Crítica | Runaways – 2ª Temporada

Leiam as críticas dos demais episódios de Runaways, aqui.

Após tomar seu tempo (e pagar o preço) em uma 1ª temporada com ares de prólogo, a versão televisiva de Runaways retorna mais confiante para um segundo ano que consegue adereçar praticamente todas as suas limitações anteriores, sem deixar de lado tudo aquilo que já funcionava bem. O resultado é uma adaptação que consegue recriar na tela muito da ambientação e do estilo dos quadrinhos originais de Brian K. Vaughan. Se anteriormente isso já acontecia em termos de caracterização e visuais, é somente aqui que o potencial desses personagens passa a ser aproveitado com a retomada, no âmbito narrativo, do estilo acelerado e imprevisível das aventuras dos adolescentes nas HQs.

Há de ser reconhecido o ótimo trabalho da temporada inaugural em construir um elenco bastante extenso de personagens, com uma complexa rede de relações e com seus respectivos dramas pessoais e familiares – além, é claro, de uma boa dose de ficção científica/fantasia garantindo o “tempero Marvel” ao que poderia, naquele momento inicial, ser facilmente confundido com um thriller policial. Aproveitando-se do trabalho realizado no ano anterior, a atual temporada não deixa dúvidas: estamos vendo uma aventura derivada do gênero super-heróico, com a hipérbole e o surreal movimentando as peças principais de diversas subtramas bem encadeadas.

Parte desse sucesso se deve a um bom ajuste do ritmo narrativo. Toda a construção de personagens efetuada na temporada inicial se deu às custas de restringir a trama a um grande arco alongado, em relação ao qual as diversas subtramas se desenhavam mais como digressões expositivas do que como núcleos e ângulos diferentes sobre uma figura mais complexa. Aqui o formato muda radicalmente, recriando com maestria o pacing narrativo de uma boa fase de quadrinhos. Mini-arcos se encadeiam em um “efeito cascata”, de forma a manter todos os diferentes núcleos ocupados, avançando a trama de maneira bastante orgânica.

A mudança de enfoque das subtramas prioriza o desenvolvimento de personagens, evitando o malfadado “efeito Heroes” que identificamos nas séries estreantes da parceria da Marvel com o Hulu e Freeform. Nas temporadas iniciais de Runaways e de Manto & Adaga, a narrativa aposta pesadamente em um desenvolvimento linear apoiado sobre prenúncios e mistérios. Ao que possa nos contradizer o sucesso das icônicas pinturas de Isaac Mendez em Heroes, o famoso foreshadowing não é um elemento tão importante assim para as tramas super-heroicas. Prelúdios arrastados e grandes profecias estão mais associados aos malfadados “eventos de linha” das duas grandes editoras do que às fases clássicas de seus personagens, as quais costumam ser construídas na sucessão de sub-tramas bem encadeadas.

Trata-se de um efeito bastante simples: a promessa frequente de um grande desfecho ou de mistérios e segredos mirabolantes tende a empalidecer conclusões que, no universo dos superpoderes, dificilmente escapam de se utilizar de roteirismos Deus ex machina quase que por definição. Ao contrário, quando a trama nos conduz sem grandes pretensões através de situações dramáticas instigantes, o desfecho mirabolante vem mais satisfatório e com todo o potencial para nos fisgar para a próxima rodada de aventuras.

Isso se encontra muito bem exemplificado neste segundo ano da série. Herdando da temporada anterior a trama central envolvendo a Igreja de Gibborim e as maquinações do big bad Jonah (Julian McMahon) para desencavar algo das profundezas do subsolo de Los Angeles, a sequência de episódios felizmente evita dispor o conflito inter-geracional entre os Fugitivos e seus pais supervilanescos como um jogo de tabuleiro um-contra-um, preferindo explorar os desenvolvimentos orgânicos dos diferentes núcleos de personagens e inclusive brincar com nossas expectativas de forma bastante eficiente.

Aproveitando-se das bases já construídas, a produção consegue finalmente efetivar nosso grupo de Fugitivos como protagonistas indisputados de sua própria série. Trata-se de uma troca necessária e muito vantajosa: ao invés da narrativa expositiva saturada em torno do Orgulho, o enfoque se desloca para a fuga de seus filhos e sua luta para permanecerem ocultos e lidarem com sua vida nas ruas. “De garotos mimados a super-heróis sem-teto” é a premissa perfeita para a série, e o campo temático no qual todos os mini-arcos se inserem sem se desorientar.

Seria injusto dizer que a caracterização de nossos protagonistas na temporada de estreia foi unidimensional. Porém, com o enfoque na exposição e com uma apreensão ainda desajeitada de suas dinâmicas interpessoais, o estabelecimento desses personagens acabou se apoiando bastante nos arquétipos dos quais eles se servem (o atleta, a gótica, a SJW, o nerd, etc). Aqui, felizmente, todos recebem a oportunidade de se desenvolver por completo, valendo-se inclusive da alternância de pareamentos entre os fatores que compõem a equipe.

Dividindo bem o tempo de tela e a participação no desenvolvimento das tramas, Gert (Ariela Barer), Chase (Gregg Sulkin), Nico (Lyrica Okano) Alex (Rhenzy Feliz), Karolina (Virginia Gardner) e Molly (Allegra Acosta) desfrutam alternadamente de momentos de protagonismo, com seus desenvolvimentos de personagem advindo de forma orgânica e balanceando bem o drama adolescente com o aspecto fantástico das tramas “marvelianas”. Embora os diálogos ainda pequem em alguns momentos, no geral essa frente também passou por melhorias e a sintonia do elenco prova que certos eventos-chave realmente foram melhor encaminhados ao serem relocados para uma temporada mais madura.

Os mini-arcos se sucedem de forma acelerada, sem arrastar as resoluções e os desfechos por mais tempo do que o necessário. Ao invés de gravitar o tempo todo em torno da perseguição promovida pelo Orgulho ou com a ameaça de Jonah, nosso grupo de sobreviventes se vê às voltas com outras ameaças e crises menores, que servem bem ao propósito de desenvolver um desafio gradativo para suas habilidades, sendo ainda bem aproveitadas no panorama geral da narrativa.

Embora traga raros deslizes no que tange ao realismo da trama (em especial no ângulo policial envolvendo Wilder e o grupo corrupto a serviço do Orgulho), de maneira geral a narrativa consegue equilibrar bem seus momentos mais mirabolantes com os aspectos mais “pé no chão”, o que lhe propicia até mesmo exercer sequências de humor de forma muito melhor sucedida do que em seu ano de estreia. Outra frente em que há melhorias são as cenas de ação: tímidas e raras na primeira temporada, finalmente temos aqui um pouco mais de quebra-quebra movido a superpoderes, bem realizado visualmente e com o devido peso dramático.

Por fim, é interessante notar como os produtores seguiram algo que foi apontado fortemente pelo público a respeito da temporada anterior, optando pelo modelo de distribuição direta da temporada, ao invés da exibição semanal – já que neste caso a temporada é tão bem equilibrada que poderia funcionar de ambas as formas, com cliffhangers e resoluções de mini-arcos mantendo a experiência com fôlego mesmo para quem não topar assistir em formato maratona.Trata-se de um bom exemplo de “aprender com os erros”, e mostra potencial para as produções do Hulu em evoluírem e tomarem forma própria com jogadas ousadas, seguindo os moldes da bem-sucedida Agents of S.H.I.E.L.D..

Colhendo os frutos de uma temporada de estreia focada na construção de personagens, o segundo ano de Runaways recompensa o espectador disposto a dar uma segunda chance para a produção realizar finalmente seu potencial e entregar excelentes momentos baseados na obra original das HQs. Evocativa de uma boa fase dos quadrinhos, a temporada entrega arcos variados e desfechos dramáticos o suficiente para finalmente sairmos do terreno dos prólogos e nos divertirmos com esses personagens em versões televisivas bem realizadas. Fica a expectativa por uma eventual terceira temporada nos mesmos moldes!

Runaways – 2ª Temporada – EUA, 21 de dezembro de 2018
Showrunners: Josh Schwartz, Stephanie Savage
Direção: Jeffrey W. Byrd, Ramsey Nickell, Patrick R. Norris, Jeremy Webb, Chris Fisher, Marc Jobst, Allison Liddi-Brown, James Madigan, Ami Canaan Mann, Anna Mastro, Scott Peters, Wendey Stanzler, Stephen Surjik, Larry Teng
Roteiro: Stephanie Savage, Josh Schwartz, Ashley Wigfield, Adrian Alphona, Brian K. Vaughan, Mike Vukadinovich, Quinton Peeples, Warren Hsu Leonard, Tracy McMillan, Kirk A. Moore, Kendall Rogers, Jake Fogelnest
Elenco: Rhenzy Feliz, Lyrica Okano, Ariela Barer, Virginia Gardner,  Gregg Sulkin, Allegra Acosta, Angel Parker, Ryan Sands, Annie Wersching, Kip Pardue, Ever Carradine, James Marsters, Brigid Brannagh, Kevin Weisman, Brittany Ishibashi, James Yaegashi, Julian McMahon, DeVaughn Nixon, Ozioma Akagha, Heather Olt, Patricia Lentz, DeVaughn Nixon, Cody Mayo, Danielle Campbell, Ajiona Alexus, Alex Fernandez, Ric Sarabia, Myles Bullock, Helen Madelyn, Clarissa Thibeaux, Nathan Sutton, Zayne Emory, Jan Luis Castellanos, Marlene Forte, Ryan Dorsey
Duração: 585 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.