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Crítica | Roverando, de J. R. R. Tolkien

As muitas aventuras de um cachorrinho.

por Luiz Santiago
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Roverando foi um dos livros de J. R. R. Tolkien que mais tempo demorou para conseguir o seu lançamento oficial. O autor escreveu esta simpática novela infantil em 1925, para consolar o filho Michael que perdeu um cachorrinho de brinquedo na praia e não conseguiu mais encontrá-lo. Em 1937, o autor submeteu o livro para publicação, mas o volume acabou sendo recusado. Depois disso, só no ano de 1998 foi que a obra finalmente ganhou publicação, no Reino Unido, pela HarperCollins, sendo também lançado aqui no Brasil pela mesma editora, sob o selo HarperKids

A história do cãozinho Rover nos é contada aqui de maneira muito divertida, através de uma narração que está o tempo inteiro interferindo (às vezes até demais e com comentários que nem sempre ajudam a fluidez da história), deixando-nos a par dos acontecimentos com os personagens, e de seus sentimentos, pensamentos e desejos, especialmente os do cachorro protagonista. Conta-se que certa tarde Rover estava brincando com sua bolinha, quando um mago mal-humorado passou por ele. O cão correu atrás do homem, rasgando-lhe a calça com uma mordida. Irritado, o mago Artaxerxes, que era da Pérsia, mas havia se perdido e desde então vivia em Pershore, transformou Rover em um cãozinho de brinquedo, abrindo as portas para a grande aventura que veremos se desenvolver no livro.

Uma das coisas que constantemente nos encanta nos livros de Tolkien é a forma como o autor se utiliza de diversas referências, não só de seu Universo (ou Universos similares), mas de diversas criações culturais e literárias, seja direta ou indiretamente mostradas nas páginas dos livros. Aqui, por exemplo, nós temos, dentre outras coisas, alusões e referências à historinha do Soldadinho de Chumbo, ao mago Merlin, a dragões brancos e aranhas gigantes, à Atlântida, à mitologia grega (quando falamos do mago do mar) à mitologia nórdica (Jörmungandr) e principalmente o Ouroboros, quando falamos da Grande Serpente que mora em uma caverna no fundo do mar, conforme descobrimos na parte final do livro.

Desde que foi transformado, Rover (que ganha o nome de Roverandom em sua estadia na Lua) passa a viver aventuras que têm o poder de mudá-lo para sempre. Em uma esfera, o autor trabalha a perda — do ponto de vista das pessoas que perdem o cachorrinho –, mas ao mesmo tempo também explora a esfera da transformação, por parte do animal, que conhece novos lugares, aprende bons modos, descobre algumas maravilhas da Lua e do mar, e acaba dando muito mais valor ao seu status como cão depois de atravessar todas as dificuldades e as eventuais coisas boas que elas trazem no meio do caminho.

Conforme comentei antes, a narração às vezes atropela certos momentos do texto ou corta uma cadeia de narrativa que não deveria ser cortada. Além disso, eu constantemente tive a impressão de que tanto na viagem à Lua quanto na viagem ao mar, o autor acabou estendendo demais a corda. Ambas as partes começam e se desenvolvem muito bem, mas a partir de determinado momento parece que ganham camadas apenas para constar no diário de viagem de Rover, porque são coisas que não acrescentam tanto quanto deveriam.

Apesar de o livro sempre manter o seu charme e a nossa atenção, essa forçação dramática torna o texto enjoativo na parte final das duas grandes viagens do personagem. Já no desfecho, quando Rover recobra a sua forma original (embora alguns meses mais velho) e o narrador faz uma breve passagem por todos os aprendizados e o atual momento do personagem, o tom e o tempo de construção do texto são muito bem pensados e ajudam a encerrar o livro em uma ótima nota, como uma bela história sobre perder-se, crescer, aprender e descobrir coisas novas, para finalmente encontrar-se e, então… ser encontrado.

Roverando (Roverandom) — Reino Unido, 1998
Autor: J. R. R. Tolkien
Publicação original: HarperCollins
No Brasil: HarperKids (HarperCollins Brasil), 2021
Tradução: Rosana Rios
160 páginas

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