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Crítica | Sabrina (1954)

por Luiz Santiago
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Baseado na peça de Samuel A. Taylor, que juntamente com Ernest Lehman e com o diretor Billy Wilder escreveu o roteiro para as telonas, Sabrina traz características na construção de seu romance que lembram muito outro trabalho de Wilder, realizado em 1948: A Valsa do Imperador. Os elementos em comum nos dois filmes são de ordem social, destacando de maneira direta a posição de dois personagens e a “insanidade” de um romance acontecer entre a dupla… unicamente pelo motivo classista. Em Sabrina, todavia, há um tantinho menos de acidez na escrita desse tema e muito mais da exploração de ocupação do homem vivido por Humphrey Bogart, versus uma paixão antiga e aparentemente impossível da mulher vivida por Audrey Hepburn, situação que acaba entrando em uma ciranda de amores onde os sentimentos brotam, murcham e tocam indivíduos insuspeitos.

Mesmo na refilmagem de Sydney Pollack, lançada em 1995, essa abordagem serve como guia narrativo, tal como no clássico dos anos 50, mostrando diferenças de classes através do trabalho como uma ponte para expor uma variação de paixões, começando pela fixação de uma pessoa por outra (a Sabrina de Hepburn pelo David de William Holden) e depois inserindo o improvavelmente sentimental Linus, de Bogart. O triângulo amoroso, porém, funciona apenas tardiamente. Isso porque não é apresentado como algo já formado ou em vias de formação no começo da fita. O propósito do filme é justamente a observação comportamental desses diferentes personagens e a forma como reagem a alguma maturidade que lhes chega ou ao estágio de um sentimento que não esperavam ter.

Olhemos, contudo, a tal “maturidade” quando se trata de Sabrina. Assim como fizera em A Princesa e o Plebeu, Audrey Hepburn interpreta uma personagem em transformação, e isso é supostamente tão intenso em sua vida, que até na imagem vemos a fase bem demarcada pelo corte de cabelo e pela mudança no figurino. Mas Sabrina não muda de verdade. E este é um dos meus grandes incômodos com o filme. Se no início da trama ela é uma incorrigível (e enervante) jovem caída de paixão por um homem mais velho, de uma classe social distinta e que a olha com simples desprezo, “como se não tivesse ninguém ali“, nós a vemos no mesmo estágio ao final, muito embora o texto e a construção visual da personagem, mais a mudança de tom na atuação de Hepburn, queiram indicar o contrário.

A viagem de Sabrina para Paris, a fim de se tornar uma cozinheira, é completamente desperdiçada com sonhos de um amor impossível, trancando qualquer possibilidade de enriquecimento da história nesse segmento. Salvam-se aí as cenas das cartas lidas pelo pai para a equipe de empregados na mansão dos Larrabee, e os tiques e cacoetes do professor chef. Quando retorna aos Estados Unidos, sua suposta maturidade se mostra um verdadeiro engodo: ela não só mantém a paixão, como investe no sonho amoroso, tentando jogar o charme aprendido para atrair os olhares de David. Esse lado apaixonadamente bobo, quase inocente e inconsequente, segue quando o roteiro resolve brincar com os sentimentos da personagem e muda o seu interesse de David para Linus.

Wilder logra, no entanto, manter o nosso interesse ativo justamente para presenciar as mudanças prometidas de forma muda. O homem de negócios terá o seu coração tocado? O homem irresponsável conseguirá tomar alguma decisão madura na vida? A romântica incorrigível amadurecerá ou encontrará o seu grande amor? Em torno dos clichês comportamentais, o texto cria uma constante expectativa e as interpretações conseguem dar conta de cada uma das fases (os personagens masculinos mudam de verdade aqui), embalados por La Vie en Rose. A despeito do tratamento dado à protagonista, Sabrina conserva a sua beleza na visão geral sobre o amor, filmada de maneira distinta em cada fase de mudança dos indivíduos. É um filme sobre encontrar tesouros escondidos, sobre sonhar com os pés nas nuvens e também sobre ceder, quando dá na telha de olhar para o que diz a razão.

Sabrina sempre me pareceu um filme sobre conquistas em cenários improváveis, e isso nos faz ver as transformações aqui exibidas como desconstrução e reconstrução de algumas ideias e ações. A questão social volta ao final do filme, tratada de forma despreocupada, como “sinal dos tempos“, e o grande destaque é mesmo a vitória do coração, apesar de uma tomada de decisão nos derradeiros minutos não ter unicamente a ver com isso. Até um diálogo com o amor fraternal podemos levantar aqui, especialmente pelo que acontece no desfecho. Só é de se lamentar que em uma obra com tantas mudanças, a protagonista, que inclusive dá nome ao filme, seja a que menos mostre uma verdadeira transformação. Sem sombra de dúvidas, um legítimo filho de seu tempo quando se trata da representação romântica da mulher ne tela.

Sabrina (EUA, 1954)
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, Samuel A. Taylor, Ernest Lehman
Elenco: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, William Holden, Walter Hampden, John Williams, Martha Hyer, Joan Vohs, Marcel Dalio, Marcel Hillaire, Nella Walker, Francis X. Bushman, Ellen Corby, David Ahdar, Raymond Bailey, Brooks Benedict
Duração: 113 min.

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