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Crítica | Sabotagem (O Marido Era o Culpado)

por Luiz Santiago
890 views (a partir de agosto de 2020)

SPOILERS!

Sabotagem, filme de Alfred Hitchcock que foi lançado originalmente no Brasil com o título estúpido e mega spoiler de O Marido Era o Culpado, tem uma fama em geral tão boa, que o espectador se aventura em sua sessão achando que vai estar diante de uma película grandiosa do Mestre do Suspense. Mas não é exatamente isso que acontece.

Chamado de “cambaleante” pelo próprio diretor nas entrevistas que deu a François Truffaut, Sabotagem apresenta uma história de suspense centrada na expectativa do público sobre o que vai acontecer ao sabotador (Sr. Verloc, interpretado por Oskar Homolka) e qual é a motivação de seu ato. Já nas primeiras cenas, descobrimos que o Sr. Verloc colocou areia em uma das máquinas da central de eletricidade em Londres, causando um blecaute. Essa abertura apresenta de forma competente o motivo dramático da obra, com direito a uma série de pequenas indicações humorísticas do diretor, como os “fósforos Lúcifer” do vendedor ambulante, as freiras que passam na rua, uma risada maléfica, e por fim, a chegada do Sr. Verloc em casa, indo lavar as mãos sujas de areia numa pia.

Partindo de um início cercado de referências metafóricas ao sabotador, caminhamos para uma apresentação mais detalhada de seu meio cotidiano. O Sr. Verloc é, na verdade, dono do Cinema Bijou, que administra juntamente com sua jovem esposa e é ajudado pelo pequeno cunhado, um garotinho que se tornará peça importante do filme, naquela que é a sua melhor parte.

O roteiro procura mostrar o engajamento canhestro do Sr. Verloc, mas a explicação para o seu envolvimento com o grupo de sabotadores (estrangeiros, é claro), não serve de muita coisa porque é vago demais. Mas a essa altura o público já comprou a história, que também mostra um outro lado, a visão dos fatos a partir da jovem Sra. Verloc e do detetive disfarçado da Scotland Yard. O flerte do detetive e o progressivo envolvimento entre ele e a Sra. Verloc constituem um desvio nocivo para o longa e é em torno disso que as coisas cambaleiam, um passo em falso que acaba tendo consequências em toda a película, já que a “relação” entre esses dois personagens é apresentada falha desde o início.

Hitchcock pode não ter conseguido o tal “grande filme” a que muitos críticos e espectadores intitulam Sabotagem, mas certamente conseguiu uma obra interessante e um bom resultado na esfera técnica. Já foi citado aqui o uso dramático e metafórico de elementos do espaço geográfico (a rua, a cidade) que o diretor explorou no início, algo que pode ser visto em todo o restante do filme e provar a nossa visão de apuro na composição de imagem feita pelo Mestre.

Tendo isso como base, podemos destacar facilmente a cena do zoológico, onde o Sr. Verloc tem uma alucinação através de um grande aquário, onde imagina ver uma parte da cidade de Londres, e, no momento seguinte, a cidade indo abaixo, como se estivesse derretendo ou caindo devido a uma grande explosão, o que era o caso; ou a cena do almoço após o que acontece com Stevie, onde o Sr. Verloc se dá conta do que a esposa queria fazer com a faca e acaba se entregando facilmente para que ela fizesse o que estava pensando (François Truffaut chegou a dizer que via nessa cena mais um suicídio que um assassinato, opinião da qual também compartilho). O próprio Verloc faz de tudo para ser odioso e odiado depois da morte de Stevie, provocando a esposa com falas que incomodam bastante o espectador.

Hitchcock nunca fez segredo de que não gostava da cena da bomba no ônibus, algo que ele sempre chamava de “um erro terrível”. É claro que a cena é bastante forte e chacoalha o espectador na cadeira, mas não há dúvidas de que ela faz parte da melhor sequência de eventos do filme, por mais trágica que seja. Desde a saída de Stevie do Cinema Bijou até a explosão da bomba-relógio no ônibus, há uma criação de tensão sem igual no filme e, de certa forma, toda a obra só faz sentido porque existe esse sacrifício, algo a que o diretor chega em seu raciocínio final e é prontamente compreendido pelo público. É uma pena que o romance e a conveniente explosão do cinema ao final de Sabotagem manchem a sua qualidade geral – afinal, não há quem segure romance desnecessário e Deus ex Machina como ingredientes marcantes de um filme.

Não se trata, todavia, de uma obra ruim. Há muitos elementos tipicamente hitchcockianos na fita que lhe dão um charme e uma atmosfera toda especial, contando até com uma contrastante cena do desenho A Flecha do Amor (1935), de David Hand, produzido pelos estúdios Walt Disney. Essa cena, apesar de aparentemente alegre, dá um significado ainda mais pesado à morte de Stevie e deixa claro o estado de choque em que a Sra. Verloc se encontrava após receber da notícia. Num primeiro momento, ela tenta “fugir” ou esquecer a situação através do cinema, mas o que está na tela remete não só ao personagem mas também o público à tragédia que acabara de acontecer… Sabotagem é uma daquelas produções em que temos as melhores características de um diretor em um filme cuja história se auto-boicota.

  • Crítica originalmente publicada em 17 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 03/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Sabotagem / O Marido Era o Culpado (Sabotage) – UK, 1936
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay, Helen Simpson, Alma Reville, E.V.H. Emmett (baseado na obra de Joseph Conrad).
Elenco: Sylvia Sidney, Oskar Homolka, Desmond Tester, John Loder, Joyce Barbour, Matthew Boulton, S.J. Warmington, William Dewhurst
Duração: 76 min.

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8 comentários

Jacinto de Thormes 10 de abril de 2020 - 12:05

Journey to Shiloh aqui no Brasil foi genialmente chamado de Seis Não Regressaram, já entregando o final do filme.

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GENIO PLAYBOY E SAFADÃO VOLTOU 7 de janeiro de 2020 - 02:48

Pera, o nome do filme em Br é O Marido Era o Culpado? Tipo, eu já vi reclamações sobre os spoilers nos nomes traduzidos, mas isso já é ridiculo.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 7 de janeiro de 2020 - 07:32

Nem me fala. Esse foi o primeiro título do filme aqui no Brasil. É tão trágico que chega a ser engraçado.

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Crítica | Sabotagem (O Marido Era o Culpado) – Críticas 3 de janeiro de 2020 - 20:51

[…] Uma investigação instigante e cambaleante de Hitchcock. Source […]

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Rafael Lima 4 de maio de 2017 - 03:09

Com certeza, eu gostei do filme mais do que você. Hehehe. Na Fase Inglesa, fica atrás apenas de “Os 39 Degraus” na minha preferência.

A abertura me chamou a atenção também. Ela meio que passa toda a atmosfera do filme.

Não concordo com a colocação do Truffaut. Acho que Verloc era um sociopata mesmo, e não dava a minima pro cunhado. Não acho que ele queria morrer, tanto que no climax, ele tenta pegar a faca antes da esposa, mas ela é mais rápida.

Curioso que a morte não era comumente mostrada como uma coisa exatamente trágica nos filmes de Hitch deste período. Em “AGENTE SECRETO”, Hitch havia fugido um pouco disso, ao mostrar o remorso de Madeleine Carrol ao participar de um assassinato. Aqui, ele mostra toda a tragedia que cerca a morte de Steve, desde o momento que o detetive encontra os restos carbonizados do rolo de filme que o garoto carregava(ótima cena) passando pelo desmaio de Winnie(podia ter sido uma cena boa se a atriz tivesse se esforçado) até a morte de Verloc, esfaqueado pela mulher( essa cena é Hitchcock puro).

Duas coisas me chamaram a atenção na película quando assisti.,Hitch usa muito a comida como instrumento narrativo aqui, sendo esse o primeiro filme de sua filmografia que observei isso. Essa característica narrativa surgiria novamente mais tarde em outros filmes como “Frenesi” e “Trama Macabra”. Também notei que Hitchcock já se interessava por pássaros antes do filme homônimo. Aqui, as aves tem uma importante função narrativa. Em “Correspondente Estrangeiro”, outro filme anterior a “Os Pássaros”, também se nota isso, só que de forma mais sutil.

O detetive acaba sendo bem inútil na trama mesmo. Curioso que o papel havia sido escrito para Robert Donat, que só não participou da película por que ficou doente pouco tempo antes das filmagens. Talvez com o carismático ator, o papel tivesse sido mais relevante.

Quanto ao “Grande erro de Hithcock”, entendo por que ele pensava assim, mas não concordo. Achei simplesmente genial. Lembro de que quando assisti, fiquei olhando pra tela e pensando “Como assim”?! Hehehe

Enfim, gosto muito desse filme, e ele permanece fresco na minha mente, o que quer dizer alguma coisa, mas não sei como se sairia numa revisitada.

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Luiz Santiago 4 de maio de 2017 - 20:15

Esse é um dos queridinhos dessa fase mesmo. E olha que eu acho o filme bom, bom mesmo, mas nada de extraordinário. A sequência que eu destaco na crítica — e acho que é a grande lembrada, ou o núcleo que faz muita gente lembrar todo o filme — é uma das coisas mais vivas na minha cabeça. Pretendo revisar o filme por esses dias. Vai ter uma Mostra aqui em SP sobre a fase inglesa do Mestre…

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Felipe Everson 16 de fevereiro de 2014 - 03:33

Injusta sua crítica e sua nota, tendo em conta que o detetive é um anti-herói quem flerta com a mulher do seu suspeito – com direito à corrupção do irmão caçula com comida – e, ao final do filme, carrega a coitada catatônica para sei lá onde tendo na manga o trunfo de ela ter assassinado o marido e poder chantagea-la o resto da vida com isso. Não é um romance aleatório, mas uma história paralela à sabotagem (para mim, mais importante que a principal) sobre um aproveitador disfarçado sob um distintivo.

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Luiz Santiago 16 de fevereiro de 2014 - 04:01

Felipe, sinceramente não vejo essa relação tão profunda e de tamanha importância entre o casal. O detetive não é o padrão de policial que se espera, mas isso se deve ao um fator-Hitchcock, que sempre procurava ridicularizar ou mostrar a polícia de uma forma nada animadora (especialmente em sua fase britânica).
Porém, mesmo confundindo dever com emoção, não vejo indicação alguma de que o detetive possa assumir um papel de fato como anti-herói, principalmente agindo do modo como você interpretou, ao final do filme. Penso que o romance entre os dois é sim de um caráter gratuito e não uma história paralela à sabotagem.
Mas é interessante conhecer outras visões sobre o filme.
Obrigado pelo seu comentário e volte mais vezes.

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