa colocação opera algo nos sentimentos de Shockley, tanto em relação à bebida, quanto em relação à mulher que o confrontou com essa exposição da realidade.

Todavia, o impacto psicológico e comportamental que essa missão tem para o protagonista — fazendo-o atar um laço inesperado, mesmo após um início agressivo e meio infame em relação à mulher — coloca-o em uma crise institucional e afeta a sua visão do trabalho e de alguns membros da Força policial (aqui representada numa linha militarizada), discutindo um tema que sempre vem à tona quando se problematiza o uso da força — ou qualquer tipo de decisão de poder sobre alguém ou alguma coisa — num caráter puramente absurdo, ilegal e motivado por interesses próprios. A crítica à obediência cega.

A luta pela vida que essa rota traz para o personagem, e que é repleta de instigantes cenas de ação e fuga, bons efeitos e momentos de excelente uso de trilha sonora, tem também as suas inconstâncias na interação entre Shockley e a polícia, além de uma segmentação que começa bem (com as paradas no meio do caminho) mas depois perde o bom encadeamento, voltando à organicidade quando o o ônibus entra em cena. E sobre a sequência final, devo dizer que não sou o tipo de espectador e muito menos crítico que vive de cobrar ultrarrealismo do cinema. Eu jogo com o que o Universo da obra me apresenta e com aquilo que eu interpreto ser possível ou não aceitar dentro desse Universo. Dito isto, é absolutamente inconcebível a maneira como o diretor orquestra a entrada do ônibus na cidade.

A disposição dos policiais nos prédios e nas ruas, mais o ótimo exercício de direção ao filmá-los em diferentes planos e espaços de ação, inclusive quando o ônibus para, é algo que se destaca com facilidade e que talvez Eastwood tenha tirado inspiração de Sidney Lumet, em Um Dia de Cão, lançado dois anos antes. Mas o fato de os pneus daquele ônibus não terem sido acertados logo na primeira rua é uma das coisas que não dá para aceitar, mesmo considerando a necessidade de certa suspensão da descrença para que determinadas tramas possam avançar e tenham o poder de impactar o público. Ora, esse processo a gente já tinha aceitado nas cenas com o helicóptero! E na sequência com os motociclistas. E na sequência da casa à beira da estrada. Os limites e escolhas ali expostos podem tranquilamente ser aceitos dentro desse Universo, mesmo não sendo realistas. O mesmo não acontece com o desfile do ônibus e praticamente um Exército de Stormtroopers trabalhando naquela operação.

A completa conexão entre os personagens se dá de modo esperado e interessante no desfecho do filme, com algum exagero e estupidez em torno deles, mas que para o efeito pretendido — e diante do que se tinha mostrado do Comissário até então –, esperado. Um final romântico para uma ação construída na base do morde-e-assopra e de tensão à toda prova.

Rota Suicida (The Gauntlet) — EUA, 1977
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Michael Butler, Dennis Shryack
Elenco: Clint Eastwood, Sondra Locke, Pat Hingle, William Prince, Bill McKinney, Michael Cavanaugh, Carole Cook, Mara Corday, Doug McGrath, Jeff Morris, Samantha Doane, Roy Jenson, Dan Vadis, Carver Barnes, Robert Barrett
Duração: 109 min.

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2 comentários

Jordison Francisco 22 de junho de 2020 - 10:59

Um bom filme policial e clássico dos anos 70, estrelado pelo astro “Clint Eastwood” e a bela loira, a atriz “Sondra Locke”.
A atriz foi casada com “Eastwood” e também participou de vários filmes de sucesso ao lado dele nos anos 70 e 80.
Além dos protagonistas, o filme ainda conta com bons nomes da época, como o ator “Pat Hingle”, “Michael Cavanaugh” (os dois atores voltariam a participar dos filmes da série “Dirty Harry) e o veterano ator “William Prince”.
“Rota Suicida” é o típico filme com a cara do “Eastwood” dos anos 70. Policial honesto, linha dura e que não dá moleza pra bandido e corrupto.
Se o filme fosse rodado nos dias de hoje, renderia uma porção de críticas da “turma” do politicamente correto.
O filme tem algumas boas cenas de ação, tiroteio e perseguição, mas nada se compara a cena final do ônibus passando pelas ruas de Phoenix até chegar ao Tribunal de Justiça.
Cena tensa e ao mesmo tempo, surreal!!!
A direção do filme ficou a cargo do próprio “Clint Eastwood”.

Primeiro filme policial dirigido pelo Clinton. A semelhança com Dirty Harry é evidente e de fato dava pra se passar como um filme da franquia, se fazendo alguns ajustes aqui e ali.

Esse é um filme interessante do Clint, um bom roteiro com excelentes diálogos (como comentou o Ciro Macedo), no entanto, o estereotipo do policial durão incorporado no personagem Dirty Harry reaparece sem modificações, além disso as cenas de ação longas e exageradas se tornam surreais e a caracterização dos vilões deixou a desejar. De qualquer forma, vale a pena conferir, o Clint é sempre carismático e a Sondra muito sedutora.

E eu creio que ele quis dirigir este aqui antes como laboratório para então partir de vez para direção na icônica franquia, coisa que ele fez com sucesso, na minha modesta opinião.
Há também algumas semelhanças com ”Meu Nome é Coogan”, agora isto também é meio óbvio, uma vez que é sabido que Don Siegel foi talvez o maior mestre que ele teve como diretor.
Assim como ”Escalado Para Morrer”, gosto da forma como ele aborda os cenários do Arizona. Só creio que faltou usar mais a parte urbana de Las Vegas.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de junho de 2020 - 13:38

Esse negócio do conteúdo politicamente incorreto é uma constante nos primeiros filmes do Eaastwood. Escalado Para Morrer tem isso bem mais forte do que aqui. E é como qualquer tipo de humor, às vezes funciona, às vezes é uma merda. O problema de ser politicamente incorreto é que não é um recurso de narração que cabe ser usado gratuitamente, porque fica a apelação pela apelação. Aqui, por pior que seja a questão em si, é majoritariamente bem utilizado, considerando esse Universo, esse cenário, esse contexto.

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