Crítica | Sabor da Paixão (2000)

Quando entrevistada para a realização de uma pesquisa em 2009, a cineasta Lucia Murat me afirmou que os clichês  e estereótipos sobre os brasileiros no cinema servem para facilitar uma identificação, para divertir. O problema é quando ele se torna um padrão e deixa de ser clichê para se tornar praticamente uma verdade. Sabor da Paixão, da cineasta Fina Torres, é a versão audiovisual desta afirmação. O filme é divertido, cativante e visualmente atraente, o que não o faz menos problemático no que tange aos meandros da representação. Sabemos que a indústria adora exportação de estereótipos. Vende bem, cria identificação e um visual extravagante para as narrativas.

Você, caro leitor, em sua relação com o audiovisual, provavelmente já deve ter visto o inglês shakespeariano, o estadunidense em guerra e o menino de rua brasileiro. Essas imagens não nascem em laboratório, mas tem como fonte a própria cultura representada. Os brasileiros, por exemplo, projetam uma imagem que permite ao estrangeiro rabiscar o que para eles seria “a nossa cultura”. Sabor da Paixão está cheia delas. Produzido por Alan Poul, num projeto entre Estados Unidos, Espanha e Brasil, o filme tem roteiro assinado pela paulistana Vera Blisi e direção guiada por Fina Torres, uma venezuelana que na época, estava vivendo em Paris. O panorama multicultural realizado antes da análise do filme tem em vista contemplar a quantidade de culturas em movimento nesta comédia romântica, lançada em 22 de setembro de 2000.

O filme conta a história de Isabella Oliveira (Penélope Cruz), uma cozinheira que é dona de um restaurante na Bahia. Ela vê a sua vida ganhar novo rumo quando flagra o seu marido Toninho (Murilo Benício) na cama com outra mulher. O latin lover esbraveja: “eu sou homem, tenho que estar por cima”, numa referência ao título do filme, uma espécie de debate sobre a emancipação feminina. Machista, o moço demonstra insatisfação com a esposa por conta da sua posição no ato sexual, pois conforme aponta a narrativa, Isabella só gosta de estar “por cima”. Insatisfeita, a cozinheira segue para São Francisco, nos Estados Unidos, local onde vai buscar a volta por cima.

Ela consegue com muita garra uma vaga como chef em um restaurante, alçada posteriormente ao posto de professora de culinária, para mais adiante, assumir um programa de televisão. Num clima que emula o mexicano Como Água Para Chocolate, de Alfonso Arau, a narrativa nos apresenta uma protagonista com dotes culinários mágicos, capaz de deixar os homens e o mundo aos seus pés. Um deles é o produtor Cliff Loyd (Mark Feurstein), homem que vai enxergar em Isabella duas oportunidades: um novo produto televisivo que promete ser sucesso e um relacionamento com a exótica e bela mulher latina, uma espécie de fetiche dos estrangeiros leitores de Jorge Amado.

Por falar no escritor baiano, o caldeirão de referências transborda nesta cozinha cinematográfica: além de ter um estilo similar ao filme mexicano, produção que é adaptação do famoso romance homônimo de Laura Esquivel, Sabor da Paixão demonstra ser também a soma de referências organizadas por um leitor de Jorge Amado. Isabella possui traços acentuados de duas mulheres centrais no panorama literário do escritor: Dona Flor e Gabriela. Logo em sua chegada, antes de se tornar famosa, Isabella busca resolver dois problemas: sanar a sua paixão por Toninho e arranjar uma companhia na cidade. Ela entra em contato com a travesti Mônica Jones (Harold Perrineau Jr.), companheira que a ajudará a manter-se firme na cidade.

Como a produção possui as bases das comédias românticas hollywoodianas, não demora, Toninho segue rumo aos Estados Unidos, para disputar Isabella com o produtor televisivo, aprontar todas com o seu machismo e reforçar os estereótipos sobre a malandragem do brasileiro que, desta vez, é um baiano (geralmente são cariocas). O final é o esperado: o rapaz se rende e aceita as imposições da esposa. Ela retorna ao Brasil, todos fazem festa, inclusive o produtor televisivo, um homem que depois de alguns conselhos com a travesti Mônica, demonstra ambiguidade sexual. Entre todos estes conflitos, há rezas, pragas, feitiços que eram para ser reversão, mas por liberdade narrativa, revertem-se, numa espécie de carnavalização do candomblé, além da roupagem multicultural que exalta os velhos exotismos comuns ao Brasil representado no cinema do século XX.

O grande problema deste filme simples é a definição dos protagonistas, mediados dramaticamente apenas pelo sexo. O ideal de eterna felicidade baiana também está presente, sem nenhum espaço para relativização. Numa sociedade que as pessoas tendem a ver as mulheres latinas como exóticas, como se a América Latina fosse uma coisa só, o filme demonstra um amplo feixe que abre espaço para problematizações. Num continente repleto de culturas e países com suas particularidades, o ideal de latinidade absoluta de Sabor da Paixão não convence. Antes de estrear nos circuitos comerciais, a produção foi exibida na seção “Um Certo Olhar”, do Festival de Cannes, espaço onde os realizadores colocam em perspectiva, filmes que se distanciam da seleção principal, numa atitude que acredita-se, promove cineastas pouco conhecidos, em competição com as celebridades do circuito principal. Moral da história: foi visto por bastante gente, visibilidade que contribuiu para a calcificação do olhar estrangeiro.

A trilha sonora é um dos componentes que contribui para o estabelecimento da atmosfera. Organizada pelo italiano Luiz Enrique Bacalov, o material traz Paulinho Mosca reinterpretando alguns clássicos que estão em duas faixas da narrativa: no acompanhamento das imagens e na dublagem de Murilo Benício, ao cantar em alguns momentos do filme. Falsa Baiana, Nos braços de Isabel, Sonho meu, A flor e o espinho, etc. Lenine contribui com O último por do sol; Toquinho com Chorando para Pixinguinha e A tonga da Mironga do Kabuletê; Geraldo Azevedo com Berekekê; Boden Powell com Chão de estrelas; Cly Farnel com Você; e o hino de Dorival Caymmi É Doce morrer no mar. Em suma, tudo muito atraente e irresistível, tal como as sereias da Odisseia.

O problema é similar ao mito enfrentado pelo herói Odisseu, o mergulho por este caminho musical atrativo pode “cegar” os espectadores menos atentos, levando-os ao entretenimento puro e sem reflexão. A montagem de Leslie Jones acopla muito bem uma bela fotografia, tendo como apoio a mencionada trilha sonora, o que faz Sabor da Paixão ser um ótimo entretenimento, mas como já dito, repleto de problemas de representação que pedem um olhar com distanciamento e crítica. Penélope Cruz como uma brasileira nos faz lembrar a protagonista de Lambada – O Filme, uma das narrativas resgatadas pelo documentário Olhar Estrangeiro, de Lúcia Murat. No filme, uma multinacional estadunidense está destruindo toda a floresta amazônica. Um homem malvado zomba dos índios até que uma voz grita do meio da multidão: “Stop!”. “A maquiada e jovem princesa indígena branca” surpreende o homem que diz: “nossa, você sabe a minha língua”.

Com seu vestidinho de malha e frondosos cabelos negros, a moça se inscreve em um concurso de lambada e vai para os Estados Unidos, tendo em mira utilizar a televisão como canal para manifestar a sua indignação. As personagens são diferentes, mesmo que tenha direcionado o seu destino para o território estadunidense, tendo em vista mudar as suas respectivas realidades. Se os propósitos são diferentes, a perspectiva da câmera focada no exotismo é a mesma. E mais uma vez, O Local da Cultura, de Homi Bhabha, se estabelece como bússola para as reflexões empreendidas neste capítulo, ao apontar que os estereótipos estão sempre em excesso do que se pode comprovar empiricamente e logicamente, pois quem descreve e “representa” está em um lado favorável, repleto de qualificações que são justapostos com as inferioridades do “representado”, isto é, o lado desfavorecido, caricaturado, permeabilizado por um olhar preconceituoso e afetado.

Estes são filmes em que no geral, o “colonizado” pelo olhar sempre surge com suas características e coisas, nunca uma estrutura definida, organizada, isto é, personagens com as suas crendices e coisas, muito exotismo, o oposto do padrão de “civilização”. É com essa tessitura narrativa que Sabor da Paixão se estabelece no terreno das comédias românticas. São as estampas do folclore, as suas “coisas”, uma estruturação social pouco definida e modernizada, vista como espaço do atraso e do arcaico. Todo esse atraso e arcaísmo, por sua vez, não surgem negativados, ao contrário, no filme ganham uma roupagem otimista, lúdica, colorida e repleta de versatilidade, uma terra de ninguém, mágica, onde você deve deixar as suas inibições de lado e esquecer que tem um relógio: aqui, pelo que somos informados através de uma revelação da travesti Mônica, horário não importa, pois o ideal é viver ao máximo uma experiência tropical.

Sabor da Paixão (Woman On Top/Chile-Estados Unidos, 1999)
Direção: Fina Torres
Roteiro: Vera Blasi
Elenco: Harold Perrineau Jr., John de Lancie, Lázaro Ramos, Mark Feuerstein, Murilo Benício, Penélope Cruz, Wagner Moura
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.