Crítica | Saguaro: Retorno a Window Rock

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Thorn Kitcheyan. Este é o nome do ex-militar de origem Navajo e Tohono O’odham, um “homem cheio de espinhos desde a juventude” a quem apelidaram Saguaro. Com uma aparência indianizada de Tom Berenger, este interessante e pouco conhecido personagem da Sergio Bonelli Editore chegou às bancas italianas em junho de 2012, com arte de Fabio Valdambrini e roteiro de Bruno Enna, que em entrevista disse que concebeu o personagem após ler sobre os “Shadow Wolves”, grupo de agentes federais nativo-americanos que operavam na fronteira entre o Arizona e o México. A ideia inicial para o personagem era a de uma aventura contada numa graphic novel, que depois virou uma minissérie e então uma série completa, tendo um total de 35 volumes, sendo encerrada em abril de 2015, como o álbum Além do Horizonte.

Retorno a Window Rock é a aventura de estreia de Saguaro e nela temos apenas informações rápidas sobre o personagem, cedidas ao longo da instigante trama. Descobrimos que ele está voltando da Guerra do Vietnã, mais especificamente de uma campanha no Laos e, após ser ferido e vivenciar um sem-número de horrores, passou por uma cirurgia, foi dispensado e voltou à sua terra. O local e temporalidade da aventura são literalmente mostrados na página inicial do volume: Window Rock, Arizona, julho de 1972. A compra de uma terra estéril, pertencente a um velho nativo chamado Tocho nos introduz ao protagonista e já dá ao leitor a impressão de que algo errado está para acontecer nesse local, mas co leitor não conta com as boas surpresas que virão pela frente…

Saguaro é, portanto, um western moderno. Aqui temos uma história policial ligada a uma questão indígena próxima ao BIA (Bureau of Indian Affairs), que liga o governo federal aos Conselhos Tribais. É como ver um faroeste de Sam Peckinpah refigurado para uma série policial em quadrinhos, algo como um Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia menos violento e com a mesma atmosfera + algumas camadas de burocracia policial e discussões sobre terras, costumes e contatos entre nativos e homens brancos. O curioso é que a explicação de Bruno Enna, em entrevista ao próprio portal da SBE sobre as suas fontes de inspirações para conceber a série (especialmente os dois volumes iniciais), estão espalhadas por diversos lugares. O autor fala de aventuras mais duras de Tex, do senso de deslocamento em Mister No e do conjunto de mitologias numa “jornada de herói” muito forte em Blueberry, como referências nos quadrinhos.

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Na mesma entrevista, o autor ainda cita a leitura de livros de antropologia e história dos índios americanos, revistas especializadas e romances, como os de Cormac McCarty e Tony Hillerman, além de documentários sobre o tema. Como filmes de referência para a gênese desta série, Enna cita obras como Sem Destino (1969), Corrida Contra o Destino (1971), Mais Forte Que a Vingança (1972), Terra de Ninguém (1973), Três Enterros (2005) e Onde os Fracos Não Têm Vez (2007). E é muito interessante que uma porção dessas citações oficiais possam ser vistas ainda nas primeiras páginas desta primeira aventura, que transita entre a Reserva Indígena, o deserto e a pequena cidade cercada por rochas e terras áridas. Grupos de motoqueiros típicos dos anos 70 e mexicanos são outras duas grandes presenças nessa história, e dão a aparência dramaticamente fascinante e muito cinematográfica que temos do Universo, num aplaudível trabalho do desenhista Fabio Valdambrini.

Vale também observar que o “cavalo” do protagonista aqui foi substituído por uma Harley Davidson Flathead 1940, embora ao longo da série ele vá mudando de veículo. Dentro de um Universo contemporâneo, setentista, cru e envolvendo crimes e tráfico em uma cidade e região multirracialmente povoadas, Retorno a Window Rock é a boa introdução de personagem na Sergio Bonelli Editore. O final, infelizmente, se desliga bastante do que esperávamos do roteiro, levando em consideração tudo o que havia sido construído até então, mas pelo menos mantém o desvio dentro de uma esfera mística, retomando uma pequena pista plantada no início da saga. Mesmo desequilibrando a história em um momento crucial, não deixa de ser uma colocação interessante e não derruba a qualidade do texto a ponto de tornar a trama ruim. Mais um acerto da grande casa italiana no início de uma série.

Saguaro #1: Ritorno a Window Rock (Itália, junho de 2012)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Bruno Enna
Arte: Fabio Valdambrini
Capa: Davide Furnò
98 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.