Crítica | Saguaro: Sombras no Escuro e A Mordida do Cobra

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A apresentação de Saguaro em Retorno a Window Rock definiu bem o cenário e os personagens deste western moderno de Bruno Enna para a Sergio Bonelli Editore, uma proposta que nesta segunda edição da série, Sombras no Escuro (originalmente publicada em julho de 2012), fica ainda mais evidente e, de maneira bastante curiosa, ronda um tipo de problema que já conhecíamos nesta região: a tentativa de um grupo de pessoas em conseguir território dos índios para começar algum tipo de empreendimento obscuro. Em comparação à primeira saga, esta aqui recebe um número maior de camadas e um pouco menos de ação policial à lá Alfredo Garcia. Esta decisão narrativa fez com que o roteiro olhasse com maior cuidado para o protagonista e para os problemas da região, expandindo a abordagem nos dois lados e terminando com um resultado ainda melhor que o da estreia.

Aqui, sob a arte de Luigi Siniscalchi, começamos com o Capitão Walken atribuindo uma missão ao novato Gonnie. Aparentemente a morte misteriosa do índio Hosten Jack Lapache não era mais que um “simples acidente” e o Capitão tinha coisas bem mais complicadas para resolver. Essa deixa inicial do roteiro é uma excelente marca para a formulação do drama que se seguirá, com Saguaro (Thorn Kitcheyan) e Kai Walken investigando o envenenamento dos rebanhos dos Navajos, a corrupção na Câmara e Conselho da Nação Navajo mais algumas outras questões. Pouco a pouco, a população local se anima com a presença de Saguaro — que aqui recebe a proposta para se tornar um agente federal especial, “sem burocracia e papelada” e fora do meio onde normalmente se pode encontrar policiais corruptos, indígenas ou não.

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O roteiro leva adiante as discussões políticas sobre a posse de terra e a representação governamental para os povos indígenas nos Estados Unidos, utilizando um programa de rádio para também colocar na mesa o tratamento dado a esses povos pelas administrações de Eisenhower e Nixon. Com a política local de especulação feita pela Southwest Corporation, o texto mostra até que ponto pode ir determinadas empresas para conseguirem estruturar os seus negócios. E no meio desse jogo todo, uma interessante camada humana vai se construindo na série em volta de Saguaro (vide a idealista Kai e o pequeno Miguel, só para citar dois exemplos) e isso abre uma interessante possibilidade de ação para ele, agora com raízes bem definidas, uma missão dada e claros inimigos para combater. É assim que se dá força a uma série!

Saguaro #2: Ombre nel Buio (Itália, julho de 2012)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Bruno Enna
Arte: Luigi Siniscalchi
Capa: Davide Furnò
98 páginas

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A Mordida do Cobra

De maneira bastante surpreendente, A Mordida do Cobra começa num cenário bem distinto do que víramos em Saguaro até aqui. O contexto, logo na primeira página, nos diz o seguinte: Vietnã, província de Quang Tri, março de 1969. Neste flashback, temos informações sobre um passado já aludido mas não mostrado na série, ou seja, a atuação de Thorn Kitcheyan na Ásia. O momento que o roteirista Bruno Enna escolhe para retratar aqui é bastante forte, criando um baita precedente “fantasmagórico” e de vingança para o personagem que, anos depois, voltaria para atormentar a vida dele. Então pulamos para o Arizona, na fronteira com o México, em fevereiro de 1973, onde o protagonista, Kai e mais alguns Shadow Wolves cumprem uma missão de apreensão.

Tudo parece muito normal, à parte os problemas de convivência que o leitor já observara na série. O bom desses enredos é que vemos o cotidiano desses personagens contados em continuidade, então não dá aquela impressão de letargia de um núcleo enquanto o outro recebe total atenção do texto. Em cada corte a história avança e um novo perigo aparece. No presente caso, ainda pairam sobre Window Rock as sombras de Noah Folsom, o criminoso preso no primeiro volume, mas que está movendo peças importantes dentro da cadeia. E a intenção dele, além de voltar a controlar braços de lucro na região, é eliminar Miguel, o garoto mexicano que é testemunha ocular de seus crimes.

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A impressão de que “a história realmente começou” está por toda a parte nesta edição. O conteúdo da ação é intenso e mesmo que existam alguns desencontros no tratamento dos diferentes núcleos — especialmente no rancho Bom Retiro — o que o autor alcança aqui é algo muito bom. Com arte de traços grossos e finalização bastante sombria de Marco Foderà, A Mordida do Cobra amplia a mitologia do protagonista e termina com a notícia na TV de um real evento na História dos Estados Unidos, o Wounded Knee Incident, que começou em 27 de fevereiro de 1973, no Dakota do Sul, terminando apenas em 8 de maio. Neste cerco, uns 200 Oglala Lakota mais alguns seguidores do Movimento Indígena Americano (AIM) tomaram e ocuparam a cidade de Wounded Knee, na Reserva Indígena Pine Ridge . O protesto foi uma reação ao fracasso da Organização dos Direitos Civis de Oglala Sioux (OSCRO) ao impedir o presidente tribal Richard Wilson, acusado de corrupção e diversos abusos. Os manifestantes também criticavam o fracasso do governo em cumprir os tratados com os povos nativos e exigiram a reabertura das negociações. Ao fim, dois índios foram mortos e 14 ficaram feridos (contra 2 feridos do lado americano).

Em tempo: o local escolhido pelo movimento não poderia ser mais simbólico. Na região, acontecera a última batalha das Guerras Indígenas e também o evento conhecido como Massacre de Wounded Knee, em 29 de dezembro de 1890.

Saguaro #3: Il Morso del Cobra (Itália, agosto de 2012)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Bruno Enna
Arte: Marco Foderà
Capa: Davide Furnò
98 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.