Crítica | Ruby Sparks – A Namorada Perfeita

Nós, seres humanos, somos muitas vezes, seres bastante paradoxais. Há eras a literatura, o teatro, as lendas, os mitos, o cinema e as séries televisivas nos reforçam que não há perfeição na humanidade. Os textos bíblicos retratam isso, bem como a nossa realidade cotidiana. No entanto, mesmo diante da impossibilidade comprovada de um ser humano perfeito, insistimos nessa busca incessante e que geralmente nos leva ao fracasso. Há um caso bem elucidativo nos meandros da mitologia grega: a trajetória de Pigmaleão.

A história é contada da seguinte maneira: Pigmaleão, rei da ilha de Chipre, era um habilidoso escultor. Ele se manteve recluso por muito tempo, pois considerava o comportamento das mulheres locais obsceno, haja vista a presença de muitas cortesãs. Certo dia, cansado de tanto esperar a perfeição em uma mulher, decidiu construir a sua própria criatura, idealizada, linda e perfeita. No entanto, havia um problema. Por mais que ele a enchesse de joias, a relação deles era fria, pois a sua amada, feita de marfim, nomeada Galatéia, era uma escultura sem vida.

Insatisfeito, Pigmaleão continuou a sua saga melancólica à espera de uma amada. Numa oportunidade, insistiu para que Afrodite lhe concedesse uma mulher à imagem e semelhança de sua escultura. A deusa, depois de muito procurar, desistiu diante da impossibilidade de encontrar uma mulher tão perfeita. Assim, diante de seus poderes, transformou a escultura numa mulher, para a alegria de Pigmaleão, homem sortudo que teve dois filhos e uma família feliz com a amada.

Na contemporaneidade, o mito continua tão vivo e intenso quanto as chamas que iluminavam os corredores dos templos nas noites destas suntuosas “fábulas da humanidade”, lidas por campos como a filosofia e a psicologia, interpretado como o efeito das pessoas que colocam as suas expectativas diante das atitudes do “outro”. O cinema, em diversas ocasiões, utilizou essa história, ilustrada de maneira eficiente em Ruby Sparks – A Namorada Perfeita, dirigido pela dupla formada por Valerie Faris e Jonathan Dayton, responsáveis pelo elegante Pequena Miss Sunshine.

Guiados pelo roteiro de Zoe Kazan, os cineastas contam para o público a seguinte história: Calvin Weir-Fields (Paul Dano) é um jovem cheio de expectativas. Depois de publicar um romance bem sucedido nas críticas especializadas e nas vendas, ele desenvolve um bloqueio criativo que pode colocar a sua carreira na berlinda. Em meio ao enorme volume de piadas que gravitam em torno de uma atmosfera agradável e repleta de tiradas inteligentes, o personagem sem rumo se compara constantemente ao escritor J. D. Salinger, conhecido pelo canônico O Apanhador no Campo de Centeio, autor que logo depois do prestígio de sua obra “máxima”, escreveu apenas histórias “menores” ou pouco reconhecidas pela crítica e pelo público.

Em meio a busca do amor e da inspiração no seu laboratório de criação artística, Calvin precisa lidar com as piadas infames do irmão Harry (Chris Messina), e com a postura caricata do padrasto Mort (Antonio Banderas) e da divertida Gertrude (Annette Bening), sua mãe. Preocupado com o andamento do seu novo projeto de escrita, o jovem decide ir para terapia. O seu psicólogo solicita que o herói branco, heterossexual, solitário e deprimido supere o bloqueio com a seguinte atividade domiciliar: desenvolver um personagem e narrar como seria um encontro entre os dois. Ao esboçar, apresenta ao irmão. Harry debocha de sua falta de bom senso, pois a personagem parece impossível de existir na vida real. Calvin, ainda assim, dá continuidade ao seu labor.

Eis que surge a personagem arquétipo em sua vida: Ruby Sparks (Zoe Kazan). Ela é como as imagens primordiais, primitivas e repetitivas do inconsciente coletivo, conforme a definição de arquétipo de Carl Jung. Ela aparece como inspiração para o personagem masculino rumo ao seu processo evolutivo, enquanto se mantém rasa e plana na narrativa, numa anemia dramatúrgica profunda. Em alguns momentos é excêntrica, já em outros, bem comportada. Secundária, sua tarefa é fazer o homem feliz. Inicialmente ela o diverte, cuida dos afazeres domésticos e leva para “cair” no mundo, espaços bem representados pelo cuidadoso design de produção de Judy Becker, captado pela eficiente direção de fotografia de Matthew Libatique.

O problema é que num determinado dia, Ruby Sparks percebe que Calvin não é o cara que mantém as características essenciais para a sua existência. Por isso, a criação se torna um caos na vida do rapaz que brinca de Deus, pois a cada mudança de comportamento, ele reescreve a personagem, interessado no atendimento aos seus anseios, afinal, a sua função não é tirá-lo da estagnação e fornecer novo significado a sua vida?

Geralmente meiga, feliz, perfeita e superficial, a sua função dramatúrgica é servir de acessório para as necessidades do protagonista, tendo como missão lhe apresentar o mundo, no intuito de transforma-lo. Uma das vantagens do filme é buscar não explicar cientificamente ou por meio de outro subterfúgio, as origens da personagem. Seria lutar com as palavras, e, tal como dito por Drummond no famoso poema metalinguístico, lutar com as palavras é uma luta vã.

Aos espectadores com boa bagagem cultural, Ruby Sparks – A Namorada Perfeita traz relações, propositais ou não, com outros filmes, bem como discussões conceituais oriundas do campo da realização cinematográfica. No que tange aos referenciais, o maior destaque talvez seja o “tom” de realismo fantástico semelhante ao divertido Manequim, dos anos 1980, comédia sobre um rapaz envolvido com a saga de um manequim de vitrine que ganha vida após o expediente da loja em que está alocado. Já no campo conceitual, a narrativa é construída com base nas personagens femininas que se encaixam no perfil MDPG: Maniac Pixie Dream Girl.

Diante do exposto, o questionamento: o que são, afinal, as garotas enquadradas no MDPG? Basicamente, elas são personagens femininas que enaltecem o ego dos protagonistas masculinos. Cunhado pelo ensaísta Nathan Robin, na ocasião do lançamento da comédia romântica Tudo Acontece em Elizabethtown, o termo surgiu com a análise da aeromoça Claire (Kirsten Dunst), jovem interessada em ajudar o melancólico Drew (Orlando Bloom), cabisbaixo com o falecimento do pai e com o fracasso de seu empreendimento profissional.

Sem o que os escritores chamam de background story, tais personagens são tolas e descartáveis depois que cumprem as suas funções de atender as demandas psicológicas e sentimentais dos seus pares masculinos. É como uma passagem do polêmico “personagem histórico” Napoleão Bonaparte, ao afirmar que “a natureza quis que as mulheres fossem nossas escravas”, reiterando que “elas são nossas propriedades, nós não somos as delas”, afinal, “elas nos pertencem, assim como uma árvore frutífera pertence ao jardineiro”, pois “que ideia insana exigir igualdade para mulheres”. Em sua análise, as “mulheres não são nada além de máquinas de produzir crianças”.

Óbvio que o excerto precisa ser pensado dentro de uma conjuntura histórica cheia de especificidades, pois é uma fala de um momento da humanidade que culturalmente as ideias convergiam para esse tipo de doutrina. A criatura erguida por Calvin, no entanto, foge dessa padronização constantemente, tendo que ser manipulada pelo escritor cotidianamente. Calvin, ao elaborar o projeto de uma namorada perfeita, jamais imaginou que a sua criação seria induzida, instintivamente, a fugir da padronização de mulheres. Ela é diferente de Kate Hudson, em Quase Famosos, e de Natalie Portman, em Hora de Voltar. Ela é Ruby Sparks, a personagem que representa uma crítica bem humorada aos estereótipos femininos que a indústria hollywoodiana precisa de uma vez por todas parar de usar.

Ruby Sparks – A Namorada Perfeita — (Ruby Sparks) Estados Unidos, 2012.
Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris
Roteiro:  Zoe Kazan
Elenco:  Aasif Mandvi, Alia Shawkat, Annette Bening, Antonio Banderas, Barrett Perlman, Chris Messina, Deborah Ann Woll, Diana Parros, Eleanor Seigler, Elliott Gould, Jane Anne Thomas, John F. Beach, Joshua Wilburn, Lindsay Fishkin, Marco Tazioli, Mark Roman, Paul Dano, Rightor Doyle, Steve Coogan, Tatiana Sarasty, Toni Trucks, Wallace Langham, Zoe Kazan
Duração: 106 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.